Arquivo da tag: E a roda gira

Primeiras Impressões

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Poltrona 24 A - Vôo 6681 Webjet

Vôo levemente atrasado, encontro amigo na sala de embarque. Wi-fi não funciona e os altos falantes anunciam a todo momento em português e inglês macarrônico. Passageiros que devem embarcar.

Poltrona do meio, vizinhos sonolentos. Bebê chorando ao lado e, no banco de trás, um garoto de 9 ou 10 anos não para quieto um só minuto.

Velocidade: 800 km/h, altura de vôo cruzeiro. Fecho os olhos para cochilar, mas o garoto do banco de trás não me permite ter este luxo.

Revista superficial, lanche mixuruco. Duas horas depois, avisto quadras e ruas planejadas ao longe, avenidas largas e o Lago Paranoá.

Pouso suave, terra firme, cabeça longe…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Mais 30

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Pensava que quando o dia chegasse, fosse me sentir diferente. De fato, dá um certo tremor nas pernas, a gente se olha no espelho e por mais que se veja igual a todos os dias, o olhar minucioso enxerga coisas que não existem em lugares não imaginados.

Mas é sério, há anos pensava que, ao acordar neste dia, veria alguma transformação radical em mim. Pensava que me sentiria (mais) adulta, (mais) inteligente, (mais) mulher. Pensava que estaria ou mais feia ou mais bonita, ou mais magra ou mais gorda. Pensava que ficaria loira ou que não estaria ali.

Já cheguei a pensar que nunca estaria me olhando naquele espelho daquele quarto naquele exato ponto geográfico. Que talvez eu já tivesse cabelos brancos ou muitas tranças, rodopiando longe daqui. Que teria filhos e que eles já teriam meus netos.

Pensei que o mundo seria diferente… Mais colorido? Mais preto e branco?

A verdade é que o mundo já mudou. Já foi multicor e já foi cinza tantas vezes pelos meus olhos. Eu já mudei. Já emagreci e engordei feito sanfona em festa de São João, já pintei meus cabelos sem estarem brancos e há dias em que me acho bela, noutros, nem tanto.

A verdade é que já sou adulta e mulher, que minha inteligência deixa a desejar em alguns momentos, pois não sou nenhum Einstein. Já me aceito assim, nem bonita nem feia, um dia fatal, outro normal, gata borralheira ou cinderela, brava, calma, baixa, chique, simples. Minhas pernas já não são mais as mesmas, assim como minha flexibilidade também já teve dias melhores.

Mas hoje não estou velha. Nem sábia. Nem gorda. Nem magra.

Mas… Estou preparada: que venham mais 30!

Ana.

Melô do Fim de Ano

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Melô do Fim de Ano
Pois assim têm sido meus últimos dias do ano…

RODA VIVA
(Chico Buarque)

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino prá lá

Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente até não poder resistir
Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva e carrega a roseira prá lá

A roda da saia, a mulata, não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata, a roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa, viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva e carrega a viola prá lá

O samba, a viola, a roseira, um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa, faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva e carrega a saudade prá lá…

***
Até mais ler.
(Semana que vem.)

Ana.

(Foto: Ana Letícia. Letra: Chico Buarque de Hollanda.)

Menino, eu vi!

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Muro

Eu vi o menino andando à minha frente. Lá longe, a mãe do menino, esperando.
Eu vi o homem barbudo vindo, olhando o menino e a mãe do menino.
Eu vi a casa na esquina, a rua, carros passando, o muro baixo da casa e o portão branco, enferrujado.
Eu vi o homem barbudo, lá longe, olhando a casa da esquina.
Eu vi o menino parando, a mãe do menino parando e falando ao menino.
Eu vi o menino pedidno e a mãe ascentindo com a cabeça.
E o homem barbudo vindo, olhando o menino.
Eu vi o menino mijando no muro baixo da casa da esquina com seu portão branco, enferrujado.
Eu vi a mãe virando de costas, o homem vindo andando, olhando a casa da esquina e o menino a mijar.
Eu vi o tempo passando e o muro baixo da casa da esquina molhando com um brilho amarelo.
Eu vi o homem barbudo perto do menino. O menino parando de mijar.
Eu vi o menino correndo, o homem barbudo entrando na casa de muro baixo da esquina, abrindo e fechando o portão enferrujado.
A mãe do menino a ralhar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Entre pés e costelas

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Objetos :-)

(ou: Devaneios sobre ossos quebrados alheios)


Sempre torci o pé e para mim isso sempre foi uma coisa “normal” e corriqueira. Sou completamente viciada em esportes e na escola jogava queimada, ginástica olímpica, corrida, futebol, natação, ping-pong, basquete, handball, vôlei… Não parava quieta e minhas muitas atividades físicas sempre causaram dores musculares e algumas leves contusões, nada que me prejudicasse muito.

Só que essa “normalidade” toda, um dia se tornou estranha pra mim, depois de uma conversa com minha tia, que é psicóloga. Este papo ocorreu após o seguinte acontecimento: estava em minha casa, num dia de folga do treino, rodopiando como uma louca meus fouettés an tournant. Eis que escorrego, viro o pé e caio no chão, da mesmíssima forma que eu já caíra inúmeras vezes nos treinos na escola de ballet. A diferença foi que a torção no pé foi bem feia, inchou muito, e por pura sorte não rompi todos os ligamentos do tornozelo (assim disse o ortopedista durante a consulta)…

Nesta época, minha vida estava uma loucura e não sabia onde iria parar com tanta gandaia, não sabia o que queria da vida, entre outras coisitas que permeiam a mente e a vida de alguns adolescentes tardios (como eu). Segundo minha tia, esta torção no pé simbolizou minha falta de rumo e acabou que, obrigatoriamente, me forçou a parar e repensar sobre minha breve vida, durante as muitas sessões de fisioterapia a que tive que comparecer a fim de andar e dançar de forma normal novamente. E não é que deu certo?

Pensando por este lado, faria sentido, então, alguém quebrar a costela quando se está passando por dificuldades emocionais, sentimentais, quando se está insatisfeito com escolhas que se anda fazendo, “amorosamente” falando… Pensem bem, o esqueleto humano é composto por 206 ossos (segundo a wikipedia), e o ossinho localizado no tórax – a costela – foi o escolhido por Deus para confeccionar a mulher, aperfeiçoando (em termos) sua criação original – o homem…

Religiões e devaneios à parte, na dúvida na dúvida é melhor prestar mais atenção no chão em que pisamos – e não fazer fouettés an tournant em piso com sinteco!

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Arrebatador (*)

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Sem cabeça
(*) Texto original publicado aos 14.06.2007.


Vou parar de fingir que não estou nem aí. Vou parar de fazer ironias e dizer coisas sem sentido, e nunca falar o que eu quero de verdade. Vou parar de fingir que estou tranquila no meu canto e que não penso em você a todo instante.

Vou parar de fingir que não quero falar com você todos os dias e parar de fazer o tipo “ocupada todo o tempo”. Não mais fingirei que não fico todos os dias te esperando dar um sinal de vida, tomar mais uma pílula que seja de sua atenção.

Não vou mais fingir que não me decepciono, que toda a minha agressividade, ironia e sarcasmo não são em decorrência de faltas e atitudes.

Não falarei mais com você sobre coisas não corriqueiras, mas sobre como foi o meu dia, perguntarei como foi o seu, admitirei que faço planos, sonho, penso e programo um monte de coisas, erro, grito, xingo, faço xixi e tremo choro quando estou com raiva.

Vou parar de fingir que não me lembro do seu toque, da sua voz. Vou parar de fingir que não me apaixonei por você.

Quero ouvir todas as suas letras, não só as entrelinhas. Quero parar de decifrar símbolos, palavras, reações. Quero simplesmente ouvir que me quer e nada mais. Simples assim.

Vou te falar uma só coisa: esta não é só mais uma historinha de amor, dessas que a gente menciona pros amigos, filhos e netos, um caso, uma aventura, algo que morreu por aí.

Vou parar de enrolar e dizer de uma só vez: eu quero que seja arrebatador.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Os dentes e os trapos

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A terra é redonda

O dia passa lentamente, as horas escoam pelos cantos da mesa, já nem sei onde estou. Minhas palavras, que não são poucas, mal são ouvidas, balbuciadas por mim nas horas de torpor. Em meio a tanta gente, vejo você em seu olhar leonino, penetrando entranhas e sugando minha carne com a ferocidade de um gatinho assustado querendo se aconchegar.

Do outro lado da rua, um pomar de águas-vivas sobrevive à sequidão sentimental, que atualmente cisma em jogar dardos com seu parceiro noturno, animador de festas, passatempo de andarilhos e agente inebriante de algumas mentes que se esqueceram de um dia brilhar. E, ao cruzar contigo, me deixo invadir pela onda de seus fartos cabelos. Submersa em meias palavras, curo a ressaca do dia que se tornou noite, após longos caminhos de fumaça vermelha e vapor de poeira estelar. Ignoro o veneno que me queima a pele, causado por viva água, bela e suculenta, fingindo gostar de sofrer, de rolar em chão de espinhos gelatinosos.

Uma missão cumprida na sujeira azul de um planeta chamado Eu, varrendo pensamentos e espantando carniceiros. Roubam a vida das águas, lhes retiram o sal. Sem suor, sem lágrimas, corro a seu encalço, lhe prendo as vestes sob postes e luares e tasco um belo de um beijo que nunca se esquecerá.

O mundo some e o dia acaba, esquecemos de tudo e falamos de um nada tão distante que nem sabemos da dor que se fez riso. Do branco do seu dente cariado ou do redemoinho que restou de meus trapos.

Ana.

(Ana Letícia: texto e foto.)

Sobre a "dita cuja" (gripe) suína…

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Em meio às árvores...

Na dúvida é não facilitar…
Na dúvida é amar ao próximo como ama a ti mesmo.
Prestem atenção: como ama a ti mesmo.
Há um tom de egoísmo na pregação de Inácio de Loyola (e na doutrina Jesuíta)?
Já ouvi muita gente falar muita besteira sobre isso. Sempre discordei veementemente.
Egoísmo é importar-se com o seu vizinho só porque ele é pobrezinho e não pode ficar doente, pra não transmitir doença pra você!
Mas amar a si próprio é fundamental para que possamos amar o outro. Só assim conseguimos olhar o que tem lá fora: quando a gente se volta para dentro e percebe o quão frágeis todos nós somos. E é aí que enxergamos a única certeza que podemos ter em vida – a morte! E assim, todos somos iguais, vulneráveis, egoístas, incapazes de dizer “eu te amo” com amor verdadeiro, na hora que dá vontade. Pensamos em ações e reações, pesamos riscos, fazemos seguro de vida, carro, imóvel…
E assim, fazemos mal.
E assim, faz mal aquele que despeja lixo nos rios, polui o ar, faz mal não respeitar o direito do próximo, faz mal não amar, não se colocar no lugar do outro.
Menos preconceito.
Mais amor
Sorrisos
Aplausos
Cores.
VIDA.

(Clique para ouvir)

Ana.

(Foto e texto: Ana Letícia.)

Presente, Passado e Futuro

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Presente, Passado e Futuro

(Texto e Foto: Ana.)

Obs. 1: Clique no cartão para visualizá-lo em tamanho maior.

Fui, votei e voltei

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Beca dependurada
[…] Por que determinado partido recebe mais votos? Por que certo candidato é eleito numa eleição e é preterido em outras? O que muda na cabeça dos eleitores? […]

O voto é a indicação, pelo eleitor, do candidato ou candidatos de sua preferência. Todavia, este instrumento de participação na vida política se insere dentro dos direitos políticos do cidadão, e abrange não só o ato de votar, como também o ato de ser votado, tornando-se, então, um conjunto de condições que permitem ao cidadão intervir na vida política. […]

No decorrer da curta história do Brasil, o povo foi se colocando à margem dos destinos da Nação e assim, fez crescer uma idéia negativa de que no Brasil não são encontradas as condições necessárias para a implantação de um processo democrático verdadeiro. Cabe esclarecer que em nosso País as eleições têm sido realizadas desde a Colonização, com características peculiares em cada momento histórico.

A forma de legitimação concedida pelo sufrágio popular em outras épocas, não se fazia através dos votos dos cidadãos como se conhece hoje. Inicialmente, tal acontecia de forma indireta e em vários turnos. Posteriormente, adotou-se o sufrágio de forma direta e em turno único, mediante o prévio alistamento e sua conseqüente formação do colégio eleitoral. Em determinados momentos, admitia-se o voto censitário, expressamente autorizado na Constituição de 1824.

A renovação na democracia decorre de um exercício constante do poder de seleção. […]

A perspectiva otimista que se apresenta no Brasil de hoje está longe de se apoiar na inteligência dos eleitores, uma vez que a lei confere aos cidadãos a apenas a capacidade natural do voto, mas não cultura e discernimento a quem não os possui de fato. Como conseqüência imediata, temos que a política se transforma em monopólio dos políticos, isto é, dos que fazem da política profissão e meio de vida. A maioria de nossos representantes, infelizmente, utilizam-se da política e do voto como um instrumento referendatário para a sua permanência no poder e consecução da sua vontade individual.

Existe um ditado popular que apregoa: “vão-se as leis aonde estão os Reis”, o que sugere que o Direito, a norma ou, no mínimo, a resposta que o aparelho judicial irá fornecer na sua missão de dirimir lides, são guiados por motivos políticos e sociais – a solução sempre poderá ser tendenciosa, poderá inclinar-se para o lado dos mais poderosos. Se verdadeiro, este fato atenta contra a consciência popular, para dizer o mínimo. Afronta os princípios constitucionais sobre os quais o ordenamento jurídico brasileiro é erigido. Na verdade, é uma afronta ao próprio direito, em um Estado de Direito. […]

Trecho extraído da “Introdução” à minha Monografia de Graduação, apresentada em 2003 na UFMG… É rapaz, voto é coisa séria…

Vale a reflexão, né?

Ana.