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Tela em branco

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E quando você acha que de tudo já aconteceu na sua vida, que já fez tanto e já conheceu lugares e pessoas de todo tipo, quando você acha que só teria mais uns poucos caminhos possíveis pra seguir adiante, vem a própria vida e te entrega uma tela em branco; então, o que fazer? Há quem procure uma caneta ou lápis de colorir, canetinha hidrocor ou giz de cera, há quem projete imagens animadas e sons, há até quem se cubra com o pano; já eu me jogo, me enrosco, deito e rolo e invento coreografias, figurinos e, então, me permito sonhar na tela grande, e quando me pego assim, sonhando de novo, entendo a grandeza do momento que se descortina a minha frente, o meu “momento tela em branco”; depois dele, o que existe são possibilidades, sonhos dentro de outros sonhos, e entendo que tudo (e nada) que vivi antes me preparou para o que virá, por ser inédito; protagonizo a pré-estreia de algo que ainda não aconteceu, que não sei o que é, pois a tela em branco da minha vida está começando agora.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

** Todos os direitos reservados. **

Quando o blues se torna jazz

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Bacen, na chuva, na rua, pela janela do carro... (Quase submerso!)

Se te adoro por quase um minuto
Depois te odeio mais
Te ligo e desligo
Te vejo e me escondo
Te ouço e não sei o que dizer
Ouvindo blues, as lágrimas embargam vozes
e ouço do rádio: “I ain’t gonna worry my life anymore…”

Os gritos da vizinha não me acordam mais
Se penso muito, me confundo mais
E minha antena mal capta os sinais
Loucos, confusos, poucos

Perco a capacidade
Perco o sono
Perco o amigo
Perco a piada
Viro a piada nos meus pensamentos
Tão corajosa e franca
Tão diferente e medrosa
Fora deles
Sou grossa, sou bicho
Ora doce, ora aguardente

Me excedo menos que queria
Me contenho mais que deveria

Até achar um meio termo
Meia noite já passou
Não vejo estrelas pois meu céu não permite

E quando o blues se torna jazz
É preciso me despedir
Calar a boca e saber ouvir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Poente

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Memorial JK 9

Um passarinho me contou
Que parou de chover
Contou do Sol e do seu sorriso falso
Da Lua e sua cara fácil
De suas palavras vazias e sua vida dupla
Nada era novidade
Só não quero ouvir o canto do pássaro
Não mais
Não caio no conto da carochinha
Que de carolinha não tem nada
Esqueço o mundo
Esqueço as horas
Mas não esqueço quem eu sou
Minha escola
E minha alma.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Voltando…

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Flor e luz

Então voltei à caneta e caderno.
Tenho pensado o porquê de, ultimamente, estar resistindo tanto a isto. Escrever.
À mão livre. Com a tinta escorrendo pensamentos no papel branco. Coloco desculpas na falta de tempo. No trabalho. Na rotina. No sono. No vinho.
Mas a verdade é a dor. Não é nada grave. Não é nada crônico.
Mas é física essa dor.
Acho que é a dor de ter as palavras e sentimentos hermeticamente calculados entre margens, logotipos, páginas numeradas e pareceres esteticamente organizados, assim como os pensamentos juridicamente treinados.
A dor é de tanto digitar. Enquanto uma mão digita, a escrita sofre, destreinada que só ela.
A letra, antes redonda, agora se acostumou obtusa, angulosa e desleixada, só sabe rubricar páginas e assinar em linhas tênues e contínuas, acima de meu nome.
Que coisa louca é essa tal de tecnologia, que nos liberta e aprisiona, tudo ao mesmo tempo. São tantos interesses, passatempos, jogos, vídeos, que, de tão variados, se tornam dependentes de nós mesmos, de nosso tempo, da nossa boa vontade.
Que rede social é essa, em que todos se apresentam felizes?
Prefiro o contato social, fazer o social, ser social.
As socialites que me perdoem, mas não é delas que estou falando.
As socialistas que me perdoem, mas beleza é fundamental. (E o socialismo já acabou, não é mesmo?)
E, de tanto escrever assim, agora, caneta no papel, tinta e pensamento, lá vem ela. A dor. Que me fatiga os dedos e músculos das falanges da mão destra.
Enfim me despeço, entre rabiscos quase ilegíveis.
Preciso digitar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Resta Um

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Morar sozinha tem dessas coisas…
– acordar na hora que quer, arrumar a cama beeeem esticadinha e se sentir uma rainha ao deitar, sujar pouquíssimas louças, não ter que conversar com ninguém na hora do mau humor, ouvir o som no volume que mais te der prazer, não ter que dividir o controle remoto da TV com ninguém, ir dormir bem tarde sem que ninguém reclame, gastar horas na internet sem ter que dividir o computador com outra pessoa, tomar café da manhã ao meio dia e almoçar depois das 17h, ter 400 livros ao mesmo tempo em cima da mesa lateral da cama sem que guardem de volta na estante sem que você peça, saber onde estão guardadas todas as coisas…
– acordar sozinha, arrumar a cama pra ninguém, não ter ingredientes necessários para cozinhar, morrer de saudades de arroz e feijão com gosto de casa, não ter com quem conversar, ninguém te esperar para dormir, tomar café da manhã sozinha, almoçar sozinha, não ter outra coisa pra fazer que não seja ficar no computador, assistir filmes sem ter um travesseiro humano para recostar, descobrir que os gêneros alimentícios perecíveis de fato perecem quando não consumidos…

Tudo na vida tem os prós e os contras, o que é bom num dia pode ser a pior coisa do mundo em outros. O jeito é continuar a sobreviver!

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

E quando…

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Vida que nasce das pedras. #tiradentes #mg

E quando tudo parece perdido, e a noite demora a lembrar?

E quando as coisas mudam, as pessoas mudam, e você não quer mudar?

E quando o céu já está claro e você, pensando que é noite, fotografa a Lua? Mira o infinito? Joga pedra na ilusão?

Paga o pato, enterra o cão.

São caminhos pontudos de ladrilhos e ladeiras, cadeiras desossadas de manhãs sem sorrisos. Os dentes, pendentes, esboçam sorrisos roucos, poucos, assistindo estáticos às estátuas perambulantes.

Não levam espaços, levam barcos a vela, pavios e sonhos. Levam ondas de um mar que não existe, para um lugar que não há.

Mas me calo, espero passar. Prefiro a tolice à desilusão.

Teimosia é me entregar ao chão.

Uma pirueta e lá vou eu. Atrás do trio, elétrico, só vai quem já viveu.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Poeira em alto mar

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Era um típico sábado de verão. Dia lindo, nenhuma nuvem no céu, sol escaldante, piscina, churrasco, cerveja gelada, rock n’ roll nos ouvidos e muita conversa boa.

Ao percebermos que o carvão e a cerveja estavam chegando ao fim, apelamos para o “disque-birita”, segundo ele, a melhor invenção da humanidade depois do youtube. (Para mim, quem ganha é o google. Mas, foquemo-nos.)

Campainha tocando é sinônimo de cachorros latindo, ou seja, mais um carregamento da dita cuja sendo entregue pelo motoqueiro, o qual nem ousa desembarcar propriamente em razão de canelas calejadas das investidas frenéticas dos cachorrinhos de guarda e companhia. Estes, nos protegem de tudo – talvez até de nós mesmos, ao tentarem impedir a entrega dos comes e bebes (mais bebes que comes, em verdade).

Meu namorado me grita de lá: – Rápido! Segure a Miúda! – referindo-se à pequena fox com síndrome de pit-bull.

Eu, um pouco relutante – pois usava trajes de banho – e pensando que o escândalo canino era simplesmente em razão do pobre do motoboy encarregado das cervejas, como já era costume da pequena Miúda e dos demais cachorros da casa, me dirigi ao local lentamente, porém curiosa. Foi então que avistei meu namorado, imóvel junto à porta, carregando não só as cervejas e o carvão, mas também uma montanha de 1 metro de roupas empacotadas.

Pensei, por um instante, que fossem trouxas limpas da lavanderia ou algo do tipo, mas tudo aquilo não me fazia qualquer sentido pois sua mãe havia colocado roupas na máquina para lavar naquele mesmo dia, pela manhã. Ao mesmo tempo, alcancei Miúda debaixo de uma mesa baixa, e a prendi no colo: – O que é isso? – apontei para o embrulho.

Meu namorado, com olhos faiscando de satisfação, com aquele monte de roupa de inverno nos braços, responde, em tom de voz baixo, como que em segredo: – É um gajo português aí na porta, vendendo jaquetas de couro!

Até eu entender que, de fato, se tratava de um vendedor de roupas, cuja nacionalidade era portuguesa, demorou mais que um instante pois, até então, meu raciocínio lentificado pelo sol do meio-dia não conseguia fazer a associação CALOR + CERVEJA + PISCINA + VERÃO NO HEMISFÉRIO SUL com a equação JAQUETA + COURO + PORTUGUÊS + INVERNO. Sendo assim, pelo bem da típica piadinha de brasileiros x portugueses (colônia x colonizadores, e por aí vai), pensei que só poderia mesmo ser um “português” querendo vender tal tipo de vestimenta no alto verão fluminense.

Mas eis que o sujeito desconhecido entra na casa e me cumprimenta, carregando no típico sotaque d’além mar. E só então pude perceber a razão da felicidade do meu namorado. Esta não residia nas ditas jaquetas de couro de antílope (como jurou o patrício), mas sim na rara possibilidade de um conto ou crônica baterem – literalmente – a campainha de sua porta.

Garanto que o português não saiu de lá muito feliz, afinal de contas, nem mesmo abaixando o preço de absurdos R$ 1.700,00, para não módicos R$ 150,00, ele conseguiu a venda.

Mas sua presença, além deste texto, nos rendeu boas risadas após a porta se fechar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

De como estrear um moleskine

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Páginas em branco me intimidam. Causam espanto e um certo desconforto ao escrever. O caderno limpo, claro, me encara e é como se fosse a primeira vez na vida a ver aquele monstro cheio de pautas, margens e linhas a preencher.

Me arrisco com uns poucos garranchos de uma mão mais acostumada a digitar.

É verdade. Os manuscritos mal fazem parte do meu mundo atual. Mas são tão diferentes, estimulam tanto… Havia me esquecido de como a caneta na mão siginifica palavras tomando vida própria, brotando de pensares e sonhares, apesar dos pesares…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Pausa.

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De vez em quando o peito aperta, como se fosse um mau pressentimento ou algo do tipo.

Na noite de 11/01/2011 não foi diferente. Resolvi telefonar. Liguei uma, duas, três vezes. Caixa postal.

Na quarta tentativa, não foi ele quem atendeu. Me foi dito que ele estava em uma situação delicada, impossibilitado de falar ao telefone. Veio uma pontada em meu peito, a certeza de que algo estaria acontecendo.

Hora e meia depois atendi meu telefone. Desta vez era ele quem ligava, dizendo que já estava bem. O problema havia sido um defeito na fechadura do banheiro, que o deixou alguns (muitos) minutos trancado por dentro. Culminou com a desmantelação das dobradiças, para que a porta se abrisse, com direito a ferramentas pela janela e tudo mais.

O pior havia passado, pensei. Mais calma, dormi.

No dia seguinte, em meio aos afazeres profissionais, fico sabendo por e-mail que Teresópolis, Nova Friburgo e Itaipava (Petrópolis) estavam caóticas por causa das chuvas…

O resto virou história: http://olhaosemblante.blogspot.com/2011/01/voltemos.html.

Ana Letícia.

Ps. 1: Foto tirada em abril/2010. Assim era o rio em Itaipava que destruiu o Vale do Cuiabá na enchente do dia 12/01/2011.

Ps. 2: Para ajudar as vítimas da enxurrada que varreu a Serra Fluminense, acessem o G1.

Sinal

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Dê sinal de vida

Dê sinal de vida, acenda um farol.
Um sinal apenas, uma luz, uma faísca,
Grite chore, diga que exista
Diga que eu existo, que estou aqui, sou, penso, faço, choro.
Olhe para os lados, cuidado ao caminhar…
Pare, pense, escute. Na linha do trem ou na vida
É tão mais fácil andar!
Mas não se esqueça do sinal de vida
Dê vida
Sinal divino
Acene, peça pra parar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)