Arquivo do autor:Ana Letícia

Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

Desafio

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E agora que conhece os defeitos
Que viu as rugas e a unha encravada
Que conhece os cheiros e já velou os sonhos
E agora que sabe tanto
Dos enganos e desacertos
Da insegurança disfarçada
Da falta de jeito
E agora que cada porção humana foi tomada
pelo gosto
Que cada vento pensado
virou um turbilhão
Que a palavra
escapou
Agora, que a bendita se apropriou dos diálogos
Que os monólogos são recheados de queijos
vinhos e beijos
E agora que não sabe mais o que era antes
Nem o que virá depois
Desafio:
A amar no silêncio
A suportar os desenganos
A correr livre e ao lado
Desafio!
A ver a mulher e a menina
A ser o mar e o precipício
A mola e o chão firme
Desafio?
A se recolher às vezes
E então apenas deixar ser
E ser o que quiser ser
E muito melhor do que podia ser
Desafio…
A aceitar o riso fora de hora
E então
Quando a vida te trouxer pra mim
Saberá o segredo para se achegar à alma
bem guardada num cofre de coração
desafiado
lapidado
por amar demais.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

** Todos os direitos reservados à autora. **

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Do amor e suas implicações

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E qual amor que não dói, ainda que um pouquinho? É preciso ter coragem para amar e se permitir ser amado, para assumir o amor em todas as suas possibilidades e desafios, para sentir o amor com tal intensidade que seu peito parece que vai explodir, para querer chorar de felicidade a cada declaração, para sentir saudade a ponto de doer a garganta, a coluna, o pé… É preciso coragem pra viver, pra ser feliz, pra fazer escolhas, pra amar a si mesmo e se cuidar tão bem, pra permitir que o outro também te goste, te admire, te cuide – principalmente naqueles dias em que você não consegue fazer nada disso por si mesmo. O amor descoberto é como ganhar na loteria, ser correspondido é ganhar duas vezes! Com a maturidade adquirimos manias que a gente aprende a lidar com elas – as nossas e as dos outros -; e se juntarmos a isso o amor, a gente passa a entender que também ama a mania do outro, a ponto de respeitá-la e não querer mudá-la. E então enxerga que amar também é respeitar. Entende que só se muda por si mesmo, e não em função do outro, e que pra mudar qualquer coisa é preciso, de novo, de muito amor (que anda junto de sua companheira, dor) e coragem. Entende que é preciso fazer concessões, e assim a gente se sente feliz em poder fazê-las. Entende que é preciso sabedoria para aceitar o que o outro pode te oferecer, seja um pequeno gesto (pra ele) que se enche de um enorme significado (pra você ou pros dois); e que se deve oferecer ao outro a sua melhor parte, sempre, seja o último e delicioso pedaço de mamão da geladeira, um espaço no seu guarda-roupas, ou o seu melhor sorriso depois de um longo e cansativo dia de trabalho. E passa a amar as roupas não guardadas, o cheiro dele nas que estão usadas, a toalha molhada e o cheiro de banho que ele deixou em sua casa. E eu não sei como terminar este texto, pois o amor não tem fim, ele transforma, transborda, aquece, se molda, inspira, expira…

Ana.

Inspirada por este texto: https://www.facebook.com/SpottedUnB/posts/405924412932657

(Texto e foto: Ana Letícia.)

** Todos os direitos reservados à autora. **

Tela em branco

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E quando você acha que de tudo já aconteceu na sua vida, que já fez tanto e já conheceu lugares e pessoas de todo tipo, quando você acha que só teria mais uns poucos caminhos possíveis pra seguir adiante, vem a própria vida e te entrega uma tela em branco; então, o que fazer? Há quem procure uma caneta ou lápis de colorir, canetinha hidrocor ou giz de cera, há quem projete imagens animadas e sons, há até quem se cubra com o pano; já eu me jogo, me enrosco, deito e rolo e invento coreografias, figurinos e, então, me permito sonhar na tela grande, e quando me pego assim, sonhando de novo, entendo a grandeza do momento que se descortina a minha frente, o meu “momento tela em branco”; depois dele, o que existe são possibilidades, sonhos dentro de outros sonhos, e entendo que tudo (e nada) que vivi antes me preparou para o que virá, por ser inédito; protagonizo a pré-estreia de algo que ainda não aconteceu, que não sei o que é, pois a tela em branco da minha vida está começando agora.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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A casa das paredes felizes 

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Na casa das paredes felizes existem mensagens espalhadas pelos cantos
poesias em cada ponto
histórias em cada quadro

Na casa das paredes felizes os móveis sorriem
o sofá abraça
a cama serve o café da manhã
a sala fala de amores e amigos, toca canções da alma e inventa danças

A casa das paredes felizes já era linda
e ganhou enfeites
mares amarelos
luzes e novas cores
Se embelezou com novos tapetes
taças e até geladeira

E a casa sorriu para a visitante
que só trouxe de presente sua presença
mas ali deixou alguns novos cheiros
sabores
temperos
e algumas surpresas também

A casa ganhou novos carinhos e poemas
se encheu de boas memórias
e doou outras tantas

Eu fui tocada por sua magia
e hoje digo a ela que me aguarde
pois lá deixei algo sem o qual não vivo
meu coração…
… volto para te buscar.

De quando eu vivi

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Não me lembro mais do tempo em que eu somente existia. O sobreviver era muito mais do que eu mesma poderia me dar. O sorriso engessado, os pés enraizados no chão de concreto, o céu me era inalcançável. Naquele tempo, do qual não me lembro mais, a visão era curta e daltônica, a existência era turva e meu corpo era revestido de uma armadura de minério de ferro, o que tornava difícil o movimento, porém me protegia das intempéries do inverno existencial.

Mas eu quase me lembro com exatidão do dia em que fui tocada por uma luz tão forte que me tornou cega para o que se foi, e me fazia então ver o que se encontrava mais à frente. E por não poder ver o escuro em que antes estivera, passei a inventar cores e ouvir coisas que há muito não ouvia, por puro encantamento. Minha armadura se liquefez e, pouco a pouco, deixei-me deslizar em direção ao sol que me extasiava, me aquecia. E quanto mais perto, mais sorrisos espelhados, sensações inesperadas, abraços surpresa, eu já não temia me queimar. E então descobri que antes eu apenas jazia, e que agora vivo sem arremedos de felicidade, completamente recheada do mais puro brilho estelar, da gargalhada mais gostosa, o tempo a sorrir e minha alma a cantar, cantar, cantar…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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Ferradura

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do céu do Paraná
procurei por uma ferradura
no solo recortado
de montes repicados
me traria sorte?
para meu espanto
encontrei mais de trinta
retorcidas, enfeitadas
rodeadas por um rio largo de águas ora verdes
ora azuis
mas em nenhuma delas
encontrei você
eu não sabia
que a procura tinha cessado
o tempo todo estavas ao meu lado
fechei os olhos
e antes de acordar
sonhei com você
abri os olhos
você batia em minha porta
arrombava meu peito
dominava meu corpo
numa dança desconhecida
destemida
e sem precedentes…

Ana

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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A hora mais bela

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Na hora mais bela, em que os gatos são pardos, o prenúncio da noite que ainda não é determina o exato instante em que o general caminha de volta pra casa. Leva consigo uma pequena pasta de couro, com documentos da lida diária. Mas o que há dentro da pasta não importa, o que nos interessa é saber que o general caminha com um segredo – que já não é tão secreto assim…

O imponente general é visto por aí com um brilho diferente em seus vivos olhos e um sorriso faceiro que insiste em se fixar… Alguns soldados vinham comentando entre si que o general já não era mais o mesmo, além da farda mais bem passada que o costume, a cada dia aparecia mais perfumado, sempre com um cheiro novo. Teria sido tocado o general por uma doçura suficiente para amolecer seu coração?, pensavam, ingênuos. É que muitos não sabiam que o general, no fundo, não tinha o coração de pedra. Pelo contrário, sua alma era tão poética e amanteigada quanto o mais leve croissant de um café na Rive Gauche. Seu coração era tão grande e macio quanto o mais romântico dos mortais, doce como um pastel de nata, com um toque de canela.

E na hora mais bela, o general caminha leve, levando consigo o sorriso permanente, o brilho que transpassa a alma e ilumina de amarelo as sombras, e o segredo que não é secreto. Fita o horizonte crepuscular procurando pelo irrepetível, pelo tempo que passou e pelo que ainda está por vir, e, estendendo uma das mãos, tenta tocar uma nuvem cor de rosa, como quem tenta prender o tempo que corre por entre os dedos. E então, em resposta, o céu alaranjado, quente como certos lençóis, abraça longamente o general, e uma brisa suave toca seus cílios, lambe a ponta de seu nariz, beijando seu rosto e sussurra mais um segredo em seus ouvidos: “Permita que o poeta em mim não cesse…”.

O general em silêncio contemplativo permanece, iluminado pela própria luz que irradia, abala o inabalável explicando o inexplicável ao descompassado e insensato coração, assoviando um fado alegre sobre a vida, bela, dela.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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A letra de sua boca

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Me prendi na letra de sua boca
E com ela consegui dormir
Acordei com ela, a letra de sua boca
em minha
Fotografei na memória, em preto e branco
e sépia
sua imagem que me aguça
Me adoça
Me aquece
E com ela quero
Ser
Ver
Sentir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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Isso não é um soneto

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Tulipas

Socorro, eu fui ensonetada!
Me colocaram em verso, a prosa lá se foi…
Virei soneto, que sonho de sonhador!
Quando a poesia me pegou de jeito, a noite não quis me levar.
A lua virou dia e me abraçou, dizendo:
alô, venha ver o sol, que de sonho e de soneto não se pode viver!
Mas o que posso fazer se de outro jeito não viverei?
Me jogo nos braços da poesia e digo,
venha sonho, me acalentar, meu mundo ficou mais leve e não posso mais chorar.
Venha e me faça um cafuné, me conte um conto enquanto esperamos o café.
Meu problema é de criação, faltei à aula de ensonetação.
A métrica eu lá sei? Só escrevo o que inventei,
são palavras e o verbo ensonetar, que eu conjuguei
– e o que é que tem?
Se agora sou soneto, posso tudo.
Sou poesia, sou lirismo, sou uma flor.
Se há uma pedra no meio do caminho, eu sou mais o amor.

Ana

(Texto e foto: Ana Letícia).

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Poesia ao cair da tarde

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Queria ser livre e poetizar ao cair da tarde
criar invencionices só pro bem do sorriso alheio
planejar revoluções que mudariam o mundo todo
Queria falar com doçura nas indiretas
E que as palavras fossem ditas ao pé do ouvido
que minha mente materializasse o cheiro
o gosto
o beijo
Só pra te ver na minha galeria de versos
(quase) impossíveis
Queria ser misteriosa e não dizer nada disso
não estampar no meu rosto meu estado de espírito
não sorrir pras paredes
fitar meus espelhos inexistentes
Ao invés:
Te faço um muffin
Te dou um dado
Invento a sorte
Esqueço o carro
o sarro
o gozo
o riso
E vivo!

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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