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O filme que nunca existiu

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Antecipo o beijo, o cheiro, e meu peito se retrai e expande num contínuo, como se o sentisse. A voz ecoa na mente e evoca sentimentos até então adormecidos, gerando imagens de um filme que nunca existiu, mas que poderia muito bem estar em cartaz naquele pequeno cine decadente do centro da cidade. Todo esse movimento de sobe e desce em meu plexo, provocado pela mente inerte – porém, prolífica – gera a energia que me aquece na noite de cama gelada e pés de picolé, assim como o esperado toque da sua letra em meus lábios, anunciado entre palavras não ditas. Imagino pétalas e lágrimas de água doce, sinto cheiro de madeira recém cortada, noz-moscada e melão, e quase sinto sua mão repousando sobre a minha. Quase posso ler seus pensamentos, mas não me permito entrar e nem quero entender todos os seus processos, nem perder o encanto se eu descobrir como se formou o seu algo a mais – pelo qual me encantei. Não, os pensamentos que já me revela por sua livre escolha nas entrelinhas são suficientes para me ensinar que o encantamento ocorre simplesmente porque nos reconhecemos, em nossas semelhanças e diferenças, como dois seres que desejam um amor de cinema, com direito a trilha sonora e um por do sol antes do anúncio do fim, um filme tão bom que não se quer parar de assistir, ou daqueles que, de tão favoritos, se assiste três vezes num dia só, e que a música dos créditos é cantarolada e que recebe uma salva de palmas todas as vezes em que as luzes da sala de projeção se acendem. E queremos tudo isso sem ensaios, sem teste de iluminação, sem roteiro e direção, a não ser dos protagonistas da madrugada em que não se dorme e que os sorrisos se multiplicam…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

** Todos os direitos reservados. **

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Eu vi: Elena, o filme

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Assisti “Elena”, o documentário de Petra Costa sobre sua irmã, há dois dias. Somente hoje consigo escrever algo sobre o filme, após digeri-lo, ruminá-lo e engolir novamente.

E então chego à conclusão de que, definitivamente, Elena não é um filme para qualquer um, para qualquer hora, e, principalmente, Elena não é um filme para se esquecer. Talvez por isso mesmo que, talvez, Elena não seja um filme para se recomendar. Seu realismo e construção exigem dedicação e sensibilidade do espectador. Não me sinto confortável em escrever esta crônica, como não me senti confortável ao assistir o filme, durante a sessão. Mas ainda assim, não consegui sair da sala de cinema e largar Elena ali, sem minha respiração tensa, sem minha angústia velada.

O filme é sensível, e talvez a sua sensibilidade extrema tenha me atingido como um murro, desses que você lembra dias a fio, como um zumbido no ouvido que não te deixa dormir após uma noitada com som muito alto.

As imagens de Belo Horizonte e as gravações reais exibidas durante todo o filme, bem como o mineirês das personagens – nada ficcionais – me transportaram à BH nos anos 80, quando morávamos na Rua Alto da Mata na Cidade Nova, e eu ainda era tão criança quanto Petra, enquanto sua irmã Elena ganhava os palcos em São Paulo. Se eu fosse 10 ou 12 anos mais velha, provavelmente teria conhecido Elena…

Além da nostalgia do meu próprio passado, gostei das imagens gravadas com uma pequena câmera fotográfica em Nova Iorque, pela própria autora, diretora e personagem real Petra, dando o tom biográfico e, ao mesmo tempo, se aproximando de mim e minha Nikon D3100, meus muitos sonhos e alguns projetos não realizados. Minha amada Nova Iorque jamais será a mesma após Elena, não para mim.

As últimas falas do filme, na voz de Petra, e suas últimas imagens, não me deixarão esquecer de ti, Elena, controversa, dançarina, atriz, mulher.

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Ana.

(Texto escrito em Curitiba/PR, 24 de maio de 2013.)


Atualização: Meu interesse em ver este filme nasceu com a leitura do texto sobre ele publicado pela Aline Souza, no blog Escritus Infinitus.

O mineiro e o filme

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Era uma vez, um mineiro com sua esposa e sua filha na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Chegaram cansados da viagem que durou 3h30min, da capital até a pequena cidade onde acontecia o festival. Após alguns passeios andando pelas vielas de chão de pé-de-moleque, resolvem entrar na tenda principal, onde um longa metragem era exibido.

O filme já tinha começado há alguns minutos, mas o segurança não deixava viv’alma entrar na sala de cinema. Estranho! – falou o mineiro – em qualquer outro cinema do mundo a gente pode entrar na sala depois que o filme começou!, insistia com o segurança.

O moço, um tanto truculento, retrucou que cumpria ordens, que o mineiro havia chegado atrasado, não podia liberar a entrada.

O mineiro ficou furioso! Saiu para dar uma volta pela tenda para esfriar a cabeça com a esposa e a filha. Até que, não mais que de repente, apertou o passo e entrou escondido pela porta de saída do cinema. A filha e a esposa pararam estupefatas, observando a cena.

Então surge o segurança, que corre atrás do mineiro, que já tinha entrado por trás do pano preto. As outras pessoas que observavam do lado de fora se surpreendem com a cena pitoresca, algumas riem da atitude do mineiro, outras aplaudem, todas comentando entre si. Muitos também estavam indignadas com a proibição sem razão de ser e com a má educação do segurança. (Provavelmente, invejavam a atitude do senhor mineiro quebrando as regras, o único com iniciativa!)

Segundos depois, reaparecem do meio da cortina preta, lado a lado. Mineiro e segurança. Aquele discutindo e gesticulando. Este respondendo que “outro dia mesmo, um diretor de cinema foi barrado durante a exibição do próprio filme, pois tinha chegado minutos depois da hora marcada”.

Alguns poucos minutos depois, a diretora do filme, que ficara sabendo do ocorrido, manda liberar a entrada para os que quisessem – havia cadeiras vazias sobrando lá dentro do cinema, ora! Várias pessoas entraram, pela porta da frente, com ar de – Venci!, quando se viravam para o segurança.

A esposa do mineiro dormiu nos primeiros 2 minutos após terem se sentado no escurinho do cinema. Acontece que o filme era um tanto experimental, abusava de cenas escatológicas e tinha uma história meio sem pé nem cabeça, sombria, soturna.

O mineiro e sua filha, enojados, acordaram a esposa-mãe e, dito isso, não demoraram nem 10 minutos lá dentro. Ao saírem, dão de frente com o segurança, que os olhava torcendo o nariz e resmungando por dentro.

Um filme, muitas risadas, uma carranca. E mais uma história pra contar.

(A 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi um sucesso, com muitos filmes – longas, curtas, de ficção e documentários – produzidos no Brasil de excelente qualidade. O mineiro já foi em quase todas as edições, voltará ano que vem, e recomenda o passeio!)

Ana.

(Texto e fotos: Ana Letícia.)

Cinema e Milk Shakes

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Assuntinho batido (e atrasado, né): OSCAR.

Escolhas estranhas deste ano, não? Mas tenho de confessar, não assisti a todos que concorreram não… Na verdade, só dois deles:

– O programa de hoje foi “Jogos do Poder” (Charlie Wilson’s War”). Digamos que foi um entretenimento. Mas sinceramente, não consigo entender o porquê de se fazer um filme como esses, já que a maioria do “povão” não consegue ligar o cu com as calças. Traduzindo: acha lindo o filme, e vê os isteites como salvadores da pátria afegã, e não faz a ligação disso com a chamada “guerra contra o terrorismo” bushiana. E aí o cara que é o maior bon-vivant e cheirador de pó, sem contar seus outros atributos (mulherengo, alcoólatra e promíscuo) vira um herói nacional. Aff. Sabe o que valeu à pena? A atuação do Philip Seymour Hoffman (ator protagonista de “Capote”). Muito muito boa. E o Coffee Shake que tomei antes do filme no Café do Ponto.

– Domingo passado foi a vez de “Juno“. Filminho de seção da tarde, se não fosse pelo tema de gravidez na adolescência, o aparente fácil acesso ao aborto (como se isso fosse a coisa mais normal do mundo), os estapafúrdios anúncios de “pais adotivos” nos Classificados do jornal, a reação inverossímil dos pais da garota, etc. Mas quer saber? Apesar de todo o criticismo, eu gostei do filme. Achei delicado sem ser apelativo, a trilha sonora é ótima e a Ellen Page (que é a protagonista do filme) é excelente. E podem me crucificar, mas achei a Jennifer Garner super forçada (será que é só neste filme ou ela é sempre assim e só agora reparei?).

– Já adianto que não verei o ganhador do Oscar deste ano: “Onde os fracos não têm vez” (“No Country for Old Men”). Como um filme com uma sinopse dessas pode ser o Oscar de Melhor Filme?
Texas, década de 80. Um traficante de drogas é encontrado no deserto por um caçador pouco esperto, Llewelyn Moss (Josh Brolin), que pega uma valise cheia de dinheiro mesmo sabendo que em breve alguém irá procurá-lo devido a isso. Logo Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino psicótico sem senso de humor e piedade, é enviado em seu encalço. Porém para alcançar Moss ele precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones).”
Na boa, né…

O negócio é que ando muito de saco cheio com o cinema americano, e por incrível que possa parecer, tenho amado os filmes brasileiros que vi nos últimos tempos. Depois que tive o prazer de ver “O Estômago” no Festival de Cinema Brasileiro Contemporâneo em Tiradentes, no início deste ano, fui correndo alugar “Cinema, Aspirinas e Urubus“. Tudo bem que este é um filme meio lentinho, mas a beleza do Peter Ketnath e a graça do João Miguel valem à pena. Isso sem contar na estapafúrdia história de um vendedor de Aspirina em pleno sertão nordestino, quando ninguém nunca tinha ouvido falar nas tais “pílulas milagrosas”, a “cura para todos os males”, tão corriqueiras pra nós atualmente.

Nem mencionarei por aqui “Meu nome não é Johnny“, que é simplesmente fantástico. Adorei. Todo mundo já sabe que é bom, assim como “Tropa de Elite“, que até já encheu o saco de tanto que caiu no gosto do público, de tanto que ficou igual bunda – todo mundo tem a sua (no caso, a cópia pirata).

Mas leiam o post no Pras Cabeças e sintam um gostinho do que é “O Estômago“, simplesmente um dos melhores filmes que vi ultimamente, sem exageros. “Uma fábula nada infantil sobre sexo, poder e gastronomia”, era o que dizia o pôster espalhado por Tiradentes. Só falo mais uma coisinha: marquem dia 11 de abril em suas agendas e ASSISTAM a este filme! É imperdível.

E antes que eu me esqueça de contar: assisti ao filme na cadeira ao lado da Cláudia Natividade, produtora e do Babu Santana – outro ator do filme. Ao final tirei foto com ele e com o João Miguel (que é uma gracinha, por sinal)… Tiete pouco, né?

Ana.

Um, Dois

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Feijão com arroz. Básico assim, final de semana sem maiores emoções…

Peraí! Eu disse “sem maiores emoções”? Se uma tia-avó com enxaquecas, familiares acidentados, irmãos desaparecidos e telefones celulares fora de área não representam nenhuma emoção para mim, só posso estar ficando louca mesmo!

Pois é, o final de semana não foi nada básico. Muitas emoções. Ruins, diga-se de passagem. Tudo bem que nem coloquei a cara pra fora da janela. Não, não foi o frio que se abateu por aqui somente, mas também as aflições que nos faziam correr no primeiro segundo de cada toque de cada telefonema, à espera de notícias: da tia-avó, dos familiares acidentados, do irmão n° 1 e ou do irmão n° 2. Nem o sambinha esperto no A Gosto de Deus, convite da Dô, me fez querer entrar na roda… E neste tempinho, nada com um cinema em casa!

E foram dois filmes legaizinhos:

Edukators

(Título original: Die Fetten Jahre sind vorbei)

Para mim a melhor surpresa deste filme foi me deparar com Daniel Brühl, o brilhante ator de Adeus Lênin (que se você ainda não viu, está perdendo tempo, pois simplesmente é um dos melhores filmes que já assisti na minha vida, sem exagero). Isto sem contar, é claro, com o desenrolar da história, que é sempre surpreendente, uma emoção atrás da outra, e o final então… (Bem, não posso contar aqui, né!) A trilha sonora também é um detalhe à parte, e a paisagem então… Aff! De tirar o fôlego! Só adianto que o filme é sobre uma dupla de rebeldes contemporâneos, que expressam sua indignação de forma pacífica: eles invadem mansões, trocam móveis e objetos de lugar e espalham mensagens de protesto. Interessou? Pois é, assista, vá na fé, que eu recomendo!

Cafundó

Aluguei este filme no escuro. Vi que era com o como personagem principal Lázaro Ramos e com a direção de Paulo Betti e aluguei. Nunca tinha ouvido falar, ninguém me disse nada, ao contrário do Edukators, que o mocinho da locadora de pronto me disse que era “muito, muito bom”. Então, o Cafundó é um filme assim… assim… Não sei explicar. É até interessante, a história é bem diferente, é adaptação de um livro, que conta a história de vida de Nhô João de Camargo. Preto Velho milagreiro, ele viveu no Brasil no final do Século XIX e início do Século XX em Sorocaba, interior do estado de São Paulo. Como a maioria dos filmes nacionais, achei um pouco lento, e a edição meio estranha, principalmente do princípio até quase a metade do filme, mas para quem curte a história do país deste período, e a cultura negra africana, é bem bacana. E ah! A fotografia é cuidadosa, mostrando lugares maravilhosos! Resumindo: recomendo só pra quem estiver a fim de assistir mesmo, se prender aos detalhes, e pessoas que gostam de tudo isso que falei.

(Só para as mulheres: o Lázaro aparece nu em algumas cenas… E que nu, viu!!!)

Ana.

Candy

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O nome nos remete a algo doce, suave, ao sabor de alguma delícia açucarada que derrete lentamente no céu da boca. E assim Candy parece ser. Ela é jovem, bonita, uma pintora talentosa. É querida pelos pais e amada por Dan. Mas Dan e Candy não são um casal como outro qualquer. São um casal de viciados em drogas pesadas que tentam levar uma vida comum, incluindo casamento e filhos.

Mas a vida se encarrega de mostrar a eles que os problemas devem ser encarados de frente, com coragem e perseverança, e que todas nossas ações e escolhas um dia nos serão cobradas. Tudo tem seu preço, e a realidade não tem pausa que nos permita parar e refletir sobre o estrago que causamos à nossa existência.
O filme australiano Candy nos leva ao céu, à terra e ao inferno com o casal vivido por Abbie Cornish e Heath Ledger, ilustrando com maestria como o império da droga é capaz de aniquilar os desejos, as fantasias, a ambição e a esperança de um ser humano.
Mas não se enganem: Candy não é doce. Pelo contrário, saí do cinema com um gosto amargo na boca e um aperto no coração. Não há nada mais aterrorizante que o espetáculo da juventude desperdiçada.

Pra quem é de Belo Horizonte, Candy está em cartaz no Usina, Rua Aimorés 2424, Santo Agostinho.

Candy, Austrália, 2006. Direção: Neil Armfield. A produção também conta com o excelente Geoffrey Rush no elenco.


BELA

Paixões cinematográficas

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Isso sempre acontece comigo: eu me apaixono por personagens! Seja em filmes ou em livros, vira e mexe eu me vejo suspirando pelos “mocinhos” da ficção. Em filmes, com a ajuda dos atores, fica muito mais fácil me apaixonar, claro, e eu costumo usar como desculpa a qualidade dos filmes para me deliciar vendo e revendo as aventuras (e desventuras) dos meus queridos:

Dickie Greenleaf

Ele ama jazz, toca saxofone, tem um barco e uma casa na praia. Tem muitos amigos, vida social movimentada, estilo para se vestir, o bom gosto e a desprecupação daqueles privilegiados que sabem desfrutar o que a vida tem de melhor. Como bem definiu uma personagem de O Talentoso Ripley, “quando Dickie olha para você, o céu se ilumina, tudo fica maravilhoso”. Tirando a parte de que não faz nada da vida e vive às custas do papai, Dickie, encarnado por Jude Law, me conquistou sem um mínimo de esforço. Basta ouvir os acordes de “Tu vuò fa l´americano” para eu me derreter, e olha que essa paixão já tem lá os seus dez anos…

Rhett Butler

Inteligente, sarcástico, perspicaz, debochado, personalidade é o que não falta ao herói de E o vento levou, interpretado magistralmente pelo saudoso Clark Gable (e o bigodinho dele é um charme, não é?). Mas ele não me engana: a sua vontade de escandalizar a sociedade dizendo tudo o que passa pela sua cabeça e rejeitar todas as imposições da moral e dos bons costumes não passa de uma profunda carência de amor feminino. Nada que não se resolva com um bom cafuné. Decididamente, não há mulher mais burra que aquela Scarlett O´Hara!

Átila

Eu sei muito bem que o verdadeiro Átila era um baixinho invocado. Ainda dizem as más línguas, ou melhor, as fontes históricas, que o Rei dos Hunos não atingia o metro e meio. Mas o Atila vivido pelo Gerald Butler é bem diferente, e põe diferente nisso! Másculo, olhos azuis, cabelos longos, olhos azuis, corajoso, olhos azuis, e ainda por cima dedicado à mulher que ama. Precisa de mais alguma coisa?


Buddy Threadgood

Interpretado pelo fofinho Chris O´Donnell, Buddy aparece no máximo uns cinco minutos em Tomates Verdes Fritos, mas foi o suficiente para eu sucumbir ao seu sorriso com covinhas, à sua simpatia e ao seu jeito brincalhão. Nem vou falar muito dele, pois isso me deixa triste, muito triste. Quem viu o filme sabe o porquê.
Willoughby

Apesar de se revelar um mau-caráter no decorrer de Razão e Sensibilidade, não há como resistir à sua primeira aparição no filme, montado em um cavalo branco, no meio de uma tempestade. Seu porte elegante aliado às maneiras de gentleman, como trazer flores e carregar no colo donzelas machucadas, contribuem consideravelmente para o aumentar seu sex-appeal. Sem contar que ele leva uma edição dos sonetos do Shakespeare no bolso e os recita de cor! Mas, como eu já disse, ele não é flor que se cheire. Uma pena!

Aladim

A Disney acertou em cheio ao criar o simpático “protagonista” do desenho Aladim! O hilário gênio dublado por Robin Williams até tentou, mas não conseguiu roubar a cena do herói deliciosamente trambiqueiro. A paixão era tão forte que eu chegava ao cúmulo de pausar a imagem do Aladim na TV, pregar uma folha em branco na tela e desenhar o contorno do rosto para colar na parede do quarto, acreditam? Mas podem me dar um desconto, pois eu tinha “apenas” uns treze anos.

Decididamente, há coisas que nem Freud explica…

Texto por: BELA

Investimentos

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Dinheiro BEM GASTO, para mim, é aquele utilizado para a compra de livros, CDs e DVDs.

Todo mês reservo uma verba para isso, mas, é claro, às vezes eu acabo extrapolando(os livros no Brasil são exorbitantemente caros!), como esse mês, por exemplo. Mas estou longe de me arrepender, pois acabei me apaixonando pelas minhas últimas aquisições, ou investimentos, se preferirem:

DVD Assim Caminha a Humanidade (Giant- 1956)
Apenas por ser o último trabalho do James Dean já vale a pena (o “rebelde sem causa” morreu tragicamente antes da produção terminar). O filme é passado no Texas, aproximadamente entre os anos 20 e 40, e conta a história de várias gerações de uma família poderosa, que vive da exploração de uma enorme fazenda. O personagem de James Dean é um cowboy empregado da fazenda que vê sua sorte mudar ao herdar um pequeno terreno no meio das terras do patrão. Esta herança muda irremediavelmente sua vida, assim como a de todos que o cercam. O resto da história você só vai saber vendo o filme, pois eu não quero estragar o prazer de ninguém! O filme ganhou o Oscar de melhor diretor e foi indicado ao prêmio em outras nove categorias, e, mais importamte que tudo isso, ganhou o lugar de honra entre os meus filmes prediletos! (Ponto alto 1: Um CD inteirinho de extras! Ponto alto 2: Comprei o DVD em uma promoção, numa loja no centro da cidade, pagando por ele menos de um terço do valor normal!)

Livro – Madame de Pompadour – Christine Pevitt Algrant
Comprei esse livro às cegas, sem nenhuma recomendação, em uma das minhas andanças pelas livrarias (muito bem acompanhada pela Anita, por sinal). Desde que eu me apaixonei por biografias estava querendo ler uma da Madame de Pompadour, a favorita do rei francês Luís XV, mas não tinha conhecimento de nenhuma publicada no Brasil. Assim que bati os olhos nesse livro, não hesitei em comprá-lo, após verificar que a autora é uma historiadora inglesa reconhecida internacionalmente. Não me arrependi! Esta biografia é rica em detalhes tanto do contexto político quanto cultural dos anos que antecederam a Revolução Francesa, traça um painel fascinante da corte de Versalhes, dos hábitos da nobreza, e de como eram tratados os assuntos do Estado nesses últimos anos do absolutismo na França. Inclusive, a autora não restringe a narrativa apenas à pessoa da Madame de Pompadour, mas, pelo contrário, nos apresenta aos demais personagens ilustres da época, como o próprio Luís XV, os intelectuais Voltaire, Rousseau, Diderot, etc. Uma coisa que me impressionou muito foi a quantidade de mulheres da família real e da corte que morriam no parto ou em complicações pós-parto! Assim como as mulheres, as criancinhas também morriam como moscas, em decorrência da inexistência de diagnósticos e tratamentos eficazes (naquela época, quando uma pessoa ficava doente, a primeira providência dos médicos era “sangrar” o paciente, para “purificar o sangue“. A consequência disso, obviamente, era o imediato enfraquecimento da pessoa, que, já debilitada, não tinha mais forças para resistir nem a uma simples infeccção!) E olha que o livro se restringe a mencionar as mulheres da classe privilegiada, a realeza, imaginem então como era nas classes menos privilegiadas! Enfim, o livro é muito bem escrito e surpreendentemente bem traduzido, uma leitura prazerosa e enriquecedora!

CD Chet Baker – Jazz´ round Midnight

Acho que após o advento do E-Mule, eu sou uma das poucas consumidoras de CDs, mas quando eu gosto do artista, não consigo me contentar com um pirata ou simplesmente “baixar”. Esse CD não é nenhuma novidade, mas para os amantes de Jazz é uma obra imprescindível, pois reúne as melhores interpretações do Chet Baker, dentre elas a música mais romântica do mundo , na minha modesta opinião, a belíssima Easy Living! É a trilha sonora perfeita para um jantar a dois à luz de velas, para namorar em frente à lareira tomando um vinhozinho, ou, simplesmente para ouvir em um momento de reflexão individual, para descontrair.
****
É isso aí, gente: dinheiro vai, dinheiro volta, mas o que você guarda na sua cabeça, isso ninguém pode tirar de você.

Bela.

Xeque-Mate!

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Pode parecer prepotência escrever sobre algo de que não tenho conhecimento. É assim mesmo, que me sinto ao falar sobre o xadrez, um jogo tão charmoso, difícil e destacado pelo poder. Mas só preciso do “xeque-mate” – expressão usada para encurralar o rei ou matá-lo. Para tanto, alguém precisa fazê-lo, ou melhor, alguém está encurralando, vencendo, derrubando o adversário, matando, massacrando, se dando bem.

Bem, onde estou querendo chegar? É fácil, é que esse fim de semana, eu e Anita, acompanhadas de 2 taças de vinho, assistimos ao filme escrito e dirigido pelo expert , Woody Allen: simplesmente, perfect, brilliant, marvellous, lovely and 100% english -“Macht Point”!

A vida é mesmo um jogo, me sinto numa partida, em que você tem a sorte de tomar decisões que vão te fazer feliz e também poderá correr o risco da má sorte, em que certas decisões precipitadas podem trazer felicidades instantâneas, aparentes, e na verdade poderá ser a coisa mais errônea da sua vida, trazendo dores de cabeça futuras regadas de muita insônia, arrependimento e até uma insatisfação eterna… Enquanto, por outro lado, quem aparentemente saiu perdendo, pode ser grato toda a vida por uma atitude que o adversário, supostamente vencedor, tomou, e o ganhador acabou sendo você, o perdedor oficial.

Ai, ai, esta vida de meu Deus! Será que é tão complicado assim ou o ser humano é quem complica tudo? Mas também acho que o que acontece tem que acontecer, é necessário para crescimento e para fortalecimento.

É bem isso mesmo! Imagine só, você numa partida de tênis, onde você, o jogador, está no completo equilíbrio e seguro, e de repende a bola toca na rede e por alguns segundos, ela fica no ar, e logo vem a insegurança, a ansiedade, o medo, pois, se cair de um lado você ganha, ou se for do outro, você perde.

Mas por outro ângulo, na vitória você perde momentos simples da sua vida que poderia proporcionar a felicidade mais completa. Por exemplo, se você ganha sempre, torna-se famoso, ganha poder, dinheiro, mas por outro lado, perde o conforto, tranqüilidade e a vontade de querer fazer o que consideramos pequeno, mas, inesquecível. Como tomar um sorvete a dois, dar um beijão no seu amor em pleno sinal de trânsito, quando ouve uma música e olha ao seu lado o amor da sua vida dando pulos de alegria , dizendo que a música é mais linda do mundo e achar lindo (ouvindo isso, com quase todas as outras músicas, e a freqüência que só você suporta! rs), adorar ver os desastres atrapalhados do seu lindo amor e por aí vai. Acaba perdendo também a sua própria liberdade, a menos que tudo seja agendado e ponto. Do outro lado, você perde oficialmente, não se torna tão poderoso, não se torna milionário, mas é privilegiado por usufruir de momentos tão simples da vida, que nem precisam ser citados por aqui, e podemos falar com letras bem maiúsculas – NÃO TROCARÍAMOS POR NADA!

Macht Point“, mostra exatamente isso tudo que escrevi acima. Resumindo:

O mocinho, levado pela covardia, ambição e poder, acaba dando um tiro no escuro, comprometendo-se em ser, o poderoso, o estável, o milionário, o ganhador e ao mesmo tempo está sujeito à infelicidade, uma dor que ele poderá dividir consigo mesmo e mais ninguém.
Submetido ao esteriótipo de família, onde todos pensam ser, ideal.
Mas a consciência só sossega quando você morre e às vezes, nem assim!
Então, numa partida, você ganha ou perde, ou não, necessariamante….

Por isso: “AME E VALORIZE AS COISAS SIMPLES DA VIDA!”

Observação: Não galera, essa aí na foto, não é a atriz do filme não, pode até parecer… hahaha Ai ai, quisera, Scarlett Jonhansson, ser eu. Ela iria amar. Ela até que se parece um pouquinho com a Dodozinha aqui, não é? hahaha!!!! Mas, na fotita a cima, sou eu mesma na cidade cinzenta de Londres…

Bjocas da Dod´s!!!!

Uma rainha

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Há meses eu aguardava a estréia do filme Maria Antonieta da Sofia Coppola, e finalmente consegui assistí-lo semana passada.

Não decepcionou, pelo contrário, mas deixou um gostinho de quero mais no final, pois termina exatamente na melhor parte da história da rainha francesa, quando a família real é expulsa de Versallhes e fica à mercê dos revolucionários. É verdade que o filme deixa apenas entrever que a rainha foi uma personagem de um dos fatos históricos mais importantes da humanidade, e isso é imperdoável.

Maria Antonieta sempre foi uma personalidade controvertida. Desde que chegou à corte de Versalhes para se casar com o herdeiro do trono foi alvo das críticas e sátiras do povo francês, por simbolizar o luxo, a extravagância e a arrogância da aristocracia, tudo isso aliado ao fato de ser estrangeira, proveniente de uma das famílias mais poderosas da Europa, os Habsburgo.

A controvérsia começou ainda na época de sua morte, no fim do século XVIII: de um lado, tida como símbolo da arrogância da monarquia francesa e das falidas instituições do antigo regime, e de outro, admirada como uma mártir, sacrificada por fanáticos que se voltaram contra a ordem das coisas. Esse foi o objetivo dos biográfos de Maria Antonieta, resgatar a sua imagem como monarca, como representante de uma classe, e como mulher, com as limitações prórias de seu sexo na realidade histórica e cultural em que viveu.

O filme foi um pouco menos realista do que eu imaginava, sobretudo no que se refere às roupas, penteados e maquiagem usados na corte francesa na época. Talvez pela provável rejeição dos expectadores com o excesso de cabelos empoados (exigência imprescindível para frequentar a corte) e maquiagem carregada… Mas a produção também surpreende positivamente pelos toques de atualidade com músicas modernas e a incrível cena que foca um par de All Star no meio dos vários sapatos cheios de firulas da Rainha.

Mas acredito que o objetivo do filme tenha sido mostrar a rainha como mulher, em sua vida privada e íntima, ilustrando a máxima de que toda pessoa é o fruto de seu meio.

Maria Antonieta foi educada desde criança para ser um símbolo do poder das famílias reais, um ventre que traria ao mundo um herdeiro do trono francês, dando continuidade às linhagens e aos privilégios das classes dominantes. Com a perda de seu trono, Maria Antonieta pedeu tudo. Sua posição, sua fortuna, sua família e o respeito de seus súditos. E foi com muita coragem que ela viveu seus últimos anos de vida, suportando as humilhações dos revolucionários e as privações diárias a que era submetida, assim como a separação de sua família, a execução de seu marido, e seu próprio julgamento. E foi essa parte que o filme não mostrou…

Enfim, nos últimos anos, historiadores têm se esforçado para trazer à tona uma imagem mais equilibrada da rainha, nos mostrando que Maria Antonieta não foi uma mulher fútil e ingênua, como se imaginava, mas uma mestra em usar o glamour como arma para se firmar numa corte estranha e hostil, e uma mulher que lutou enquanto pôde por sua realização pessoal.

Virar ícone de uma época é destino para poucos, e assim aconteceu com Maria Antonieta. Por isso, conhecer um pouco da triste história de uma mulher que não soube reinar, mas que a tragédia conseguiu tornar uma grande mártir merece uma ida ao cinema (ou à locadora, em breve) e, obviamente, às livrarias.

***

As biografias mais completas e interessantes são as seguintes:

Maria Antonieta, Antonia Fraser (foto da mais recente edição) – Esta foi a biografia utilizada na elaboração do roteiro do filme de Sofia Coppola. A recente edição em português é bem traduzida e traz interessantes fotos das pessoas mais íntimas do círculo social da rainha. É bastante rica em detalhes, sem ser cansativa

Maria Antonieta, Evelyne Lever – Especialista na análise e compilação da correspondência de Maria Antonieta, a historiadora francesa traça um perfil da rainha baseado nas cartas enviadas a familiares e documentos oficiais.

Maria Antonieta, Stefan Zweig – É um trabalho mais conservador, que foca mais a rainha como personalidade pública, deixando em segundo plano sua vida íntima. É uma biografia que deve ser valorizada pelo rigor e exatidão históricos do período.

Texto por Bela.