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Não sou imune

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Sabe, eu não estou imune às palavras. Elas são como agulhas perfurando retinas que não se cansam de ler, nem assim, cegas. As palavras  me dizem tanto ou não dizem nada, fico tonta, com a febre de não saber o que fazer.

Sabe, não estou imune ao olhar nos olhos. São como faróis luminescentes, ora reluzem o entorno, ora roubam a luz do que está por perto. Os olhos me encaram, brilhantes, depois correm tímidos para bem longe. Me desafiam a correr atrás, mas o que faço é igualmente me esconder.

Existe um raio-x de palavras? Quero ver o que trazem por dentro do esqueleto de entrelinhas, mergulhar no preto e branco de sua tinta e papel.

Existe vacina para o olhar nos olhos? Quem sabe, os olhos imunizados não se escondem e se deixam escorrer para o oceano de seus olhos de mel.

E então prometo não jogar o seu jogo de meias palavras ou palavras inteiras pela metade.

E então prometo esquecer a imunidade

E não fugir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia)

** Todos os direitos reservados **

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Eu vi: Elena, o filme

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Assisti “Elena”, o documentário de Petra Costa sobre sua irmã, há dois dias. Somente hoje consigo escrever algo sobre o filme, após digeri-lo, ruminá-lo e engolir novamente.

E então chego à conclusão de que, definitivamente, Elena não é um filme para qualquer um, para qualquer hora, e, principalmente, Elena não é um filme para se esquecer. Talvez por isso mesmo que, talvez, Elena não seja um filme para se recomendar. Seu realismo e construção exigem dedicação e sensibilidade do espectador. Não me sinto confortável em escrever esta crônica, como não me senti confortável ao assistir o filme, durante a sessão. Mas ainda assim, não consegui sair da sala de cinema e largar Elena ali, sem minha respiração tensa, sem minha angústia velada.

O filme é sensível, e talvez a sua sensibilidade extrema tenha me atingido como um murro, desses que você lembra dias a fio, como um zumbido no ouvido que não te deixa dormir após uma noitada com som muito alto.

As imagens de Belo Horizonte e as gravações reais exibidas durante todo o filme, bem como o mineirês das personagens – nada ficcionais – me transportaram à BH nos anos 80, quando morávamos na Rua Alto da Mata na Cidade Nova, e eu ainda era tão criança quanto Petra, enquanto sua irmã Elena ganhava os palcos em São Paulo. Se eu fosse 10 ou 12 anos mais velha, provavelmente teria conhecido Elena…

Além da nostalgia do meu próprio passado, gostei das imagens gravadas com uma pequena câmera fotográfica em Nova Iorque, pela própria autora, diretora e personagem real Petra, dando o tom biográfico e, ao mesmo tempo, se aproximando de mim e minha Nikon D3100, meus muitos sonhos e alguns projetos não realizados. Minha amada Nova Iorque jamais será a mesma após Elena, não para mim.

As últimas falas do filme, na voz de Petra, e suas últimas imagens, não me deixarão esquecer de ti, Elena, controversa, dançarina, atriz, mulher.

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Ana.

(Texto escrito em Curitiba/PR, 24 de maio de 2013.)


Atualização: Meu interesse em ver este filme nasceu com a leitura do texto sobre ele publicado pela Aline Souza, no blog Escritus Infinitus.

A Queda

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É sempre assim, grandes expectativas, maiores decepções
Acontece com uma festa que não é nada daquilo que você esperava, um almoço que nao aconteceu, um beijo que não se encaixou.
Quantos tombos terei de levar para aprender a não cair mais?
Quantas vezes mais me levantarei?
Fico cansada da vida, do tombo, do mundo
E então começa tudo de novo
A vida segue
Esqueço do tombo
Esqueço de mim
Caindo, levantando, entre erros e acertos.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Disfarce

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Boca

Levanta-se no meio da noite, pega o caderninho e rabisca um recado que ele não receberia, um desabafo que ela não conseguira verbalizar. Foi mais ou menos assim:

– Vou dizer de uma vez só
A minha timidez disfarçada de mulher mutante
Hiperativamente altiva
Espera mais que um sinal
Não tenho prática em decifrar enigmas
Não estudei quiromancia
Meus olhos apenas vêem o que o rosto deixou de esconder
Ouço as palavras ditadas
E minha mineirice, desconfiada, dá um grito de alerta
Antes que eu pule no precipício dos teus braços até não ter mais volta.
Com os dois pés atrás, piso em falso
Mais um entorce e mudo de caminho
Erro a direção
Ando sem poder andar
E me calo ante o inesperado.

E assim, sem um desfecho, ela fecha o caderno, guarda o lápis num canto do criado-mudo, vira-se para o outro lado da cama, sozinha, e volta a dormir.

Outro dia nasce, mais outros tantos se vão, e após uma tarde de chuva com sol, de papo bom, algumas indiretas despercebidas e um pouco de mistério, ele se despede sem um beijo – de novo!?, pensa ela – e ambos se viram em direções opostas, caminhando sem olhar para trás.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

Truco

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Então eu não soube jogar o jogo
Não entendi os sinais
Não blefei
Ou não quis mover as peças corretas?
Não recebi as migalhas
Não engoli os pedaços de palavras
Não admiti o vazio
Ou ele tomou conta de mim

Não quero mais ver
Não sei jogar
Não quero brincar
Minha vida é real
Não cabem apostas
Não tolero pedaços
Quero por inteiro

As cartas na mesa jamais foram postas
Canastra real nas mãos
É truco, ladrão!
Peço seis só pra ver
O que tem a me mostrar
Mas me contraria
E nas mangas esconde o jogo
A alma
Os olhos

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Mulher Tola

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Frôzinha

Sorriso no canto dos lábios
Por quase nada
Ou por tão pouco
Dormir suada e acordar assustada
Pelo sonho que sonhei só
E agora o olhar se faz sorrir
(Mesmo sem correspondência)
E o nó na garganta se aperta
Para não escaparem as borboletas
Para não se espalhar a vontade… de escrever poesia
O que não me torna poetisa
Mas, sim, uma tola mulher
Vê se pode?

As borboletas voltaram
Junto a elas engulo saliva seca
Vontade de sair
De pular
De gritar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Entre nuvens

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Cristal nublado

Vejo nuvens sobre mim
Tudo enquadrado
Vejo migalhas sobre a mesa
Nada doce
Nada em mente
Frutos verdes que despencam
Tal palavras sem sentido
Atenção que disperso sobre inanimados desenhos
Se me mostro sou errada
Me recolho e pioro
E a cada dia um cristal que se quebra
Uma gota que cai
E enche um copo
De esperança
De lágrimas
De sorrisos
De verbos soltos.
Abraços rotos
Tapinhas nas costas
Nunca mais.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Feliz Natal!

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Quando o blues se torna jazz

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Bacen, na chuva, na rua, pela janela do carro... (Quase submerso!)

Se te adoro por quase um minuto
Depois te odeio mais
Te ligo e desligo
Te vejo e me escondo
Te ouço e não sei o que dizer
Ouvindo blues, as lágrimas embargam vozes
e ouço do rádio: “I ain’t gonna worry my life anymore…”

Os gritos da vizinha não me acordam mais
Se penso muito, me confundo mais
E minha antena mal capta os sinais
Loucos, confusos, poucos

Perco a capacidade
Perco o sono
Perco o amigo
Perco a piada
Viro a piada nos meus pensamentos
Tão corajosa e franca
Tão diferente e medrosa
Fora deles
Sou grossa, sou bicho
Ora doce, ora aguardente

Me excedo menos que queria
Me contenho mais que deveria

Até achar um meio termo
Meia noite já passou
Não vejo estrelas pois meu céu não permite

E quando o blues se torna jazz
É preciso me despedir
Calar a boca e saber ouvir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Poente

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Memorial JK 9

Um passarinho me contou
Que parou de chover
Contou do Sol e do seu sorriso falso
Da Lua e sua cara fácil
De suas palavras vazias e sua vida dupla
Nada era novidade
Só não quero ouvir o canto do pássaro
Não mais
Não caio no conto da carochinha
Que de carolinha não tem nada
Esqueço o mundo
Esqueço as horas
Mas não esqueço quem eu sou
Minha escola
E minha alma.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)