Arquivo da tag: E a roda gira

Coxos

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Para mudar a sua história...
Decrépitos, feios, sujos, leprosos, carregadores, catadores, maltrapilhos, mendigos, moradores de rua, periféricos, mancos, discriminados, renegados. A caminho da rodoviária, vejo-os todos, em seus trapos, carros de tração nas duas pernas.

Cobertor paraíba e travesseiro de pedra, em seu papelão de abrigo… Do frio, da noite, do mundo. O mesmo que os rejeita, engole, regurgita e cospe, num gozo capital, da capital da mina geral, do ouro das entranhas minerais, de esgotos e galerias pluviais, habitam as ruas junto aos ratos e gatos noturnos. Seres soturnos, calados, impávidos e obsoletos, criaturas de carros limpos e vidros fechados, passam também.

Seguem seus caminhos, ignorando-se mutuamente, todos: decrépitos, feios, sujos, leprosos de mentes, pensamentos e idéias, que atravessam a vida de coquetéis e ternos Armani, (ul-)trajes a rigor e convites formais.
Sem olhar pra trás.

Ana.

(texto e foto)
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Depois…

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Bibi fonfon

Depois que tudo passa, muito tempo depois, restam as lembranças. Sendo elas boas ou más, apenas elas ficam. Não que queira mais que isso. Apenas elas já bastam. A água que passou debaixo da ponte não volta mais — e todo mundo sabe que água reaproveitada não é própria para o consumo humano.

Você se torna mais um número na agenda telefônica. Daqueles que você ainda não apagou pois um dia na vida, outro na morte, poderá precisar de alguma coisa, que nem você mesmo consegue imaginar o que poderia vir a ser. Devolver aquele livro do Dostoiévski, talvez, ou o DVD dos Rolling Stones. Ligar pra conversar, botar o papo em dia… nem pensar! Que papo? Não existe mais papo ou notícia pra contar, acabou o diálogo, acabou a vontade de dialogar. Ficou tudo artificial demais, chato demais, na mesmice demais.

Colecionar fatos, pessoas, lembranças, mentiras, sapos engolidos, momentos. É disso que é feita nossa vida. E é isso o que acontece, depois que tudo passa. Mais um item na coleção de coisas passadas.

Você se torna mais um álbum de fotografias guardado no alto do armário, junto com todos os outros. No caso dos mais moderninhos, aos quais fotos impressas estão obsoletas, você vira uma imagem .jpeg gravada em CD’s e DVD’s de fotos esquecidos na estante, arquivos digitais que lotam as memórias dos chips das máquinas que já não são mais usadas, em pastas de computador que não são mais clicadas, abertas, expostas, lembradas. Você vira Um mero endereço de e-mail, ao qual mensagens de humor ou reflexão são enviadas — isso quando não se trata de arquivos horrendos e piadas encaminhadas de péssimo gosto, apresentações bregas de powerpoint, dessas que você nem manda executar, manda pra lixeira direto.

Mas te esqueceram de contar que depois que tudo passa, muito tempo depois, resta você. Resta a sua vida inteira pela frente. E isso já é coisa demais. E ponto final.

Ana.

(texto e foto)

Aonde vamos chegar?

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Como se não bastasse:

1) usar salto alto e ou sapatos desconfortáveis;
2) colocar silicone, fazer lipo-aspiração, cirurgia plástica e afins;
3) usar make-up;
4) passar ácido no rosto, fazer limpeza de pele de quando em quando e ainda por cima, peeling;
5) usar roupas apertadas e ou desconfortáveis;
5) por causa do n° 4, fazer dieta pra caber nas roupas;
6) malhar – idem n° 5;
7) passar formol no cabelo pra acalmar as madeixas;
8) gastar horrores por mês pra ficar na moda, bonita, em forma, arrumada, etc;
9) ficar menstruada todo mês, com direito a cólicas;
10) ter TPM todo mês;
11) usar sutiã;
12) fazer manicure e pedicure (acreditem em mim, é um saco, dá a maior gastura);
13) depilar “as partes”;
14) engravidar, carregar um bebê na barriga por 9 meses, deixando-a potencialmente flácida e com estrias, e ainda sentir as dores do parto, amamentar (vendo os peitos murcharem e caírem vertiginosamente)…
15) ser gostosa, inteligente, trabalhadora, cuidar da casa, dos filhos, do marido, pagar as próprias contas, chupar cana e assoviar ao mesmo tempo…………………………….;
etc etc etc etc…

Ainda me inventaram um tal batom para inchar e tornar os lábios mais quentes…. (sim, no sentido da temperatura…)
Meda disso, gentem!

E ainda ouço uma dessas hoje à tarde: “O batom é pra usar na boca, tá?”

G-zúis! Onde vamos parar? Parem o mundo que eu quero descer…
(rs)

Becitos miles (pois este post me lembrou minha amiga Roma Dewey… por onde andará?), sem o tal batom, diga-se de passagem. 😉

Ana.

E lá vou eu

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niemeyer 184

Sou jovem, sim, pessoas passaram por mim. Sim, sou madura até demais, muitas vezes. Noutras, sou infantil como uma menina de 7 anos. Sim, sofri. Sim, vivo minha vida com plenitude. Sim, falo palavrão, e sim, me arrependo depois de proferi-los. Não, não tenho medo de errar, de jogar, de cair. Eu me levanto, eu quebro a cara, e dou a outra face.
Sim, já experimentei muita coisa, já fiz coisa certa, já fiz coisa errada. Já sofri conseqüências, já odiei, já fui odiada. Já fiz sofrerem por mim, já sofri pelos outros, sofri com os outros, já me preocupei. Não me deixo de preocupar. Preocupo-me com quem eu gosto, gosto de graça, nem sempre gosto de quem me gosta, gosto de cuidar, de ser cuidada.

Penso muito, faço muito. Sou dualidade, paixão e razão. Eterno conflito. No geral, sigo meu coração, e lido bem com isso. Ouço minha intuição, e então meu coração fala mais alto, bate mais forte, ensurdecedor. Nem sempre sigo minha intuição. Mas sei que deveria. E intuição nada tem a ver com razão. A razão é o contrário disso tudo. É lógica, fria e matemática. Definitivamente, são raras as vezes que dou ouvidos à razão. Deveria mais?

Sou jovem, sim, mas já vivi muito, nesta contradição louca entre juventude e vivência. E vivo ainda, até a última gota. Tenho esperanças infinitas. Viajo em meus pensamentos, em minhas palavras, provocadas pelas suas, pelos sons, por um telefonema, pelo sorvete, pelo remédio, por um amor Grand’Hotel.

Aponto para o céu e vôo alto.
E lá vou eu. De ponta cabeça.
Mais uma vez.

Ana.

Conversinhas hipotéticas (ou não)

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– O que faz acordada até essa hora?
– Penso em ti, oras.
– E por quê?
– Não consigo parar de pensar naquele assunto… Não pode ser verdade…

[…]

– Agora que você já sabe de meus segredos, não pode mais rir de mim!
– [risos]
– Eu falei que não poderia rir!
– [risos]

[…]

– Oie!
– Oi.
– Tudo bem?
– Beleza pura. E aí?
– Tudo ok.
– Humm. Então tá.

[…]

– Bom dia! Tudo bem?
– Querendo ficar… Aliás, já estou quase bom. Aquela parada do triângulo amoroso do signo está dando certo, aparentemente…
– Ahn?
– É, do e-mail que você me mandou.
– Ah é? Triângulo? Então cê arrumou outra?
– Outra, como? Se nem tenho uma?
– Eu heim…

[…]

– Você me viu on-line hoje de manhã?
– Não.
– Ok… estranho…
– Nem teria como, eu não entrei no MSN de manhã.
[risos]
– Ah tá. É que acho que clonaram o meu então.
– Eita.
– Pois é.

[…]

– Estou de cara até agora com a tal história.
– Pois é.
– Eu não consigo parar de pensar nisso.
– E eu então???
– Como é possível?
– Não sei. Para mim é impossível.

[…]

Siempre que te pregunto / que cuando, como y donde / tu siempre me respondes Quizas, Quizas, Quizas
Y asi pasan los dias / y yo desesperado / y Tu, Tu contestando
Quizas, Quizas, Quizas

(Helmut Lotti – Quizas, Quizas, Quizas)

Ana.
(devaneios e foto.)

Do alto daquele morro

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(Som na caixa – para ouvir a trilha sonora, aperte o play…)

A boba, do alto de um morro, parada, eterna
Não querem saber quem ela é
O que ela sente?
Para onde vai?
O que ela quer?
E eu… dou de ombros, pego o ônibus, e assim como ela, vejo o mundo girar.
Parada e só, vejo o pôr do sol (meu momento preferido)
Penso em nuvens e ouço mil vozes diferentes,
Respondo, mas sem nunca ninguém ouvir,
E ninguém repara nela.
Olho pra mim mesma e vejo minha cabeça girar.
E a boba no alto do morro, onde passa boi, passa boiada
Passa rente ao mundo, que gira
gira
gira…

Ana.
(Texto e foto.)

Concreto em flor

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Saudade não se fabrica, saudade é presente no ausente, é constante, é cheio de vazio. Não é feita de tijolos de lembranças, nem de pingos de suor. É de pedras no meio do caminho, de poeira de sol, de estrelas no céu, de conta-gotas de mar. Saudade é concreta, saudade é companheira. É coisa, palpável, não se lava, se carrega consigo, como uma roupa que nunca se despe.

De vez em quando a saudade te engana, diz que vai embora. Aí fica escondida atrás da porta, só te esperando voltar da rua, pra te ver nua e exausta e frágil e sem graça. Te assusta quando te toma de assalto, pula em frente e te rouba tudo o que é mais seguro. Invade sua bolsa de pele humana, e te torna menos gente do que já é. Explode em sua cara santa um sorriso sarcástico, te nega, te condena, te oprime. É amiga dos minutos, daqueles em que não se tem nada pra fazer. É silenciosa no chegar e alarmante no ficar. É bicho, renegado, nunca se vê mas sempre te segue como uma sombra na penumbra.

Nunca vai embora? Nunca se supre? Não se substitui? Apenas permanece ali, perene, quieta, latente. Enchente nos períodos de pororoca emocional, chuvas intermitentes que assolam a região do pensar, o vale do sonhar, e o norte do estado do vagar. Até que vem a seca que te resseca por dentro, te suga as energias todas e te fazem sucumbir a ela, a saudade, novamente.

Um broto verde surge em meio à lama do rio seco. Um fio de teia de aranha se enfeita de orvalho, como um colar de pérolas no colo de uma moça da realeza. E a libélula pisca os olhos – se é que libélulas piscam os olhos – e se lembra que viver é sofrer, viver é doer, é sentir, é sonhar, é morrer a cada segundo e ressuscitar no instante seguinte ao inspirar perfume de gardênias, mel em flor e baunilha fresca!

Peço licença aos meus devaneios e me pego a caminhar por entre praças, ruas e carros. Algumas buzinas e gotas da chuva que já vem. Nem me importo. Estou na chuva é pra me molhar.

Ana.

Coisas boas de fazer quando se está de férias:

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Coisas boas...

1) Ir ao cinema;
2) Assistir televisão debaixo do edredon o dia inteiro;
3) Conversar no telefone por horas a fio;
4) Vadiar pela net;
5) Encontrar com os amigos e amigas num boteco;
6) Ir à praia;
7) Visitar os avós;
8) Namorar;
9) Sair à noite de 2ª a 2ª;
10) Exibir o bronzeado na rua;
11) Ir ao clube tomar sol;
12) Acampar;
13) Ir à cachoeira;
14) Não ir à academia;
15) Comer brigadeiro de colher;
16) Comer pipoca;
17) Fazer churrasco todo final de semana;
18) Tomar cerveja gelada na hora que der na telha;
19) Não trabalhar;
20) Viajar durante 15 dias;
21) Ler um bom livro;
22) Dormir tarde e acordar tarde… dormir muito!

Dos 22 itens listados acima, não fiz nenhum ainda. Afinal de contas…

EU NÃO ESTOU DE FÉRIAS!
Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
(E que venha o carnaval…)

Ana.
(Texto e foto.)

# 1

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Primeiro post de 2008.
Primeiro dia de 2008.
Um ano novo que se inicia, vida nova, sonhos novos, promessas novas…

Peraí. Volta o disco.

Qual o sentido de tanto se festejar? De usar calcinha ou cueca amarela (ou vermelha), de comer uva e jogar as sementes pra trás, fazer orações aos reis magos, guardar semente de romã na carteira, pular 7 ondinhas, jogar flores no mar, soltar fogos de artifícil, estourar champagnes, beber até cair e comer até dizer chega???

Calma minha gente, nada mudou. Eu continuo a mesma (com um quilinho a mais por causa dos excessos, é claro), o mundo continua o mesmo, a roda ainda gira, e o relógio não parou. O que ocorreu foi que ontem o sol se pôs e hoje ele nasceu novamente. Igual a todos os dias. A mesma coisa.

E se o reveillon não existisse?
E se o ano, ao invés de 365 dias, tivesse 480? Ou então 200?
E se falassem que o dia tem 30 horas, e cada mês 65 dias?
Qual a diferença faria?
É claro que a vida seria diferente, mas é claro que seríamos acostumados a tal, e isto sim seria o nosso normal.

Só sei que faz bem renovar os sonhos, as metas, as promessas. É bom ter o sentido de recomeço, de mais uma chance, de um ano a mais de vida, pra consertar os erros cometidos, ou pra aprender mais um pouquinho e aí não errar mais, sei que é bom usar roupa nova e inventar receitas de ano novo, como “chá miraculoso de 7 ervas pra tirar mau olhado e chamar bons fluidos”, acreditar que a calcinha amarela trará dinheiro, e que a cor vermelha na roupa chamará o amor, comer lentilhas, uvas, romãs, ver os fogos, beber champagne, molhar os pés na água gelada da praia, abraçar os queridos, lembrar dos ausentes ou dos que se foram, desejar coisas boas.

É isso. A vida deveria ser assim sempre. Todos os dias deveriam ser comemorados e as esperanças serem realimentadas a cada nascer do sol. E só deveríamos desejar coisas boas aos outros, e lembrar dos amigos sempre, e encontrar com a família, e abraçar quem a gente gosta quando bem quiséssmos, sem esperar nada em troca, sem ter nenhuma data especial, nada.

Ter serenidade para fazer escolhas, maturidade para aceitar os erros, receber críticas, criticar sem desconstruir, ter a criatividade infantil e a sabedoria de um idoso, lutar pelos sonhos, fazê-los acontecer. Viver um dia de cada vez, com calma e temperança. Planejar, conversar, amenizar, pagar dívidas (não fazer outras), gastar menos, abraçar mais, falar mais vezes eu te amo, e ouvir mais vezes também.

Taí. Estas são minhas promessas de ano novo.

Ana.
(Foto retirada deste site.)

Whatever it’s gonna be, it’s gotta be

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portal para o mar

Há coisas que acontecem e a gente simplesmente não pode, não consegue evitar. Até tentamos, lutamos contra a maré, nadamos, nadamos, mas nem assim saímos do lugar. Queremos fugir, mas não conseguimos enxergar. Tateamos no escuro, procurando em quê se apoiar. Não há nada, só o abismo em que nos encontramos, o mesmo escuro de sempre, e caímos, caímos, por mais que tentemos pular. Uns chamam de destino, outros de fraquezas, há ainda quem fale em predestinação, safadeza, traição.

Mas como ir contra um sentimento tão forte? Uma atração maior que a força da gravidade? Uma sensação de impotência total, e sucumbência absoluta frente a tudo isso? E então deito de costas, e me ponho a boiar, deliciosamente fecho os olhos, e me permito sonhar. Conto carneirinhos, vejo desenhos em nuvens. Não olho para baixo, apenas sinto meu corpo cair, o vento soprando envolvendo meu corpo entregue ao simples ato de… cair.

E quando acordo deste sonho bom, sinto-me culpada por dormir tanto, sinto remorsos por boiar neste lago de águas doces e calmas durante horas, sinto dores, pois o chão é duro e a queda foi longa.

E todo dia é a mesma coisa. Tudo igual, tudo igual. A mesma tentativa de resistência, a briga interna, aí recebo um gostinho, ganho uma prova apenas, e é o bastante para a sucumbência. Para novamente pisar em falso e tropeçar em minha própria pedra no meio do caminho, se é que não era para ela estar ali, se é que o propósito do próprio caminhar não é justamente encontrar com tal pedra. Se é que esta pedra nada mais é que o retrato da minha imutabilidade, da minha incapacidade, da minha vida. Como um caroço no angu, ou uma pinta na pele alva, uma bolha no chocolate caseiro, ou ainda um retrato esquecido na parede.

Só sei que é impossível lutar contra. Continuarei sonhando, e caindo, e tropeçando. E lutarei a favor então. E viciada permanecerei neste círculo envolvente e impossível de administrar.

E seja lá o que Deus quiser. Ou o Diabo. Ou Buda. Ou Zeus. Ou whatever.

E bye-bye 2007. This is the end. O fim. “Zéfiní”.

E feliz 2008 pra nós!!!

Texto e foto: Ana.