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Desafio

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E agora que conhece os defeitos
Que viu as rugas e a unha encravada
Que conhece os cheiros e já velou os sonhos
E agora que sabe tanto
Dos enganos e desacertos
Da insegurança disfarçada
Da falta de jeito
E agora que cada porção humana foi tomada
pelo gosto
Que cada vento pensado
virou um turbilhão
Que a palavra
escapou
Agora, que a bendita se apropriou dos diálogos
Que os monólogos são recheados de queijos
vinhos e beijos
E agora que não sabe mais o que era antes
Nem o que virá depois
Desafio:
A amar no silêncio
A suportar os desenganos
A correr livre e ao lado
Desafio!
A ver a mulher e a menina
A ser o mar e o precipício
A mola e o chão firme
Desafio?
A se recolher às vezes
E então apenas deixar ser
E ser o que quiser ser
E muito melhor do que podia ser
Desafio…
A aceitar o riso fora de hora
E então
Quando a vida te trouxer pra mim
Saberá o segredo para se achegar à alma
bem guardada num cofre de coração
desafiado
lapidado
por amar demais.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

** Todos os direitos reservados à autora. **

Do amor e suas implicações

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E qual amor que não dói, ainda que um pouquinho? É preciso ter coragem para amar e se permitir ser amado, para assumir o amor em todas as suas possibilidades e desafios, para sentir o amor com tal intensidade que seu peito parece que vai explodir, para querer chorar de felicidade a cada declaração, para sentir saudade a ponto de doer a garganta, a coluna, o pé… É preciso coragem pra viver, pra ser feliz, pra fazer escolhas, pra amar a si mesmo e se cuidar tão bem, pra permitir que o outro também te goste, te admire, te cuide – principalmente naqueles dias em que você não consegue fazer nada disso por si mesmo. O amor descoberto é como ganhar na loteria, ser correspondido é ganhar duas vezes! Com a maturidade adquirimos manias que a gente aprende a lidar com elas – as nossas e as dos outros -; e se juntarmos a isso o amor, a gente passa a entender que também ama a mania do outro, a ponto de respeitá-la e não querer mudá-la. E então enxerga que amar também é respeitar. Entende que só se muda por si mesmo, e não em função do outro, e que pra mudar qualquer coisa é preciso, de novo, de muito amor (que anda junto de sua companheira, dor) e coragem. Entende que é preciso fazer concessões, e assim a gente se sente feliz em poder fazê-las. Entende que é preciso sabedoria para aceitar o que o outro pode te oferecer, seja um pequeno gesto (pra ele) que se enche de um enorme significado (pra você ou pros dois); e que se deve oferecer ao outro a sua melhor parte, sempre, seja o último e delicioso pedaço de mamão da geladeira, um espaço no seu guarda-roupas, ou o seu melhor sorriso depois de um longo e cansativo dia de trabalho. E passa a amar as roupas não guardadas, o cheiro dele nas que estão usadas, a toalha molhada e o cheiro de banho que ele deixou em sua casa. E eu não sei como terminar este texto, pois o amor não tem fim, ele transforma, transborda, aquece, se molda, inspira, expira…

Ana.

Inspirada por este texto: https://www.facebook.com/SpottedUnB/posts/405924412932657

(Texto e foto: Ana Letícia.)

** Todos os direitos reservados à autora. **

Palavras derramadas

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Palavras derramadas

me descreve tuas lágrimas
são azuis como teus faróis?
me deixa sentir seu gosto doce-amargo
ou salgado
me diz por quem elas insistem em cair
denuncia o gesto, o afeto
me mostra tua dor
tua cor

quanto pesa teu sorriso?
o meu já não se sustenta mais
incrédulo
sem razão, insiste e brota
não quer mais ir embora

me descreve as tuas mãos
são doces como teu olhar?
me deixa senti-las, o veludo da pele,
o cheiro genuinamente teu
e diz por quem se entrelaçam
denuncia o gesto, o afeto
me mostra teu amor

Ana

Texto e foto: Ana Letícia.

** Todos os direitos reservados. **

Saudosismo…

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Da Dor de se Amar Demais
(Texto publicado originalmente aos 22.10.2007.)

Poderia me abstrair de tudo e dizer, e acreditar, simplesmente, que me basta um amor tolo, como o tempo de duração do filamento de uma lâmpada comum, tácito, plácido, de desejo, pura e simples, explícito em tons pastéis, lânguido e preguiçoso. Não, não posso. Não sou assim.

Não costumo economizar. Há de sobra empolgação, falta de noção. Sou moça de horas, de dias, de anos, anos-luz. Mulher da dor de se amar demais e de se entregar, de ser perfeccionista com tudo o que faço e sinto.

Não há nada pela metade. Meias-palavras, meia foda, meia-calça. Meia-luz, pode até ser. Mas nem 8, nem 80. Ou é ZERO, ou é CEM. E vou de 1 segundo a 1000 km/h (e vice-versa) de olhos fechados, na fração de um momento, na feição, na emoção, no olhar, na letra, na ponta dos pés, no pingo do i. E é aí que mora o perigo!

E de tanto querer, há tanto sofrer. Tanta responsabilidade, tanta dor. E há tanto prazer… E há o lembrar, e há o sentir, e há o cheirar, e há o gostar. Pois não há amor sem gosto, lembrança sem cheiro, música sem gozo.

E depois daquele beijo, há a quebra. Há o limite ultrapassado, e tudo se torna tão bom quanto uma fotografia perfeita, a luz que aquece e ilumina seus loiros pelos, como num quadro de um filme, como um filamento de ouro deliberadamente largado, esquecido, sobre suas vestes… E tudo fica tão engraçado quanto numa comédia de palhaços tristes, tão natural quanto deitar na relva e sentir o cheiro da chuva, acariciar seu cão, dormir abraçadinho, mesmo quando não se está com sono, comer banana com queijo e lamber o fundo do prato até não sobrar um resquício de amor sequer.

Ana.

Texto e Foto: Ipê Amarelo: by Ana Letícia.