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Cartas achadas

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Entro em casa e parece não haver ninguém. Somente um espectro daquilo que era antes de irmos embora. Alguns cheiros, agora vazios, faziam imagens vivas de quem se fora.

Arrumo e desarrumo as malas, as roupas, meio sem saber por onde começar. Alguns papéis espalhados pela mesa, contas pagas, notas fiscais, cupons velhos que descontavam alguns centavos de compras que jamais seriam feitas.

Livros – ah, sempre eles! – fora da estante. Pelo menos uns três andaram passeando por outras bandas. Folheados, marcados, e agora, esquecidos. Minha caneta preta repousava em cima do jogo americano da mesa de jantar. Ensaiara notas musicais e outros desenhos num bloco mais ao lado. E pra lá deste, folhas soltas com sua letra me encararam.

Peguei as palavras, de supetão, coração disparado e as folhas nas mãos, estaria ele aqui ainda? Me senti estranha ao ler palavras escritas que não eram pra mim. Mas não eram pra ninguém, a não ser pra ele mesmo, o escritor que aqui sentava, antes de irmos embora.

Pareciam cartas jogadas, achadas, marcadas, um diário solto, que não tinha continuidade, mas que contava emoções e sentimentos, sonhos das noites anteriores, nada mais.

Mas este nada é muito mais que um simples nada. E somente eu seria capaz de entender as palavras, a começar pela letra, que pareço conhecer desde sempre. Somente eu saberia que, quando ele escreve, é porque está bem.

Então meu coração se acalma, e outras lembranças chegam. Lembranças de um tempo em que eu mesma escrevia e esperava cartas chegarem pelo correio.

E elas demoravam, mas chegavam. E eram pra mim.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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Poeira em alto mar

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Era um típico sábado de verão. Dia lindo, nenhuma nuvem no céu, sol escaldante, piscina, churrasco, cerveja gelada, rock n’ roll nos ouvidos e muita conversa boa.

Ao percebermos que o carvão e a cerveja estavam chegando ao fim, apelamos para o “disque-birita”, segundo ele, a melhor invenção da humanidade depois do youtube. (Para mim, quem ganha é o google. Mas, foquemo-nos.)

Campainha tocando é sinônimo de cachorros latindo, ou seja, mais um carregamento da dita cuja sendo entregue pelo motoqueiro, o qual nem ousa desembarcar propriamente em razão de canelas calejadas das investidas frenéticas dos cachorrinhos de guarda e companhia. Estes, nos protegem de tudo – talvez até de nós mesmos, ao tentarem impedir a entrega dos comes e bebes (mais bebes que comes, em verdade).

Meu namorado me grita de lá: – Rápido! Segure a Miúda! – referindo-se à pequena fox com síndrome de pit-bull.

Eu, um pouco relutante – pois usava trajes de banho – e pensando que o escândalo canino era simplesmente em razão do pobre do motoboy encarregado das cervejas, como já era costume da pequena Miúda e dos demais cachorros da casa, me dirigi ao local lentamente, porém curiosa. Foi então que avistei meu namorado, imóvel junto à porta, carregando não só as cervejas e o carvão, mas também uma montanha de 1 metro de roupas empacotadas.

Pensei, por um instante, que fossem trouxas limpas da lavanderia ou algo do tipo, mas tudo aquilo não me fazia qualquer sentido pois sua mãe havia colocado roupas na máquina para lavar naquele mesmo dia, pela manhã. Ao mesmo tempo, alcancei Miúda debaixo de uma mesa baixa, e a prendi no colo: – O que é isso? – apontei para o embrulho.

Meu namorado, com olhos faiscando de satisfação, com aquele monte de roupa de inverno nos braços, responde, em tom de voz baixo, como que em segredo: – É um gajo português aí na porta, vendendo jaquetas de couro!

Até eu entender que, de fato, se tratava de um vendedor de roupas, cuja nacionalidade era portuguesa, demorou mais que um instante pois, até então, meu raciocínio lentificado pelo sol do meio-dia não conseguia fazer a associação CALOR + CERVEJA + PISCINA + VERÃO NO HEMISFÉRIO SUL com a equação JAQUETA + COURO + PORTUGUÊS + INVERNO. Sendo assim, pelo bem da típica piadinha de brasileiros x portugueses (colônia x colonizadores, e por aí vai), pensei que só poderia mesmo ser um “português” querendo vender tal tipo de vestimenta no alto verão fluminense.

Mas eis que o sujeito desconhecido entra na casa e me cumprimenta, carregando no típico sotaque d’além mar. E só então pude perceber a razão da felicidade do meu namorado. Esta não residia nas ditas jaquetas de couro de antílope (como jurou o patrício), mas sim na rara possibilidade de um conto ou crônica baterem – literalmente – a campainha de sua porta.

Garanto que o português não saiu de lá muito feliz, afinal de contas, nem mesmo abaixando o preço de absurdos R$ 1.700,00, para não módicos R$ 150,00, ele conseguiu a venda.

Mas sua presença, além deste texto, nos rendeu boas risadas após a porta se fechar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Judite e o Toco

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Coisas pitorescas ocorrem em todas as famílias… Mas nunca vi uma tão inclinada para essas coisas quanto a minha. Teve o episódio da morte do hamster que não morreu, teve a gafe do “noivo” que meu pai cometeu outro dia num casamento, teve a história dos pintos, teve meu avô que sumiu no meio do mar de Iriri… Ah… São tantas coisas que nem dá pra contar aqui sem escrever um livro, sem exageros.

É claro que ter um irmão veterinário, com vocação para cientista, ajuda muito para que tais acontecimentos esdrúxulos ocorram com mais freqüência. Afinal de contas, quem, além dele, é que teria disposição para passar as noites em claro fazendo experiências com o casal de hamsters (mamíferos de hábitos primariamente noturnos), até descobrir o ciclo reprodutor da fêmea, obviamente fazendo com que a mesma ficasse prenhe?

Pois agora o alvo de maior interesse de meu irmão, na faculdade, no trabalho, e pasmem, em casa, é a piscicultura. Não, meus amigos, não possuímos um tanque aqui em casa com golfinhos, arraias e tubarões, mas sim um pequenino aquário metodicamente cultivado por ele com espécies simples de peixinhos de água doce. Costumavam viver lá até dois camarõezinhos, batizados por minha mãe de Gilberto e Wellington (foto ao lado). No entanto, os mesmos foram devorados por um surubim maldito, denominado Marinho (adivinhem quem deu o nome?).

Outro dia fui entrando no carro e vi um morcego enroscado no banco do passageiro… Quase dei um grito! Encostei com a ponta da chave, e o “bicho” estava duro… Olhei mais de perto e… era um toco, de madeira mesmo, sem maldade gente, por favor. Descobri depois que meu irmão o tinha ganhado de presente de um amigo – veterinário também, óbvio – para ornamentação do aquário. Sendo assim, o dito cujo foi trazido para casa para fazer o “tratamento” do tronco, ou toco, como preferirem, para poder se juntar aos peixes e plantas aquáticas. Peraí… tratamento? Sim, meus amigos, tratamento que inclui: banho no cloro com água por 24 horas, fervuras e mais fervuras, trocas e mais trocas de água, até esta ficar limpa.

O que não sabíamos era que, após o “banho de cloro”, o tronco ficaria… BRANCO! Todos ficamos horrorizados com a feiúra do toco russo… Será que ele teria descorado? Eu heim!? Minha mãe quase morreu do coração, e foi muito aflita falar sobre isso com meu irmão. É que ela é a auxiliar de laboratório preferida dele, segue rigorosamente todas as instruções do cientista para as experiências feitas em casa.

– Calma mãe, se este toco não voltar a ser marrom, meu nome é JUDITE! Respondeu ele, com convicção.

Sendo assim, durante uma semana o “toco cru pegando fogo” de meu irmão “Judite” foi fervido por horas no enorme balde de alumínio, no fogão daqui de casa… E não é que o tal foi voltando à cor originária? Hoje já está pretim, pretim…

E o toco acabou sendo batizado de Judite, meu irmão continuou se chamando Ângelo, e continuou colocando nomes estranhos em seus bichinhos de estimação… A nova hamster, por exemplo, chama-se “Pristica”!

É… vai entender!?

Ana.

P.s.: Brincadeiras à parte, esta história de piscicultura é coisa séria… O laboratório da UFMG é um dos mais conceituados do Brasil nesta área, meu irmão já tem vários trabalhos publicados e apresentações em congressos pelo país inteiro! É… os surubins e abadejos que se cuidem!

Fotos por Ângelo – meu irmão

1 Casamento e 4 Funerais

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Quem não gosta de festa de casamento? (Dos outros, principalmente, pois não dói o nosso bolso…)

Ver aquela decoração maravilhosa, bebericar vinho, champagne, whisky, cerveja… Comer salgadinhos maravilhosos, jantares sofisticados, isso sem falar nos bombons e sobremesas sempre de babar… E a mesa de café da manhã? Munida de trufas de diversos sabores, biscoitinhos amanteigados, e licores diversos… Ahhhh! Eu adoro este pecado da gula!

As cerimônias tradicionais de casamento não são menos bonitas e sofisticadas que as recepções que as acompanham, mas confesso que me atraio mais por casamentos em chácaras ou sítios, destes em que já acontece tudo num local só: da cerimônia religiosa ao baile.

Pois a expectativa no final do ano passado era de que, nestes seis primeiros meses do ano, eu iria em 4 casamentos, seria praticamente 1 por mês, e haja laquê no cabelo, haja manicure, haja roupas e haja dieta para caber nelas depois de tanta festa, né? No final das contas, passados alguns problemas de ordem pessoal, estes 4 casamentos se transformaram, até o presente momento, em apenas um, o qual ocorreu neste sábado à noite. Não falarei aqui dos funerais, ainda bem que não houve nenhum até o presente momento, o título foi apenas uma alusão ao filme de comédia britânico, “4 Casamentos e 1 Funeral”, que lançou ao estrelato o inglês Hugh Grant, aclamado por minha mãe como “aquele gato”.

A cerimônia que fomos, tradicionalíssima, aconteceu na gigantesca e solene nave da Basílica de Nossa Senhora de Lourdes. Com direito a coral, quarteto de cordas, e órgão tubular… A igreja fica na movimentada Rua da Bahia, próxima à Faculdade de Direito da UFMG e à Praça da Liberdade, endereço nobre e concorrido pelas noivas mineiras. Estacionamento próximo ao templo é coisa quase impossível, e por isto meu pai nos deixou na porta enquanto procuraria por uma vaga, não sem antes recomendar, com muito zelo, que escolhêssemos o canto DIREITO da Igreja, o lado do noivo, de quem éramos convidados. Tudo isto para que fosse mais fácil a nossa localização pelo “choffeur” (meu pai), quando ele entrasse na igreja.

Já chegamos com alguns minutos de atraso. Os padrinhos e o noivo já tinham entrado, a noiva já estava na porta, recebendo os últimos retoques, esperando para entrar e atravessar a nave da Basílica a caminho do altar com seu véu branco de 7 metros (será isso tudo?), onde encontraria o homem com quem escolheu passar o resto de sua vida, perante uma gigantesca imagem de Nossa Senhora de Lourdes adornada com um igualmente enorme halo luminoso e brilhante sobre a cabeça. Nos encaminhamos para o lado DIREITO, tomando o cuidado de entrar já pela porta da DIREITA, para não ter que atravessar o caminho a ser percorrido pela nubente. Escolhemos nosso banco, o antepenúltimo, já pensando na facilidade de sermos vistos por meu pai, assim que ele chegasse lá.

Até que… Tan-tan-tan-tan… Tan-tan-tan-tan… (Dá início a Marcha Nupcial). Ouço de meu irmão, sério, com seu sarcasmo peculiar: “Olha o noivo ali, olha!” Todos que estavam por perto se alarmaram, mirando na direção em que ele apontava com o olhar. E eis que avistamos um senhor de parca estatura, em seu terno preto risca de giz, do lado ESQUERDO da igreja, passa em frente à porta (que apenas alguns segundos depois se abriu para a noiva), atravessa e pisa no tapete vermelho, olhando para os convivas, e se encaminha em nossa direção. Não pode ser! O meu choro, que sempre chega nesta hora da entrada da noiva e do início da música que todas as mulheres sabem de cor, desde o seu nascimento, foi substituído por uma vontade quase que incontrolável de dar uma gargalhada daquelas! O tal “noivo” de que meu irmão falara, era meu próprio pai!!! Todos viram a gafe, muitos seguraram o riso, como eu…

Para completar o “espetáculo”, eu e minha mãe, com crise de tosse, bem na hora do SIM, éramos respondidas por um companheiro de doença, sentado bem atrás de nós. A seqüência era a seguinte: primeiro eu, cof-cof. Depois mamãe: cof-cof-cof-cof. Depois o senhor, do banco de trás: cof-cof-cof-cof-cof-cooooooof, terminando com um sonoro raspar de garganta, escarrando…

Só seria mais tétrico, caso os minúsculos pagens e damas de honra tivessem realmente derrubado o Ciro Pascal, enorme vela amarela apoiada numa pequena coluna, que se balançava de um lado para o outro, a cada esbarrada de perna dos pequeninos, que se recusavam a ficar quietos. Nossa vizinha, também convidada da festa, ao sair da igreja quebrou os dois saltos de seu escarpin salto 12cm! Foi socorrida pela equipe de manutenção do buffet, que lhe emprestou uma sandália havaiana azul royal, nada a ver com sua roupa, de cor creme. Minha mãe perdeu a pulseira de ouro branco com zircônios, no meio da dança no salão Versailles da casa de recepções…

Como ela mesma diz, entre mortos e feridos, todos se salvaram, vão-se os anéis, ficam-se os dedos… A cerimônia foi linda, a festa idem, impecável, com decoração maravilhosa, de babar mesmo, buffet digno de aplausos…

E que os noivos sejam felizes para sempre!

Ana.

(Foto: ClCosta.)

Quando eu era criança pequena…

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Legenda: CL = meu pai; M = minha mãe; AL = eu; G = meu irmão Ângelo; L = Léo, outro irmão; Vô = Soié; Vó = a eterna namorada do Soié, minha avó Aparecida.

(5:30h da manhã, Edifício Leontina Toledo, BH.)
CL – Acorda, filhotinho, tá na hora de ir para a praia! Seu café da manhã já está na mesa e já estamos quase todos prontos!
M – Benhê! Já pegou o guarda-sol?
CL – Não, Bem, vou pegar! Filha, pegue o guarda-sol pro papai lá no quartinho? Andaa filhaaaaa, não atrasa não!
M – Ângelo, já tomou café? Não se esqueça que tem que comer antes do Dramin, heim, meu filho. Faz xixi no banheiro antes. Já fez? Não bebe muita água então, nem leite, porque fermenta e aí você vai passar mal.

(9:30h – garagem do prédio, BH)
G – Eu vou na janela!
L – Eu vou na outra janela!
AL – Ah não paiê, não quero ir no meio! O Ângelo vai vomitar em mim!
CL – Filha, vai do lado do seu irmão pra cuidar dele caso ele passe mal. Você é a mais velha, tem que dar o exemplo, filhote.
CL – Tá bom, saco.

(1 hora depois – Estrada Minas/Vitória)
AL – Pai, olha o Léo e o Ângelo rindo de mim!
Pof, tum, paf!
G – Ai!
AL – Eu te mato, menino!
L – hihhihihi
M – Parem de gritar no ouvido do seu pai, não vêm que o estão irritando? Ele está dirigindo!
L – Aiiiiiiiii paiê…. não precisava beliscar! Buáááááá….

(7 horas depois – casa de praia, Iriri-Es.)
AL – Aaahhhh!
CL – O que foi isso?
Al – Mata pai, mata! Aaaaaaaah!!! Uma barata deste tamanhão!!!
Pleft!

(7:30h, dia seguinte – casa de praia, Iriri-ES)
G, Al, L, M, CL – Vamos a la plaia! Ôôôôôô! Vamos a la plaia! Ôôôôôô!
L – Olha lá, pai, é o Rio de Nova Era?
CL – Não filho, é o mar, não é rio, e é beeeeeeem maior que o rio de Nova Era, que é o Rio Piracicaba!

(Meia hora depois – casa de praia, Iriri-ES)
Vó – U-ui! U-ui! Oi mô fio, vovó chegou!
Vô – Não pega na careca do vovô senão você vai ficar com testa grande também, heim? hehehe

(9:30h – Praia da Areia Preta, Iriri-ES)
Vó – Ismael! Pega a bóia pra ir nadar!
CL – Tira o aparelho do ouvido senão vai molhar, papai.
Vô – Muito bem, pessoal, estou indo nadar. Até mais.

(2 horas se passaram – Praia da Areia Preta, Iriri-ES)
M – Gente, cadê o Sr. Ismael, heim?
CL – Uai, Bem, eu vi o papai indo nadar com a bóia preta… Mas tem muito tempo já, deve ter ido no quisque comer peroá com fritas.
M – Qual bóia preta, a pequena ou a grande, de câmara de pneu de caminhão?
CL – Com a grande.
M – Ah tá.

(5 minutos depois – Praia da Areia Preta, Iriri-ES)
CL – Ele não está no quisque.
M – Uai…
CL – Mamãe, a senhora viu o papai? Ele não estava nadando?
Vó – Estava, Cláudio, mas já tem muito tempo, Nosso Deus! Onde será que está o Ismael? Ai minha Nossa Senhora, ai nosso Senhor Jesus Cristo! Ismael afogou! Eu estou passando mal… Aaaiiiii….
CL – Bem, acuda a mamãe! Vou procurar o papai.

(10 minutos depois – Em cima das pedras olhando para o mar da Praia da Areia Preta, Iriri-ES)
G – Ô paiê, o que é aquele pontinho no meio do mar? Parece uma bóia igual a do vovô…
CL – Ai meu Deus! É o vovô! Vamos chamá-lo! Papaaaaai!!!!! Papai!!! Soié!!! Ismael Cirilo da Costa!!!
G, L, AL – Vovô!!! Vovô!!!
AL – Vovô Sô Ismael!!!
Vó – Cláudio, Cláudio! Não adianta, chamá-lo, ele não vai ouvir! Tirou o aparelho de audição para poder nadar!
CL – Então deixa comigo, me dá aquela corda ali.
Tchibummmm!
M – Bem! Bem! Ai meu Deus, Ana, onde seu pai foi?
AL – Foi buscar o vovô, mãe, ele tá na bóia lá lonjão, olha, o papai vai mandar a corda pra ele e a gente vai tentar puxar.
M – Ahn?!

(30 minutos depois – De volta ao guarda-sol, Praia da Areia Preta, Iriri-ES)
Vô – Por que me tiraram da água? Estava tão gostoso! Cochilei só 10 minutinhos… Ahn…

-P

Em homenagem ao meu avô Soié, o espirituoso!

Ana.

Ser mineiro: eis a questão…

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Dizem que mineiro é desconfiado, religioso, conservador, simples, prudente… No entanto, a sublime e subestimada arte de ser mineiro sobrevive em todos nós, em maior grau em alguns, e mais à flor da pele em outros. Mas não tem como negar: mesmo sem ter nascido nesse cantinho de terra sem mar, mesmo sendo capixaba, paulista, baiano, etc., um pouco de mineiridade subsiste em todos, pois ser mineiro é mais do que um local de nascimento, é uma maneira de encarar a vida, é saber valorizar as tradições, os costumes, a família, é conseguir perceber a beleza nas coisas simples do dia a dia, é encontrar felicidade no singelo ato de admirar uma flor e um pôr do sol inesquecível…

Para saber qual o seu grau de mineirismo, siga fazendo o teste abaixo. Conte um ponto para cada resposta positiva, some tudo e veja o quão mineiro todos nós podemos ser.

Você…

1) … se diverte a valer na praia, mas não troca um amanhecer com friozinho de montanha por nada?

Os mineiros não perdem uma oportunidade de ir à praia e ficar torrando no sol para perder aquela cor branquela que virou motivo de chacota nos outros Estados agraciados com um pedacinho de areia fofa e um mar azul. No entanto, mineiros não trocam por nada um pôr do sol na montanha, com o ventinho suave do entardecer e uma noite fria – que pede um cobertor e uma lareira acesa – pois valorizam as belas paisagens e têm orgulho do cantinho de terra onde vivem!

2) … não dispensa um pão de queijo com queijo?

Dentre todos os quitutes possíveis e imagináveis, o mineiro simplesmente reverencia o pão de queijo. Mas não vale aquele pão de queijo congelado, comprado nas prateleiras do supermercado, mas sim aquele pão de queijo caseiro, escaldado e sovado à mão. Se vier acompanhado de um queijo frescal novinho e um cafezinho, não há mineiro que resista! (Será que mineiro é também guloso?)

3) … não sai de casa sem agasalho, remédio para dor de barriga, camisinha, pente, dinheiro líquido, cartão telefônico e guarda-chuva?

O que os mineiros odeiam mesmo são os imprevistos… Além de ser desconfiado de que algo pode dar muito errado, o mineiro é, acima de tudo, prevenido. Por isso, os mineiros não saem de casa sem os apetrechos capazes de salvá-los tanto de uma tempestade quanto do fim da bateria do celular, pois o pior é não ter como se virar quando o imprevisto acontece…

4) … faz da cozinha o lugar mais aconchegante da sua casa?

A cozinha do mineiro é aconchegante, tem aroma de café, pão de queijo, e bolo de fubá, e, sobretudo, tem calor humano! É o lugar escolhido pela família para se reunir, para contar “causos” e novidades. É certo que as cozinhas de hoje estão cada vez menores, mas o mineiro precisa de pouco espaço para expressar a sua mineiridade!

5) … toma banho de mangueira no quintal ou toma sol na laje ou na varanda quando faz calor?

Na falta de praia ou piscina, a laje ou a varanda são muito bem vindas para pegar aquela corzinha ou dar uma refrescada. O que o mineiro não admite é passar vontade, e, para não dizer que temos inveja dos quilômetros e quilômetros de praia do nosso extenso Brasil, nos contentamos com a laje e com a mangueira mesmo…

6) … conhece e cita ditados populares (provérbios)?

Minha avó já dizia que só quem conhece ditados populares pode ser boa pessoa. E como água mole em pedra dura, tanto bate até que fura, conseguiu me convencer disso. Mineiro que é mineiro não é santo de pau oco, além de conhecer usa e abusa dos ditados, se diverte com eles! Pois então, vamos colocar em prática a sabedoria mineira e começar a aprender logo, antes tarde do que nunca, pois a ignorância é o pior dos males!

7) … adora contar e ouvir “causos”?

Veja bem, “causos” não são piadas. Causos são eventos curiosos ou engraçados ocorridos com o namorado do amigo da sua vizinha, com a tia da avó da sua mãe, ou com o cachorro da prima da sogra da professora do jardim da infância. Sempre fica uma dúvida se os casos são invenções ou produto de uma mente fértil, mas não tem como não se divertir com eles! Não há mineiro que resista a contar causos ou a “rachar os bicos” quando se depara com um. De fato, quando dois mineiro se encontram, não vai faltar uma sessão de causos!

8) … faz junção ou abreviação de palavras? Usa expressões como “uai”, “trem”, “sô” , “bom demais da conta” ou tem uma expressão própria que todos seus amigos reconhecem? E ainda, inventa palavras? (Nesse último caso, acrescente mais um ponto).

Seja para economizar tempo ou saliva, todo mineiro adora abreviar palavras e até mesmo juntá-las. Desta mania saem pérolas do tipo: “pó pô pó?”, “peraí”, “tó”, “cê” e muitas outras versões impublicáveis. Agora, mineiro gosta mesmo é de inventar palavras, porque mineiro de verdade gosta de ter marca registrada! Basta lembrar do inventor de palavras Guimarães Rosa e até da nossa Lú (“sonhação”, lembram do texto IdiossincrasiasI???).

9) … sabe bordar e fazer biquinhos de crochê em panos de prato e toalhinhas? Se você for do sexo masculino, troque por “…você usa lenço de tecido”?

Mineiro tem carinho pelas tradições, e tem um capricho especial na hora de cuidar do seu interior. Por isso, as mulheres mineiras adoram dar aquele ar aconchegante à cozinha e aos banheiros decorando-os com toalhinhas e panos de prato bordados e enfeitados com biquinhos de crochê. Quanto aos homens, não dispensam seus lencinhos de tecido com monograma personalizado bordado, feito por suas mulheres, é claro, com muito carinho e dedicação.

10) … faz “pratinho” no fim da festa?

Mineiro não compactua com o desperdício, e também não recusa um docinho! Então, se no final da festa você não resiste a montar um pratinho com seus quitutes preferidos para saborear no dia seguinte, você é um legítimo mineiro, não tem como esconder!

Eu sou mineira, mas quem não é? Some os pontos e confira o seu resultado:

De 0 a 3 pontosPaulista, baiano, capixaba, fluminense, etc… Você, decididamente, não é mineiro! Tá fraco nessa mineiridade! Vale lembrar que é bom conhecer melhor o jeito de ser do pessoal de Minas, como já descrito lá em cima. Além de se surpreender com as belas coisas que você pode descobrir, pode acabar descobrindo mais mineiridade em você do que imaginava!

De 4 a 6 Mineirinho. Você sabe que é o bom nessa vida, mas, como todo bom mineiro, ainda está desconfiado demais para colocar em prática a sua sabedoria! Está certo que mineiro só arrisca quando tem certeza, mas nesse assunto, pode ficar tranqüilo e liberar o seu mineirismo à vontade, que você só tem a ganhar com isso.

De 7 a 9 – Você é mineiríssimo! Quase um mestre no assunto, quando se trata de mineiridade! Ser mineiro é com você mesmo

10 ou mais – Parabéns, você é mineiro da gema! Sabe curtir os pequenos prazeres da vida, pois acredita que neles se encontra a verdadeira felicidade!

Texto e Fotografia: Bela.

CARNAHELL III – O retorno

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3a. (e última) Parte – Para quem achou que o pesadelo já tinha terminado…

Depois de curtirmos bem a praia lotada do Recreio (porque não conseguimos chegar à prainha de tanto engarrafamento) – e quando digo lotada, é sendo disputado cada pedacinho de areia – e almoçarmos muito bem num restaurante da moda na Barra, pegamos estrada rumo a Macaé.

Quer dizer, só pegamos a estrada mesmo após nos perdermos em plena linha amarela (entramos em locais meio barra pesada) – o Cris se atrapalhou seguindo o Léo no trânsito carioca – e passarmos, por TRÊS VEZES, no MESMO PEDÁGIO!!! Acreditem se quiser, o atendente ficou até com dó e nos deixou passar na lateral (onde não tem cancela), por duas vezes…

Uma vez chegando à Via Lagos, acreditamos estar tudo numa nice, numa boa, pois nada de PIOR poderia nos acontecer…

Mais uma vez, estávamos enganados. Ao chegar à casa dos rapazes em Macaé, encontramos os quartos todos bagunçados, cheios de roupas misturadas (mulher, homem, calcinha, meia, calça jeans), a cozinha e a sala sujas, o chão e a parede meladas de gordura, a geladeira vazia… O que poderia ter causado aquilo??? Furacão? (Em pleno Rio de Janeiro… meio difícil.) Tsunami? (hã-hã, a casa ficava um pouco longe da orla, e no Brasil, né gente, não na Ásia.) Arrombamento? (Pois é, seria a explicação mais plausível)… O detalhe é que nos esquecemos de um figura que também morava na casa chamado Bill, e que tinha dito que iria viajar, pois sabia que estávamos indo pra lá no Carnaval.

O peça rara (e ultra folgado) se “esqueceu” que a casa teria visita das namoradas e chamou TODOS os seus primos e primas pra aproveitar a casa… E foi o que fizeram, né!? Rolou a maior briga entre todo mundo, mas no fim deu tudo certo. Os primos e primas do Bill dormiram juntos, no quarto dele – o que seria até muita sacanagem se não fosse o quarto dele o único da casa com ar-condicionado…

Nos dias que se seguiram, segunda e terça, passamos um Carnaval tranquilo, dentro dos padrões Macaenses, claro, ou seja: sol de rachar e engarrafamentos monstruosos. Para vocês terem uma ideia, gastamos umas 6 horas de Arraial do Cabo até Macaé…. (Haja paciência!!!). Tinha motorista utilizando o acostamento da pista da contra-mão para passar na frente dos outros, algo inimaginável para os padrões mineiros de dirigir.

A Aninha teria que ir embora na 3a à noite, pois teria que trabalhar na 4ª feira de cinzas. Então, resolvemos ir naquele dia para Búzios, pois era mais perto de Macaé e ela ainda não conhecia. O dia foi maravilhoso, o mar maravilhoso, algumas pessoas conhecidas, muita cerveja, peixe, etc. Deveriam ser umas 16h, quando a Aninha pediu p/ o Cris para ver sua passagem de volta para BH, que ele havia comprado pra ela na 6a feira anterior ao Carnaval. Foi aí que ocorreu a nossa última e mais traumática aventura (tá bom, a do assalto a mão armada no túnel traumatizou mais, eu admito) do Carnaval de 2005…

O Cris não conferiu a data da passagem na hora da compra, e o atendente da empresa de ônibus vendeu pra ele passagem para a sexta-feira!!! Para o mesmo dia em que ele estava comprando a passagem!!! E o dia que estava sendo tão maravilhoso, se transformou em uma tormenta sem fim! E foi um tal de liga pra empresa, liga pra Rodoviária, grita daqui, cara emburrada de lá, eu e o namorado no meio do fogo cruzado tentando aliviar a atmosfera, que não estava nada boa.

Por fim, depois de muuuuuito stress e correria, às 18:30h conseguimos convencer o atendente a nos ceder, de favor, um lugar no ônibus das 19h de Macaé para BH que, por um milagre, não estava completamente lotado ainda.

No final das contas, deu “tudo” certo e o resto do meu feriadão foi excelente, com direito à Praia de Costa Azul (Rio das Ostras) na 4a de cinzas, 5a, 6a , sábado e domingo!!! Uhuuuuuulllll! 😀

Enfim, um final feliz, né gente? Acho que eu mereci, depois de tanto sofrimento!!! Ufa!

Ana

************ THE END **************

Cliquem para ler toda a “saga” Carnahell:

1a. Parte;

2a Parte.