Defesa

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tempestade
Não, eu não gosto mais de você.
Fui dormir em uma noite qualquer pensando sobre a gente… Quando acordei no dia seguinte, a magia tinha se acabado, simples assim.
A princípio fiquei atônita, procurando aquelas borboletas com as quais aprendi a conviver, tentando entender o porquê de eu não sentir mais o que sentia na noite anterior.
Mas aí, simplesmente, cansei. Cansei de procurar, de tentar entender. E foi aí que eu entendi: cansei de promessas vazias de pés juntos e dedos cruzados. E quanto mais entendi, mais atônita e cansada fiquei.
Não, eu não me canso facilmente. Mas meu coração cansa. Ele é calejado, e não aceita ser quebrado mais de… Duas vezes. Na terceira, ele vira pedra oca, não chora mais.
Apesar do vazio e da aparente insensibilidade, me comovo com algumas notícias suas, me revolto com outras. Às vezes sinto vontade de te ligar, conversar. Depois passa… E como passa rápido!
Não vou mentir para mim mesma que não sinto um arrepio bom quando ouço sua voz. Que meu coração não dispara quando você dá algum sinal de vida. Que vejo sua foto e não me imagino ao seu lado. Que não queria, agora, sentir seus cabelos entre meus dedos, sua barba no meu rosto.
E mesmo com essa nostalgia toda, eu digo não.
Eu não gosto mais de você.
Em minha defesa, exorcizo o resto de você, que ficou em mim, nessas linhas. Exercito minha auto análise, e me declaro, definitivamente, livre.
Ou não.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

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Para trás

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arco
Não volto nunca mais, ele disse.
(Quero voltar…)
E ao ir embora, perguntou se não tinha ficado nada para trás.
Nada, respondi.
Ficou tudo, pensei.
Seu cheiro, seus pelos, seu lugar na cama, seu vazio, seu inteiro.
A ausência de sua voz, nossas brigas, seus abraços, meus cabelos em teus braços.
A toalha usada, a roupa de cama suada, minha camisola surrada.
Pegadas pelo chão.
Um coração.
Eu.
Só.

Texto e foto: Ana Letícia.

Eu vi: Elena, o filme

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Assisti “Elena”, o documentário de Petra Costa sobre sua irmã, há dois dias. Somente hoje consigo escrever algo sobre o filme, após digeri-lo, ruminá-lo e engolir novamente.

E então chego à conclusão de que, definitivamente, Elena não é um filme para qualquer um, para qualquer hora, e, principalmente, Elena não é um filme para se esquecer. Talvez por isso mesmo que, talvez, Elena não seja um filme para se recomendar. Seu realismo e construção exigem dedicação e sensibilidade do espectador. Não me sinto confortável em escrever esta crônica, como não me senti confortável ao assistir o filme, durante a sessão. Mas ainda assim, não consegui sair da sala de cinema e largar Elena ali, sem minha respiração tensa, sem minha angústia velada.

O filme é sensível, e talvez a sua sensibilidade extrema tenha me atingido como um murro, desses que você lembra dias a fio, como um zumbido no ouvido que não te deixa dormir após uma noitada com som muito alto.

As imagens de Belo Horizonte e as gravações reais exibidas durante todo o filme, bem como o mineirês das personagens – nada ficcionais – me transportaram à BH nos anos 80, quando morávamos na Rua Alto da Mata na Cidade Nova, e eu ainda era tão criança quanto Petra, enquanto sua irmã Elena ganhava os palcos em São Paulo. Se eu fosse 10 ou 12 anos mais velha, provavelmente teria conhecido Elena…

Além da nostalgia do meu próprio passado, gostei das imagens gravadas com uma pequena câmera fotográfica em Nova Iorque, pela própria autora, diretora e personagem real Petra, dando o tom biográfico e, ao mesmo tempo, se aproximando de mim e minha Nikon D3100, meus muitos sonhos e alguns projetos não realizados. Minha amada Nova Iorque jamais será a mesma após Elena, não para mim.

As últimas falas do filme, na voz de Petra, e suas últimas imagens, não me deixarão esquecer de ti, Elena, controversa, dançarina, atriz, mulher.

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Ana.

(Texto escrito em Curitiba/PR, 24 de maio de 2013.)


Atualização: Meu interesse em ver este filme nasceu com a leitura do texto sobre ele publicado pela Aline Souza, no blog Escritus Infinitus.

A ladeira

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"Mandacaru quando fulora na seca..."  #mandacaru #flor

E daí se eu penso que tudo que escreves é para mim?
Se falo coisas sem sentido
– Ou com sentido só para mim
E você se ofende
Falo minhas verdades pois não as consigo segurar
Têm vida própria
Irremediáveis
E então me surpreendo com as palavras
Os poemas
Que outro destinatário têm
E que efeito sua voz provoca
Ressoa em minha mente
E se transforma em calafrios bons pelo corpo
E lembro do beijo
Da ladeira
Daquela tarde
E quero tudo de novo
Num misto de culpa, curiosidade e saudade
E então acha graça da minha falta de jeito
Da minha falsa timidez
Ou será que acredita que sou tão ingênua assim?
Não sei o que vai ser de mim
De nós
Dele
Da voz
Do amor
Do menino que vive em seus olhos
Do fim.

Ana.

(Texto e fotoAna Letícia.)

Borboleta e metal

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Ainda sinto seu abraço
E seu corpo no meu
Ainda sinto seu beijo
Tímido
E seu rosto limpo
De sabonete de mel
Saboreio sua voz
Vida em seu canto
Música de borboleta e metal
Desço do salto
E nas pontas dos pés
Danço em seus braços
E então sorriso nos olhos
Contidos
E no canto da boca
nasce
Um poema.

Ana.

Joia

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Brilho

Queria
Mesmo que por um segundo apenas
Capturar a luz dos seus olhos
me fitando
Queria guardar essa luz
numa caixinha
Fazer uma joia
com este brilho
dessas preciosidades que não me canso
de apreciar
e que nem é preciso
usar
Pois só de observar
Já me faz
sorrir.

Queria
Me afogar em teus braços
Afundar no teu colo
Sem fantasias
Sem medos
Sem sinais a nos observar
Sem sobressaltos
Segredos
Trazer este sorriso só pra mim
E ser feliz.

Queria…
Quero.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

A Queda

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É sempre assim, grandes expectativas, maiores decepções
Acontece com uma festa que não é nada daquilo que você esperava, um almoço que nao aconteceu, um beijo que não se encaixou.
Quantos tombos terei de levar para aprender a não cair mais?
Quantas vezes mais me levantarei?
Fico cansada da vida, do tombo, do mundo
E então começa tudo de novo
A vida segue
Esqueço do tombo
Esqueço de mim
Caindo, levantando, entre erros e acertos.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Disfarce

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Boca

Levanta-se no meio da noite, pega o caderninho e rabisca um recado que ele não receberia, um desabafo que ela não conseguira verbalizar. Foi mais ou menos assim:

– Vou dizer de uma vez só
A minha timidez disfarçada de mulher mutante
Hiperativamente altiva
Espera mais que um sinal
Não tenho prática em decifrar enigmas
Não estudei quiromancia
Meus olhos apenas vêem o que o rosto deixou de esconder
Ouço as palavras ditadas
E minha mineirice, desconfiada, dá um grito de alerta
Antes que eu pule no precipício dos teus braços até não ter mais volta.
Com os dois pés atrás, piso em falso
Mais um entorce e mudo de caminho
Erro a direção
Ando sem poder andar
E me calo ante o inesperado.

E assim, sem um desfecho, ela fecha o caderno, guarda o lápis num canto do criado-mudo, vira-se para o outro lado da cama, sozinha, e volta a dormir.

Outro dia nasce, mais outros tantos se vão, e após uma tarde de chuva com sol, de papo bom, algumas indiretas despercebidas e um pouco de mistério, ele se despede sem um beijo – de novo!?, pensa ela – e ambos se viram em direções opostas, caminhando sem olhar para trás.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

Truco

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Então eu não soube jogar o jogo
Não entendi os sinais
Não blefei
Ou não quis mover as peças corretas?
Não recebi as migalhas
Não engoli os pedaços de palavras
Não admiti o vazio
Ou ele tomou conta de mim

Não quero mais ver
Não sei jogar
Não quero brincar
Minha vida é real
Não cabem apostas
Não tolero pedaços
Quero por inteiro

As cartas na mesa jamais foram postas
Canastra real nas mãos
É truco, ladrão!
Peço seis só pra ver
O que tem a me mostrar
Mas me contraria
E nas mangas esconde o jogo
A alma
Os olhos

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Mulher Tola

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Frôzinha

Sorriso no canto dos lábios
Por quase nada
Ou por tão pouco
Dormir suada e acordar assustada
Pelo sonho que sonhei só
E agora o olhar se faz sorrir
(Mesmo sem correspondência)
E o nó na garganta se aperta
Para não escaparem as borboletas
Para não se espalhar a vontade… de escrever poesia
O que não me torna poetisa
Mas, sim, uma tola mulher
Vê se pode?

As borboletas voltaram
Junto a elas engulo saliva seca
Vontade de sair
De pular
De gritar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)