O filme que nunca existiu

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Antecipo o beijo, o cheiro, e meu peito se retrai e expande num contínuo, como se o sentisse. A voz ecoa na mente e evoca sentimentos até então adormecidos, gerando imagens de um filme que nunca existiu, mas que poderia muito bem estar em cartaz naquele pequeno cine decadente do centro da cidade. Todo esse movimento de sobe e desce em meu plexo, provocado pela mente inerte – porém, prolífica – gera a energia que me aquece na noite de cama gelada e pés de picolé, assim como o esperado toque da sua letra em meus lábios, anunciado entre palavras não ditas. Imagino pétalas e lágrimas de água doce, sinto cheiro de madeira recém cortada, noz-moscada e melão, e quase sinto sua mão repousando sobre a minha. Quase posso ler seus pensamentos, mas não me permito entrar e nem quero entender todos os seus processos, nem perder o encanto se eu descobrir como se formou o seu algo a mais – pelo qual me encantei. Não, os pensamentos que já me revela por sua livre escolha nas entrelinhas são suficientes para me ensinar que o encantamento ocorre simplesmente porque nos reconhecemos, em nossas semelhanças e diferenças, como dois seres que desejam um amor de cinema, com direito a trilha sonora e um por do sol antes do anúncio do fim, um filme tão bom que não se quer parar de assistir, ou daqueles que, de tão favoritos, se assiste três vezes num dia só, e que a música dos créditos é cantarolada e que recebe uma salva de palmas todas as vezes em que as luzes da sala de projeção se acendem. E queremos tudo isso sem ensaios, sem teste de iluminação, sem roteiro e direção, a não ser dos protagonistas da madrugada em que não se dorme e que os sorrisos se multiplicam…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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O prenúncio

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BlurExisto, antes do prenúncio. Anuncio antes do fim o sentir de cada ponto, o que um dia eu fui. O que sou hoje é o retrato da mocidade que ainda existe em mim, persiste apesar do tempo inexorável.
Não me permito mais brincar com sentimentos, não tolero mais certas coisas, me afasto do que me faz mal. Já armei defesas contra ataques que nem existem, e com isso me fechei num paradoxo existencial que se iniciou com palavras, ou com a ausência delas.
Sou contraditória e prolixa – mas há quem goste. Ando por aí com a sensibilidade de uma pétala, minha mente viaja em bolhas de sabão, balões de gás sobrevoando a Capadócia – ou qualquer outro lugar distante e maravilhoso do mundo –  em sementes sopradas de um dente de leão, flutuando em jardins desconhecidos.
Aprecio quem sabe se deleitar com os pequenos gestos, os minúsculos momentos de alegria, tornando-os maiúsculos, por isso faço riso do meu choro, fotografo o vento e o brilho das sombras, e envio meu fôlego perdido por correspondência – há quem o receba.
Não perca seu tempo, me dizem constantemente. E se não sei o que fazer com ele, o meu tempo? E se eu já perdi tempo demais? Apenas ele, o próprio tempo, me dirá.
A catarse (des)necessária de palavras assegura a (in)sanidade mental, já que ninguém quer ser/estar na média, nem ser totalmente (a)normal, não é mesmo?
Prefiro escrever em linhas tortas a chegar num ponto sem final, e as interrogações são as flores na beira da estrada. Preciso andar mais, só que ando devagar porque já tive pressa, como diz aquela canção, e escolho palavras mesmo sem querer.
Quero que o medo vá embora e que as palavras me escolham. Quero sentir o que nunca senti, quero o acima da média, louco e surreal. Quero o sem sentido, o riso fácil, quero as reticências e muitas exclamações!
Sem ponto final(.)

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

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Palavras derramadas

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Palavras derramadas

me descreve tuas lágrimas
são azuis como teus faróis?
me deixa sentir seu gosto doce-amargo
ou salgado
me diz por quem elas insistem em cair
denuncia o gesto, o afeto
me mostra tua dor
tua cor

quanto pesa teu sorriso?
o meu já não se sustenta mais
incrédulo
sem razão, insiste e brota
não quer mais ir embora

me descreve as tuas mãos
são doces como teu olhar?
me deixa senti-las, o veludo da pele,
o cheiro genuinamente teu
e diz por quem se entrelaçam
denuncia o gesto, o afeto
me mostra teu amor

Ana

Texto e foto: Ana Letícia.

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Não sou imune

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Sabe, eu não estou imune às palavras. Elas são como agulhas perfurando retinas que não se cansam de ler, nem assim, cegas. As palavras  me dizem tanto ou não dizem nada, fico tonta, com a febre de não saber o que fazer.

Sabe, não estou imune ao olhar nos olhos. São como faróis luminescentes, ora reluzem o entorno, ora roubam a luz do que está por perto. Os olhos me encaram, brilhantes, depois correm tímidos para bem longe. Me desafiam a correr atrás, mas o que faço é igualmente me esconder.

Existe um raio-x de palavras? Quero ver o que trazem por dentro do esqueleto de entrelinhas, mergulhar no preto e branco de sua tinta e papel.

Existe vacina para o olhar nos olhos? Quem sabe, os olhos imunizados não se escondem e se deixam escorrer para o oceano de seus olhos de mel.

E então prometo não jogar o seu jogo de meias palavras ou palavras inteiras pela metade.

E então prometo esquecer a imunidade

E não fugir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia)

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O Buraco

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Quino

Contínuo esforço, esfarela como manteiga
Até certo ponto, em que trava tudo
No suspense, fui avisada
Insisti, e então…
Ele apareceu
Imóvel
Escancarado
Me encara
Me vigia
Como um olho onipresente
Em seu todo onipotente
Se empodera de mim
De minha mente
Me debulho em lágrimas
O mesmo que chuva na lagoa
Desequilibrando o ambiente
E o gato que se esconde
Em outro buraco
Enquanto nado em devaneios
Encontro uma boia
Um amuleto da sorte
A origem
O meio
Seria também o fim?

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
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Receitinha: Torta “Banoffee”¹

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Certa feita, 4 pessoas apaixonadas por comida gostosa se sentaram para conversar sobre… comida! O resultado, muitas receitas trocadas, novas amizades feitas e muita água na boca e ideias na cabeça!

Num recente encontro deste tipo fui apresentada por um amigo do Paraná para a Torta Banoffee – segundo a Wikipedia², o nome vem da junção das palavras banana + toffee. No exato momento em que ele me contou sobre a receita, fiquei interessadíssima em testar, pela sua facilidade e potencial para ser deliciosa!

Dito e feito. Levei a tal Banoffee Pie a uma festinha na casa de uma amiga e não sobrou nem migalha para contar história!

Dizem por aí que as coisas boas devem ser compartilhadas… Assim, segue a receita!

Banoffee_1Ingredientes:

– 1 pacote de 335g de biscoitos amanteigados (usei da marca Bauducco, mas podem ser facilmente substituídos por biscoito de maizena, biscoito “Maria”, e por aí vai);

– 3 colheres de sopa de manteiga derretida (usei a com sal, mas pode ser substituída pela manteiga sem sal);

– 500g de doce de leite;

– 5 ou 6 bananas nanicas (em MG chamamos de banana “caturra”) firmes e maduras;

– 500 g de creme de leite fresco;

– 2 colheres de sopa de açúcar. Banoffee_2 Modo de fazer:

Para a massa (base da torta), triture os biscoitos num processador (ou liquidificador) e, numa vasilha, despejar sobre a farinha de biscoitos a manteiga derretida. Amassar com os dedos até ficar com aspecto de farofa. Despeje a mistura na forma que irá utilizar (pode ser de aro removível, ou um refratário de louça ou vidro, ou até mesmo em taças individuais) e pressione a massa, forrando todo o fundo e os lados da forma. Levar ao forno quente por aproximadamente 7 minutos³.

Recheio:

1ª camada: Sobre a massa já fria, despeje o doce de leite, que pode ser feito em casa (leite condensado na panela de pressão).

2ª camada: Pique as bananas em rodelas, e cubra o doce de leite. banoffee_6 3ª camada: Chantilly. Para fazer o creme de leite fresco virar chantilly é muito simples, porém há algumas regrinhas a serem seguidas…

Primeira regra: o creme de leite tem que estar bem geladinho, assim como as espátulas e a tigela da batedeira. Sendo assim, cuide para que estes itens fiquem na geladeira ou congelador desde o início da montagem da torta. Dito isso, bata o creme de leite fresco e junte o açúcar aos poucos.

Aí vem a segunda regra do chantilly: não bata durante muito tempo, pois a mistura pode desandar e virar manteiga! O segredo é: quando formar picos firmes (parece claras em neve), desligue a batedeira imediatamente e o chantilly estará pronto!

–> Despeje o chantilly por cima da torta, ajeitando com uma espátula. Caso prefira, pode usar um saco de confeitar. Cubra toda a banana com o chantilly.

4ª camada (opcional): cacau em pó (ou chocolate em pó) polvilhado por cima, ou ainda, raspas de chocolate meio amargo salpicado, ou, se preferir, canela em pó.

Mantenha a torta na geladeira até o momento de servir.

banoffee_6Ana.

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¹ Também conhecida como Banoffee Pie, Torta Banoffee, Banoffi ou Banoff .

² http://en.wikipedia.org/wiki/Banoffee_pie

³ Fiz a receita duas vezes: da primeira, levei a massa ao forno, e da segunda, não. Em ambas ficou delicioso, porém o detalhe do forno faz com que a base fique mais firme. Entretanto, não é obrigatório, pois não altera no sabor final da receita.

Se for montar em taças individuais, sugiro que não leve ao forno a massa, a não ser que a forminha seja resistente a calor – neste caso, é possível que o tempo para assar seja diminuído. Portanto, não custa ficar de olho para não queimar!

*** Todas as imagens foram retiradas do Google, e se clicar nelas, serão redirecionados para os links originais. Não deu tempo de fotografar as minhas tortas, pessoal comeu antes! 🙂

 

Mudo de assunto

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Correnteza

Estou aqui
Teclando para as paredes
Enxergando nos detalhes
Inventando entrelinhas
Fantasiando na tela em branco
Sem romantismo piegas ou paixonite aguda.
O encantamento chegou e parou
No sabor inusitado
Na foto espontânea
No vídeo engraçado
A faísca no olhar
Os grânulos de felicidade
A mensagem visualizada.
Mudo de assunto
Não de conversa.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
*** Todos os direitos reservados ***

O outro

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O outro chega e me aconchega
Só quero afundar em seu peito
Acarinhar para sempre seus cabelos
Conversar até o infinito e além
Sentir seu abraço me derreter
Em um momento que antecede o beijo
Em que sua barba me espeta carinhosamente
E sua respiração coincide com meu descompasso.
E então sentir-me-ei entregue e indefesa
Aterrorizada pela impossibilidade
Do choque de realidade de não poder
E então me frustrarei
E me recolherei
Na dor de nunca ser.
Dois pássaros voando
Desejo de criar asas…

Pássaros

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
* Todos os direitos reservados *

Psycho

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FlorestaMe observa de longe
Sabe meus passos
Fujo, me escondo
Me preservo
(tento)
Me persegue
Planta interesse
Colhe atenção
Num só golpe me consome
Basta um gole de sua boca
Bebo fogo
Choque no toque
Encontro nas entranhas
Sou presa fácil
E de um minuto pro outro
Congela
Tudo vira cinzas
Me afaga e me afasta
Repetidamente
Palavras cruas
Cortam
Gestos afiados
Dissecam
Sabe de sua loucura
E ainda assim
Me confundo
Fujo, me escondo
(tento)
Expulso o pulso
Esvazio o peito
Até desaparecer.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

Espetáculo

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Sobrevivi aos saltos, joelhos roxos, ansiedade da estreia, aos olhares da plateia.
A dança me comove e me move, me mantém viva, me suspende no ar, segura o meu salto.
Flutuo sem direção, giro num dos pés, escolho meu ponto para fixar, calço as pontas, esqueço da dor, me cego com as luzes, fito a platéia – uma massa inerte que observa – procuro suas reações, prendo a respiração, e a dança vem e me mostra o chão, me traz para a realidade, me inspira, expiração, me domina.
Conto os tempos e compassos, ouço a música, e o sentimento de simplesmente estar toma conta, uma hora se transformasse em um minuto, e nada mais importa.
Ao soarem os aplausos, ao se acenderem as luzes, ao abrir os olhos, não há corpo cansado, apenas a noite, a maquiagem para tirar, alguma purpurina e sapatilhas usadas…
Encosto a fantasia de um lado, e num lapso volto à outra realidade de ser estar fazer…
O espetáculo acabou, mas a dança não saiu de mim.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
*Todos os direitos reservados.*