Depois…

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Bibi fonfon

Depois que tudo passa, muito tempo depois, restam as lembranças. Sendo elas boas ou más, apenas elas ficam. Não que queira mais que isso. Apenas elas já bastam. A água que passou debaixo da ponte não volta mais — e todo mundo sabe que água reaproveitada não é própria para o consumo humano.

Você se torna mais um número na agenda telefônica. Daqueles que você ainda não apagou pois um dia na vida, outro na morte, poderá precisar de alguma coisa, que nem você mesmo consegue imaginar o que poderia vir a ser. Devolver aquele livro do Dostoiévski, talvez, ou o DVD dos Rolling Stones. Ligar pra conversar, botar o papo em dia… nem pensar! Que papo? Não existe mais papo ou notícia pra contar, acabou o diálogo, acabou a vontade de dialogar. Ficou tudo artificial demais, chato demais, na mesmice demais.

Colecionar fatos, pessoas, lembranças, mentiras, sapos engolidos, momentos. É disso que é feita nossa vida. E é isso o que acontece, depois que tudo passa. Mais um item na coleção de coisas passadas.

Você se torna mais um álbum de fotografias guardado no alto do armário, junto com todos os outros. No caso dos mais moderninhos, aos quais fotos impressas estão obsoletas, você vira uma imagem .jpeg gravada em CD’s e DVD’s de fotos esquecidos na estante, arquivos digitais que lotam as memórias dos chips das máquinas que já não são mais usadas, em pastas de computador que não são mais clicadas, abertas, expostas, lembradas. Você vira Um mero endereço de e-mail, ao qual mensagens de humor ou reflexão são enviadas — isso quando não se trata de arquivos horrendos e piadas encaminhadas de péssimo gosto, apresentações bregas de powerpoint, dessas que você nem manda executar, manda pra lixeira direto.

Mas te esqueceram de contar que depois que tudo passa, muito tempo depois, resta você. Resta a sua vida inteira pela frente. E isso já é coisa demais. E ponto final.

Ana.

(texto e foto)
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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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