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Voltando…

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Flor e luz

Então voltei à caneta e caderno.
Tenho pensado o porquê de, ultimamente, estar resistindo tanto a isto. Escrever.
À mão livre. Com a tinta escorrendo pensamentos no papel branco. Coloco desculpas na falta de tempo. No trabalho. Na rotina. No sono. No vinho.
Mas a verdade é a dor. Não é nada grave. Não é nada crônico.
Mas é física essa dor.
Acho que é a dor de ter as palavras e sentimentos hermeticamente calculados entre margens, logotipos, páginas numeradas e pareceres esteticamente organizados, assim como os pensamentos juridicamente treinados.
A dor é de tanto digitar. Enquanto uma mão digita, a escrita sofre, destreinada que só ela.
A letra, antes redonda, agora se acostumou obtusa, angulosa e desleixada, só sabe rubricar páginas e assinar em linhas tênues e contínuas, acima de meu nome.
Que coisa louca é essa tal de tecnologia, que nos liberta e aprisiona, tudo ao mesmo tempo. São tantos interesses, passatempos, jogos, vídeos, que, de tão variados, se tornam dependentes de nós mesmos, de nosso tempo, da nossa boa vontade.
Que rede social é essa, em que todos se apresentam felizes?
Prefiro o contato social, fazer o social, ser social.
As socialites que me perdoem, mas não é delas que estou falando.
As socialistas que me perdoem, mas beleza é fundamental. (E o socialismo já acabou, não é mesmo?)
E, de tanto escrever assim, agora, caneta no papel, tinta e pensamento, lá vem ela. A dor. Que me fatiga os dedos e músculos das falanges da mão destra.
Enfim me despeço, entre rabiscos quase ilegíveis.
Preciso digitar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Cartas achadas

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Entro em casa e parece não haver ninguém. Somente um espectro daquilo que era antes de irmos embora. Alguns cheiros, agora vazios, faziam imagens vivas de quem se fora.

Arrumo e desarrumo as malas, as roupas, meio sem saber por onde começar. Alguns papéis espalhados pela mesa, contas pagas, notas fiscais, cupons velhos que descontavam alguns centavos de compras que jamais seriam feitas.

Livros – ah, sempre eles! – fora da estante. Pelo menos uns três andaram passeando por outras bandas. Folheados, marcados, e agora, esquecidos. Minha caneta preta repousava em cima do jogo americano da mesa de jantar. Ensaiara notas musicais e outros desenhos num bloco mais ao lado. E pra lá deste, folhas soltas com sua letra me encararam.

Peguei as palavras, de supetão, coração disparado e as folhas nas mãos, estaria ele aqui ainda? Me senti estranha ao ler palavras escritas que não eram pra mim. Mas não eram pra ninguém, a não ser pra ele mesmo, o escritor que aqui sentava, antes de irmos embora.

Pareciam cartas jogadas, achadas, marcadas, um diário solto, que não tinha continuidade, mas que contava emoções e sentimentos, sonhos das noites anteriores, nada mais.

Mas este nada é muito mais que um simples nada. E somente eu seria capaz de entender as palavras, a começar pela letra, que pareço conhecer desde sempre. Somente eu saberia que, quando ele escreve, é porque está bem.

Então meu coração se acalma, e outras lembranças chegam. Lembranças de um tempo em que eu mesma escrevia e esperava cartas chegarem pelo correio.

E elas demoravam, mas chegavam. E eram pra mim.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

E quando…

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Vida que nasce das pedras. #tiradentes #mg

E quando tudo parece perdido, e a noite demora a lembrar?

E quando as coisas mudam, as pessoas mudam, e você não quer mudar?

E quando o céu já está claro e você, pensando que é noite, fotografa a Lua? Mira o infinito? Joga pedra na ilusão?

Paga o pato, enterra o cão.

São caminhos pontudos de ladrilhos e ladeiras, cadeiras desossadas de manhãs sem sorrisos. Os dentes, pendentes, esboçam sorrisos roucos, poucos, assistindo estáticos às estátuas perambulantes.

Não levam espaços, levam barcos a vela, pavios e sonhos. Levam ondas de um mar que não existe, para um lugar que não há.

Mas me calo, espero passar. Prefiro a tolice à desilusão.

Teimosia é me entregar ao chão.

Uma pirueta e lá vou eu. Atrás do trio, elétrico, só vai quem já viveu.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

O mineiro e o filme

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Era uma vez, um mineiro com sua esposa e sua filha na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Chegaram cansados da viagem que durou 3h30min, da capital até a pequena cidade onde acontecia o festival. Após alguns passeios andando pelas vielas de chão de pé-de-moleque, resolvem entrar na tenda principal, onde um longa metragem era exibido.

O filme já tinha começado há alguns minutos, mas o segurança não deixava viv’alma entrar na sala de cinema. Estranho! – falou o mineiro – em qualquer outro cinema do mundo a gente pode entrar na sala depois que o filme começou!, insistia com o segurança.

O moço, um tanto truculento, retrucou que cumpria ordens, que o mineiro havia chegado atrasado, não podia liberar a entrada.

O mineiro ficou furioso! Saiu para dar uma volta pela tenda para esfriar a cabeça com a esposa e a filha. Até que, não mais que de repente, apertou o passo e entrou escondido pela porta de saída do cinema. A filha e a esposa pararam estupefatas, observando a cena.

Então surge o segurança, que corre atrás do mineiro, que já tinha entrado por trás do pano preto. As outras pessoas que observavam do lado de fora se surpreendem com a cena pitoresca, algumas riem da atitude do mineiro, outras aplaudem, todas comentando entre si. Muitos também estavam indignadas com a proibição sem razão de ser e com a má educação do segurança. (Provavelmente, invejavam a atitude do senhor mineiro quebrando as regras, o único com iniciativa!)

Segundos depois, reaparecem do meio da cortina preta, lado a lado. Mineiro e segurança. Aquele discutindo e gesticulando. Este respondendo que “outro dia mesmo, um diretor de cinema foi barrado durante a exibição do próprio filme, pois tinha chegado minutos depois da hora marcada”.

Alguns poucos minutos depois, a diretora do filme, que ficara sabendo do ocorrido, manda liberar a entrada para os que quisessem – havia cadeiras vazias sobrando lá dentro do cinema, ora! Várias pessoas entraram, pela porta da frente, com ar de – Venci!, quando se viravam para o segurança.

A esposa do mineiro dormiu nos primeiros 2 minutos após terem se sentado no escurinho do cinema. Acontece que o filme era um tanto experimental, abusava de cenas escatológicas e tinha uma história meio sem pé nem cabeça, sombria, soturna.

O mineiro e sua filha, enojados, acordaram a esposa-mãe e, dito isso, não demoraram nem 10 minutos lá dentro. Ao saírem, dão de frente com o segurança, que os olhava torcendo o nariz e resmungando por dentro.

Um filme, muitas risadas, uma carranca. E mais uma história pra contar.

(A 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi um sucesso, com muitos filmes – longas, curtas, de ficção e documentários – produzidos no Brasil de excelente qualidade. O mineiro já foi em quase todas as edições, voltará ano que vem, e recomenda o passeio!)

Ana.

(Texto e fotos: Ana Letícia.)

Poeira em alto mar

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Era um típico sábado de verão. Dia lindo, nenhuma nuvem no céu, sol escaldante, piscina, churrasco, cerveja gelada, rock n’ roll nos ouvidos e muita conversa boa.

Ao percebermos que o carvão e a cerveja estavam chegando ao fim, apelamos para o “disque-birita”, segundo ele, a melhor invenção da humanidade depois do youtube. (Para mim, quem ganha é o google. Mas, foquemo-nos.)

Campainha tocando é sinônimo de cachorros latindo, ou seja, mais um carregamento da dita cuja sendo entregue pelo motoqueiro, o qual nem ousa desembarcar propriamente em razão de canelas calejadas das investidas frenéticas dos cachorrinhos de guarda e companhia. Estes, nos protegem de tudo – talvez até de nós mesmos, ao tentarem impedir a entrega dos comes e bebes (mais bebes que comes, em verdade).

Meu namorado me grita de lá: – Rápido! Segure a Miúda! – referindo-se à pequena fox com síndrome de pit-bull.

Eu, um pouco relutante – pois usava trajes de banho – e pensando que o escândalo canino era simplesmente em razão do pobre do motoboy encarregado das cervejas, como já era costume da pequena Miúda e dos demais cachorros da casa, me dirigi ao local lentamente, porém curiosa. Foi então que avistei meu namorado, imóvel junto à porta, carregando não só as cervejas e o carvão, mas também uma montanha de 1 metro de roupas empacotadas.

Pensei, por um instante, que fossem trouxas limpas da lavanderia ou algo do tipo, mas tudo aquilo não me fazia qualquer sentido pois sua mãe havia colocado roupas na máquina para lavar naquele mesmo dia, pela manhã. Ao mesmo tempo, alcancei Miúda debaixo de uma mesa baixa, e a prendi no colo: – O que é isso? – apontei para o embrulho.

Meu namorado, com olhos faiscando de satisfação, com aquele monte de roupa de inverno nos braços, responde, em tom de voz baixo, como que em segredo: – É um gajo português aí na porta, vendendo jaquetas de couro!

Até eu entender que, de fato, se tratava de um vendedor de roupas, cuja nacionalidade era portuguesa, demorou mais que um instante pois, até então, meu raciocínio lentificado pelo sol do meio-dia não conseguia fazer a associação CALOR + CERVEJA + PISCINA + VERÃO NO HEMISFÉRIO SUL com a equação JAQUETA + COURO + PORTUGUÊS + INVERNO. Sendo assim, pelo bem da típica piadinha de brasileiros x portugueses (colônia x colonizadores, e por aí vai), pensei que só poderia mesmo ser um “português” querendo vender tal tipo de vestimenta no alto verão fluminense.

Mas eis que o sujeito desconhecido entra na casa e me cumprimenta, carregando no típico sotaque d’além mar. E só então pude perceber a razão da felicidade do meu namorado. Esta não residia nas ditas jaquetas de couro de antílope (como jurou o patrício), mas sim na rara possibilidade de um conto ou crônica baterem – literalmente – a campainha de sua porta.

Garanto que o português não saiu de lá muito feliz, afinal de contas, nem mesmo abaixando o preço de absurdos R$ 1.700,00, para não módicos R$ 150,00, ele conseguiu a venda.

Mas sua presença, além deste texto, nos rendeu boas risadas após a porta se fechar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Saudosismo…

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Da Dor de se Amar Demais
(Texto publicado originalmente aos 22.10.2007.)

Poderia me abstrair de tudo e dizer, e acreditar, simplesmente, que me basta um amor tolo, como o tempo de duração do filamento de uma lâmpada comum, tácito, plácido, de desejo, pura e simples, explícito em tons pastéis, lânguido e preguiçoso. Não, não posso. Não sou assim.

Não costumo economizar. Há de sobra empolgação, falta de noção. Sou moça de horas, de dias, de anos, anos-luz. Mulher da dor de se amar demais e de se entregar, de ser perfeccionista com tudo o que faço e sinto.

Não há nada pela metade. Meias-palavras, meia foda, meia-calça. Meia-luz, pode até ser. Mas nem 8, nem 80. Ou é ZERO, ou é CEM. E vou de 1 segundo a 1000 km/h (e vice-versa) de olhos fechados, na fração de um momento, na feição, na emoção, no olhar, na letra, na ponta dos pés, no pingo do i. E é aí que mora o perigo!

E de tanto querer, há tanto sofrer. Tanta responsabilidade, tanta dor. E há tanto prazer… E há o lembrar, e há o sentir, e há o cheirar, e há o gostar. Pois não há amor sem gosto, lembrança sem cheiro, música sem gozo.

E depois daquele beijo, há a quebra. Há o limite ultrapassado, e tudo se torna tão bom quanto uma fotografia perfeita, a luz que aquece e ilumina seus loiros pelos, como num quadro de um filme, como um filamento de ouro deliberadamente largado, esquecido, sobre suas vestes… E tudo fica tão engraçado quanto numa comédia de palhaços tristes, tão natural quanto deitar na relva e sentir o cheiro da chuva, acariciar seu cão, dormir abraçadinho, mesmo quando não se está com sono, comer banana com queijo e lamber o fundo do prato até não sobrar um resquício de amor sequer.

Ana.

Texto e Foto: Ipê Amarelo: by Ana Letícia.

As melhores surpresas

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17:30h, no ponto de ônibus. Line sai do trabalho aliviada por não ter ficado nem um minuto a mais, e posta-se a esperar o Circular 01 – Contorno, para voltar para casa. Posta-se de costas pro passeio, de pé, olhando em direção ao outro lado da rua, onde pessoas pedalam bicicletas sem sair do lugar, dentro de uma sala fechada com luzes de boate: spinning in door, na Academia Corpo em Forma. Pensa rapidamente que está cansada demais de tudo pra aguentar uma ginástica destas após o trabalho.

Tato chega com sua mochila. Encabulado e exausto, toca no ombro de Line e sorri com os olhos.

Line se vira assustada, e se espanta mais ainda ao ver Tato bem ali na sua frente. O abraça imediatamente, dando-lhe um beijo estalado no pescoço, próximo à orelha. Sente seu cheiro, escondido atrás dela, próximo do cacho de seus cabelos castanhos: shampoo de camomila, sabonete neutro, cravo, canela, homem. Os mesmos cheiros que ela sentira em seus livros, seu quarto, suas cartas. Ela se lembrava…

As bochechas rosadas dele não a deixavam enganar, corado de timidez e felicidade, tudo ao mesmo tempo. Trazia ainda um envelope murcho em sua mão molhada de suor, ansiedade que ele tentava disfarçar.

Estende a mão com o envelope em direção a ela, ainda encabulado, fitando o chão.

Line procura seus olhos e toma o envelope. Ele levanta a cabeça e a encara, respirando fundo. Com a outra mão, ela segura a mão livre dele, gelada. O abraça novamente, emocionada. Carinhosamente, ele toca seus lábios num beijo doce e leve. Ela sempre adorou o jeito meio sem jeito que ele a beijava quando não sabia o que fazer.

Ela abre o envelope, endereçado a ela. Dentro, um pequeno bilhete. Os dois se olham e sorriem.

Ela finalmente retira o bilhete de dentro do envelope, dobrado ao meio, o abre e então vê a foto dos dois, do último encontro, impressa em branco e preto. Embaixo, a letra dele, cuidadosamente grafada com caneta de tinta preta:

AS MELHORES SURPRESAS SÃO AS QUE VÊM DO CORAÇÃO.

Ana.

* Texto publicado originariamente em 27/07/2007.

Na Espera

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Na espera

Calor na alma
Calor seco
Ventila calor
Ventila dor
Cadê o vento?
Se foi.
Casou com o sol
E nem me olha mais.
Apago as luzes pra ver se ele vem,
Mas o calor continua
Calo na alma
Calor na calma
E a cama me chama:
Vem dormir!?
Sonhar com o vento,
Com a chuva que não vem…
Vem cair na grama
Sem grana
Sem sentir e sem descansar
Cansada do ranso
Do banzo
Do banjo a tocar
Me jogo n’água
Tiro a anágua debaixo da saia
E me abano com palha
Até o fogo pegar.

Ana.

 

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Poesia em você

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Kibe poético

Não precisa ser poeta
Para ver poesia em gente, coisa, passarinho, avião…
Traduzir em palavras o sentir
O pensar
O gostar
É simples!
É só não se deixar constranger
É deixar fluir
Pensamentos que vêm e vão
Um mar de letras
O vai e vem da rede
Sentindo a brisa que vem de ti…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Segundas Impressões

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Ontem eu vi um eremita carregando sua casa nas costas.
Andava cambaleante, claudicando rua afora.
Justo onde não se vê pobreza (marginalizada, afastada e excluída do plano).
Um avião que se pilota em duas torres e dois pratos, de onde se ignora os que estão aos seus pés.
É logo ali, onde a cidade dorme, no buraco do tatu, que se escondem pedras, fumos, ternos e mendigos.
Sujos, lutam por mais um pouco de vício que os sustentam no ar e levam para outros caminhos.
A viagem dura pouco, é barata, é imunda.
E o eremita a tatear, procurando o chão e um lugar para cair e se esticar.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.