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Palavras derramadas

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Palavras derramadas

me descreve tuas lágrimas
são azuis como teus faróis?
me deixa sentir seu gosto doce-amargo
ou salgado
me diz por quem elas insistem em cair
denuncia o gesto, o afeto
me mostra tua dor
tua cor

quanto pesa teu sorriso?
o meu já não se sustenta mais
incrédulo
sem razão, insiste e brota
não quer mais ir embora

me descreve as tuas mãos
são doces como teu olhar?
me deixa senti-las, o veludo da pele,
o cheiro genuinamente teu
e diz por quem se entrelaçam
denuncia o gesto, o afeto
me mostra teu amor

Ana

Texto e foto: Ana Letícia.

** Todos os direitos reservados. **

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Não sou imune

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Sabe, eu não estou imune às palavras. Elas são como agulhas perfurando retinas que não se cansam de ler, nem assim, cegas. As palavras  me dizem tanto ou não dizem nada, fico tonta, com a febre de não saber o que fazer.

Sabe, não estou imune ao olhar nos olhos. São como faróis luminescentes, ora reluzem o entorno, ora roubam a luz do que está por perto. Os olhos me encaram, brilhantes, depois correm tímidos para bem longe. Me desafiam a correr atrás, mas o que faço é igualmente me esconder.

Existe um raio-x de palavras? Quero ver o que trazem por dentro do esqueleto de entrelinhas, mergulhar no preto e branco de sua tinta e papel.

Existe vacina para o olhar nos olhos? Quem sabe, os olhos imunizados não se escondem e se deixam escorrer para o oceano de seus olhos de mel.

E então prometo não jogar o seu jogo de meias palavras ou palavras inteiras pela metade.

E então prometo esquecer a imunidade

E não fugir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia)

** Todos os direitos reservados **

O Buraco

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Quino

Contínuo esforço, esfarela como manteiga
Até certo ponto, em que trava tudo
No suspense, fui avisada
Insisti, e então…
Ele apareceu
Imóvel
Escancarado
Me encara
Me vigia
Como um olho onipresente
Em seu todo onipotente
Se empodera de mim
De minha mente
Me debulho em lágrimas
O mesmo que chuva na lagoa
Desequilibrando o ambiente
E o gato que se esconde
Em outro buraco
Enquanto nado em devaneios
Encontro uma boia
Um amuleto da sorte
A origem
O meio
Seria também o fim?

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
*** Todos os direitos reservados ***

Mudo de assunto

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Correnteza

Estou aqui
Teclando para as paredes
Enxergando nos detalhes
Inventando entrelinhas
Fantasiando na tela em branco
Sem romantismo piegas ou paixonite aguda.
O encantamento chegou e parou
No sabor inusitado
Na foto espontânea
No vídeo engraçado
A faísca no olhar
Os grânulos de felicidade
A mensagem visualizada.
Mudo de assunto
Não de conversa.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
*** Todos os direitos reservados ***

O outro

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O outro chega e me aconchega
Só quero afundar em seu peito
Acarinhar para sempre seus cabelos
Conversar até o infinito e além
Sentir seu abraço me derreter
Em um momento que antecede o beijo
Em que sua barba me espeta carinhosamente
E sua respiração coincide com meu descompasso.
E então sentir-me-ei entregue e indefesa
Aterrorizada pela impossibilidade
Do choque de realidade de não poder
E então me frustrarei
E me recolherei
Na dor de nunca ser.
Dois pássaros voando
Desejo de criar asas…

Pássaros

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
* Todos os direitos reservados *

Psycho

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FlorestaMe observa de longe
Sabe meus passos
Fujo, me escondo
Me preservo
(tento)
Me persegue
Planta interesse
Colhe atenção
Num só golpe me consome
Basta um gole de sua boca
Bebo fogo
Choque no toque
Encontro nas entranhas
Sou presa fácil
E de um minuto pro outro
Congela
Tudo vira cinzas
Me afaga e me afasta
Repetidamente
Palavras cruas
Cortam
Gestos afiados
Dissecam
Sabe de sua loucura
E ainda assim
Me confundo
Fujo, me escondo
(tento)
Expulso o pulso
Esvazio o peito
Até desaparecer.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

Defesa

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tempestade
Não, eu não gosto mais de você.
Fui dormir em uma noite qualquer pensando sobre a gente… Quando acordei no dia seguinte, a magia tinha se acabado, simples assim.
A princípio fiquei atônita, procurando aquelas borboletas com as quais aprendi a conviver, tentando entender o porquê de eu não sentir mais o que sentia na noite anterior.
Mas aí, simplesmente, cansei. Cansei de procurar, de tentar entender. E foi aí que eu entendi: cansei de promessas vazias de pés juntos e dedos cruzados. E quanto mais entendi, mais atônita e cansada fiquei.
Não, eu não me canso facilmente. Mas meu coração cansa. Ele é calejado, e não aceita ser quebrado mais de… Duas vezes. Na terceira, ele vira pedra oca, não chora mais.
Apesar do vazio e da aparente insensibilidade, me comovo com algumas notícias suas, me revolto com outras. Às vezes sinto vontade de te ligar, conversar. Depois passa… E como passa rápido!
Não vou mentir para mim mesma que não sinto um arrepio bom quando ouço sua voz. Que meu coração não dispara quando você dá algum sinal de vida. Que vejo sua foto e não me imagino ao seu lado. Que não queria, agora, sentir seus cabelos entre meus dedos, sua barba no meu rosto.
E mesmo com essa nostalgia toda, eu digo não.
Eu não gosto mais de você.
Em minha defesa, exorcizo o resto de você, que ficou em mim, nessas linhas. Exercito minha auto análise, e me declaro, definitivamente, livre.
Ou não.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

A ladeira

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"Mandacaru quando fulora na seca..."  #mandacaru #flor

E daí se eu penso que tudo que escreves é para mim?
Se falo coisas sem sentido
– Ou com sentido só para mim
E você se ofende
Falo minhas verdades pois não as consigo segurar
Têm vida própria
Irremediáveis
E então me surpreendo com as palavras
Os poemas
Que outro destinatário têm
E que efeito sua voz provoca
Ressoa em minha mente
E se transforma em calafrios bons pelo corpo
E lembro do beijo
Da ladeira
Daquela tarde
E quero tudo de novo
Num misto de culpa, curiosidade e saudade
E então acha graça da minha falta de jeito
Da minha falsa timidez
Ou será que acredita que sou tão ingênua assim?
Não sei o que vai ser de mim
De nós
Dele
Da voz
Do amor
Do menino que vive em seus olhos
Do fim.

Ana.

(Texto e fotoAna Letícia.)

Borboleta e metal

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Ainda sinto seu abraço
E seu corpo no meu
Ainda sinto seu beijo
Tímido
E seu rosto limpo
De sabonete de mel
Saboreio sua voz
Vida em seu canto
Música de borboleta e metal
Desço do salto
E nas pontas dos pés
Danço em seus braços
E então sorriso nos olhos
Contidos
E no canto da boca
nasce
Um poema.

Ana.

Joia

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Brilho

Queria
Mesmo que por um segundo apenas
Capturar a luz dos seus olhos
me fitando
Queria guardar essa luz
numa caixinha
Fazer uma joia
com este brilho
dessas preciosidades que não me canso
de apreciar
e que nem é preciso
usar
Pois só de observar
Já me faz
sorrir.

Queria
Me afogar em teus braços
Afundar no teu colo
Sem fantasias
Sem medos
Sem sinais a nos observar
Sem sobressaltos
Segredos
Trazer este sorriso só pra mim
E ser feliz.

Queria…
Quero.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)