Arquivo da tag: desabafo

Segundas Impressões

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Ontem eu vi um eremita carregando sua casa nas costas.
Andava cambaleante, claudicando rua afora.
Justo onde não se vê pobreza (marginalizada, afastada e excluída do plano).
Um avião que se pilota em duas torres e dois pratos, de onde se ignora os que estão aos seus pés.
É logo ali, onde a cidade dorme, no buraco do tatu, que se escondem pedras, fumos, ternos e mendigos.
Sujos, lutam por mais um pouco de vício que os sustentam no ar e levam para outros caminhos.
A viagem dura pouco, é barata, é imunda.
E o eremita a tatear, procurando o chão e um lugar para cair e se esticar.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

Primeiras Impressões

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Poltrona 24 A - Vôo 6681 Webjet

Vôo levemente atrasado, encontro amigo na sala de embarque. Wi-fi não funciona e os altos falantes anunciam a todo momento em português e inglês macarrônico. Passageiros que devem embarcar.

Poltrona do meio, vizinhos sonolentos. Bebê chorando ao lado e, no banco de trás, um garoto de 9 ou 10 anos não para quieto um só minuto.

Velocidade: 800 km/h, altura de vôo cruzeiro. Fecho os olhos para cochilar, mas o garoto do banco de trás não me permite ter este luxo.

Revista superficial, lanche mixuruco. Duas horas depois, avisto quadras e ruas planejadas ao longe, avenidas largas e o Lago Paranoá.

Pouso suave, terra firme, cabeça longe…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Melô do Fim de Ano

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Melô do Fim de Ano
Pois assim têm sido meus últimos dias do ano…

RODA VIVA
(Chico Buarque)

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino prá lá

Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente até não poder resistir
Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva e carrega a roseira prá lá

A roda da saia, a mulata, não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata, a roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa, viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva e carrega a viola prá lá

O samba, a viola, a roseira, um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa, faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva e carrega a saudade prá lá…

***
Até mais ler.
(Semana que vem.)

Ana.

(Foto: Ana Letícia. Letra: Chico Buarque de Hollanda.)

Caridade ou Maldade? Manifesto contra os falsos bazares e liquidações

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R. Mutt

Era plena 4ª feira, chuvinha ameaçando cair na capital dos mineiros. Mesmo traumatizada com o banho frio involuntário do dia anterior, que me pegou desprovida de sombrinha, resolvi conferir o bazar de uma grife famosa na sua loja do Bairro de Lourdes. Este foi o primeiro dia do bazar, que terminou no dia seguinte, tendo sido anunciado em blogs de moda e twitter da marca como “oportunidade incrível” de se comprar peças de coleções anteriores com 70% de desconto, e ainda beneficiar uma instituição de caridade.

Até aí, tudo muito bom, tudo muito bem. Almocei mais cedo que o normal e fui com mais duas amigas. Chegando lá, nenhuma placa na porta da loja, nenhum “boa tarde, sejam bem vindas”, apenas uma vendedora, que nos percebeu meio perdidas no meio da linda e colorida coleção primavera verão 2009/2010, e disse meio debochadamente que o bazar era no andar de cima, sem maiores explicações, direcionamento, simpatia, nada. E se estivéssemos lá pela coleção nova? Mas… Continuemos a história.

A construção onde fica a loja é belíssima – uma casa dos anos 50 toda reformada, clean, em tons de branco, bege, e madeira de cor clara, contrastando com vidro e um lindo jardim de inverno. Seguindo a indicação da vendedora, subimos a escadaria e nos deparamos com uma saleta pequena e escura com 3 araras abarrotadas, muita roupa embolada jogada no chão e clientes revirando tudo. Até aí, nada tão estranho para um bazar.

O anormal mesmo eram os preços NADA amigos, mesmo com o álibi de doar para a caridade e os 70% de desconto, que só eram dados após cálculos feitos na única calculadora, dividida entre quase 50 clientes. Casacos e macacões de cores horrendas e tecido idem (um linho que, em razão da cor escura e desbotada ao mesmo tempo, mais parecia um pano de chão sujo), tamanhos enormes e desproporcionais, amarrotados, da coleção de 1900 e lá vai pedrada, pela “bagatela” de 1700 reais. Menos 70% disso dá o quê? 510 reais! Não do meu bolso.

Falando nisso, a única bolsa a venda no bazar era de TECIDO, saindo por mais ou menos 500 reais (com o desconto) – preço de uma boa bolsa de COURO na Equipage ou Arezzo, por exemplo. Chapéu de feltro de 380 por 120 reais. Na Zara tem chapéus também lindos e estilosos por 70 reais, em média. Estola de PELÚCIA de 1600 por 480 reais!? Na Renner tem por 69,90! Nem comento os sapatos tamanho 42. Oi?

Pensam que é só isso? Para completar a situação, além de não ter provadores individuais, não era permitido utilizar os do andar de baixo, então num corredorzinho mais ou menos escondido as moças vestiam e desvestiam essas “maravilhas” do último século (literalmente). Uma de minhas amigas comentou que parecia que os preços tinham sido majorados a níveis absurdos nas etiquetas, tudo para você se impressionar com os tais 70% de desconto, e depois, é claro, tomar aquele susto com o preço real – que ainda continuava nada justo por aquela peça démodé. Para falar a verdade, os mesmos preços que seriam pagos na loja sem liquidação, com todo o conforto, por uma peça da estação.

A falta de acessibilidade para deficientes físicos também me chamou a atenção. Tem escada pra entrar na loja, degraus para distinguir níveis no primeiro andar, e escadaria até o segundo andar. Nada de elevador ou rampas de acesso. Durante o tempo em que estive lá, havia uma cliente de cadeira de rodas que teve de contar com a ajuda dos 2 seguranças da loja para poder entrar, subir até o bazar, descer pra ir embora, etc. No mínimo, constrangedor.

Juro que vi um vestido laranja de seda, da coleção de verão 2008/2009, que na liquidação da loja do Shopping no meio do ano (na qual sobre os preços normais é aplicado um desconto de 50%) estava mais barato que neste tal bazar beneficente. Bonito o vestido? Sim. Mas ainda assim, caro. E só tinha um vestido de resto, sem opção de cores e tamanhos. Preferível comprar na liquidação do Shopping, não?

Caridade de verdade é alguém ter a coragem de comprar roupas feias como as que vimos lá no bazar; caridade da cliente para com a grife, claro. Roupa antiga se compra em brechó – e bem mais barata, diga-se de passagem.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
Revisão e testemunha ocular: Izabela Baptista e Renata Viana.

Cimento cozido

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Solzinho

O silêncio cega, mutila minhas mãos.
Aleijada, sigo no pasto: comer, dormir, acordar, trabalhar.
O ritmo da cidade engole e cospe sangue e fezes
No mesmo prato
Digere ratos, tritura fracos.
Oprimida, sigo por entre os que oprimo
Odiada pelos que odeio
Destemida, despudorada.
No mundo que não é de marshmellow
O chão fofo cede lugar ao cimento duro e cozido
Não há nuvens suficientes
O calor derreteu
Não há ácido suficiente
A pele descamou, o cérebro dissolveu
E o menino atravessa a rua de mãos dadas com o acaso
Desnudo, desnutrido, desavisado.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Tinta Preta

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Porto Seguro, Bahia 173

Tantas palavras corrrem e a tinta escorre no tubo que roça com a língua entre linhas espaçadas de um caderno só. Afinal, é apenas um caderno, é apenas uma vida, uma caneta em sobrevida, que nem marca se vê mais. Se bem que diferença alguma iria fazer, já que a língua japonesa ou oriental que seja, dos confins de onde se originou meu artefato de escriba, não é coisa com a qual eu tenha intimidade.

E no interior de um quarto semi-escuro, a mão quase treme e teima em tecer porcas e pobres e desconexas letras, num desafio ortográfico para grafologista nenhum por defeito… O ponto vira traço, um pingo vira letra ilegível, não sei mais se é acento ou rasura.

Rabisco uma vírgula que nem pausa é mais.
Vira um ponto num ponto qualquer de aterrissagem da ponta fina de onde mina minha tinta.
Preta.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Terapia do Papel

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O menino aprendeu a usar as palavras.

A terapia do papel continua, uma saga que não terá fim, ao menos não enquanto me restar tinta e caderno, ainda que não disponha de uma “Montblanc” ou sequer de um “Moleskine” (ambos virtuosos iniciados em “mo”!?).

Ando cheia da unha que cresce, obrigando o esmalte a ser substituído precocemente.
Ando cheia do porteiro azul e da cobra com gestos de bebê chorão. A mim não enganam, não perderei a razão.
Ando cheia das consultas e do soar do telefone, do aparelho ortodônitico e da gordura localizada.
Quero cuidar de patas quebradas, do amor que resiste.
Quero descansar à base de água de côco, sol, sal e mar.

Mas… Ainda estou aqui;
Ciao, vou ao bar.

Ana.

(Texto: Ana Letícia)
Foto de uma página da seção FOCO da Revista Caras, 2008.

Arrebatador (*)

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Sem cabeça
(*) Texto original publicado aos 14.06.2007.


Vou parar de fingir que não estou nem aí. Vou parar de fazer ironias e dizer coisas sem sentido, e nunca falar o que eu quero de verdade. Vou parar de fingir que estou tranquila no meu canto e que não penso em você a todo instante.

Vou parar de fingir que não quero falar com você todos os dias e parar de fazer o tipo “ocupada todo o tempo”. Não mais fingirei que não fico todos os dias te esperando dar um sinal de vida, tomar mais uma pílula que seja de sua atenção.

Não vou mais fingir que não me decepciono, que toda a minha agressividade, ironia e sarcasmo não são em decorrência de faltas e atitudes.

Não falarei mais com você sobre coisas não corriqueiras, mas sobre como foi o meu dia, perguntarei como foi o seu, admitirei que faço planos, sonho, penso e programo um monte de coisas, erro, grito, xingo, faço xixi e tremo choro quando estou com raiva.

Vou parar de fingir que não me lembro do seu toque, da sua voz. Vou parar de fingir que não me apaixonei por você.

Quero ouvir todas as suas letras, não só as entrelinhas. Quero parar de decifrar símbolos, palavras, reações. Quero simplesmente ouvir que me quer e nada mais. Simples assim.

Vou te falar uma só coisa: esta não é só mais uma historinha de amor, dessas que a gente menciona pros amigos, filhos e netos, um caso, uma aventura, algo que morreu por aí.

Vou parar de enrolar e dizer de uma só vez: eu quero que seja arrebatador.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Os dentes e os trapos

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A terra é redonda

O dia passa lentamente, as horas escoam pelos cantos da mesa, já nem sei onde estou. Minhas palavras, que não são poucas, mal são ouvidas, balbuciadas por mim nas horas de torpor. Em meio a tanta gente, vejo você em seu olhar leonino, penetrando entranhas e sugando minha carne com a ferocidade de um gatinho assustado querendo se aconchegar.

Do outro lado da rua, um pomar de águas-vivas sobrevive à sequidão sentimental, que atualmente cisma em jogar dardos com seu parceiro noturno, animador de festas, passatempo de andarilhos e agente inebriante de algumas mentes que se esqueceram de um dia brilhar. E, ao cruzar contigo, me deixo invadir pela onda de seus fartos cabelos. Submersa em meias palavras, curo a ressaca do dia que se tornou noite, após longos caminhos de fumaça vermelha e vapor de poeira estelar. Ignoro o veneno que me queima a pele, causado por viva água, bela e suculenta, fingindo gostar de sofrer, de rolar em chão de espinhos gelatinosos.

Uma missão cumprida na sujeira azul de um planeta chamado Eu, varrendo pensamentos e espantando carniceiros. Roubam a vida das águas, lhes retiram o sal. Sem suor, sem lágrimas, corro a seu encalço, lhe prendo as vestes sob postes e luares e tasco um belo de um beijo que nunca se esquecerá.

O mundo some e o dia acaba, esquecemos de tudo e falamos de um nada tão distante que nem sabemos da dor que se fez riso. Do branco do seu dente cariado ou do redemoinho que restou de meus trapos.

Ana.

(Ana Letícia: texto e foto.)

Aonde vamos chegar?

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Como se não bastasse:

1) usar salto alto e ou sapatos desconfortáveis;
2) colocar silicone, fazer lipo-aspiração, cirurgia plástica e afins;
3) usar make-up;
4) passar ácido no rosto, fazer limpeza de pele de quando em quando e ainda por cima, peeling;
5) usar roupas apertadas e ou desconfortáveis;
5) por causa do n° 4, fazer dieta pra caber nas roupas;
6) malhar – idem n° 5;
7) passar formol no cabelo pra acalmar as madeixas;
8) gastar horrores por mês pra ficar na moda, bonita, em forma, arrumada, etc;
9) ficar menstruada todo mês, com direito a cólicas;
10) ter TPM todo mês;
11) usar sutiã;
12) fazer manicure e pedicure (acreditem em mim, é um saco, dá a maior gastura);
13) depilar “as partes”;
14) engravidar, carregar um bebê na barriga por 9 meses, deixando-a potencialmente flácida e com estrias, e ainda sentir as dores do parto, amamentar (vendo os peitos murcharem e caírem vertiginosamente)…
15) ser gostosa, inteligente, trabalhadora, cuidar da casa, dos filhos, do marido, pagar as próprias contas, chupar cana e assoviar ao mesmo tempo…………………………….;
etc etc etc etc…

Ainda me inventaram um tal batom para inchar e tornar os lábios mais quentes…. (sim, no sentido da temperatura…)
Meda disso, gentem!

E ainda ouço uma dessas hoje à tarde: “O batom é pra usar na boca, tá?”

G-zúis! Onde vamos parar? Parem o mundo que eu quero descer…
(rs)

Becitos miles (pois este post me lembrou minha amiga Roma Dewey… por onde andará?), sem o tal batom, diga-se de passagem. 😉

Ana.