Arquivo da tag: Bela

Mistérios da Gastronomia

Padrão
Assim como todos os ramos do conhecimento humano, a gastronomia pode nos reservas muitas surpresas, pois o paladar é um dos sentidos mais aptos a nos proporcionar prazer e sensações indescritíveis.
No entanto, as surpresas proporcionadas pela gastronomia não se restringem ao sabor da combinação dos alimentos e da preparação dos mesmos. Ao contrário, a culinária pode ser muito mais surpreendente do que o singelo prazer de degustar uma apetitosa iguaria, a começar pela investigação dos ingredientes que compõe a sua guloseima preferida.
Mas, preste atenção, a surpresa da qual eu estou falando não é necessariamente boa ou ruim. Às vezes a gente simplesmente não sabe. Não entendeu? Acompanhe comigo e veja se você sabe do que são feitos ou de onde vêm os seguintes quitutes:

Pipoca Guri

Pipoca Guri é aquela pipoca doce que vem num saquinho cor de rosa choque e que todo mundo já deve ter provado, nem que seja na infância. E se não fez isso, não teve infância. Alguns acham que a pipoca é feita de arroz. Arroz? Não sei. Minha mãe diz que são feitas com milho de canjica. Eu só sei que as “pipocas” parecem molares super crescidos e tortos, mas também não sei explicar por qual razão algumas são crocantes e doces enquanto outras são duras, escuras e amargas. Porquê, heim?

Queijo Polenguinho

Na embalagem vem escrito que é queijo fundido. Fui pesquisar e descobri que o queijo fundido é “resultante da fusão de variados tipos de queijos, o que permite a obtenção, pelo calor e adição de sais especiais, de uma pasta homogênea, de grande brilho e sabor uniforme”. Pasta de queijos? Me pergunto: que queijos são esses? De onde vêm esses queijos? Para onde vão esses queijos? Sei que minhas perguntas permanecerão sem resposta, mas espero que o responsável pela indústria dos polenguinhos não tenha uma irmã como a minha cujo tênis tem o exato aroma de um queijo gorgonzola.

Cereja Maraschino

Alguns devem estar se perguntando o que é a cereja maraschino, mas calma, eu explico: trata-se daquela cereja redondinha, vermelho vivo, que geralmente é colocada em cima de sundaes e bolos de aniversário. Mas eu sei que aquilo não é cereja coisa nenhuma. Primeiro, porque a cereja maraschino é transparente, o que decididamente a cereja de verdade não é. Depois, eu amo cereja, e simplesmente odeeeeeeio cereja maraschino. Vai dizer que é a mesma coisa? Inclusive, aquilo pra mim não passa de uma bolinha de chuchu tingida e melecada de calda.

Torresmo

Acho que sei o que é, mas eu me recuso a acreditar que alguém em sã consciência possa se deliciar com pedaços de gordura e pele de porco fritos. É muito ruim para ser verdade. Alguns torresmos têm até pêlo! E o gosto indelével de borracha queimada que fica na boca? Estranho, muito estranho…

Tender

Que diabos vem a ser isso, um “tender”? Ou vocês acreditam na existência de um leitão super desenvolvido na forma de bolinha com casquinha crocante e vermelha que só dá o ar da sua graça no Natal? Pois eu prefiro acreditar em Papai Noel! Acho que o tender só pode se originar do mesmo porquinho de Chernobyl geneticamente modificado e cromossomicamente alterado usado na elaboração dos hambúrgueres daquela famosa lanchonete americana que todo mundo sabe o nome. Ou seriam os hambúrgueres de Minhocuçu? Mas espere aí, isso já é outra história…

Geléia de Mocotó

Alguém já foi numa delicatessen ou padaria e voltou com potinhos de geléia de morango, damasco, framboesa e… mocotó? Pois é, nem eu. O pior é que tal é o nome da infame substância semi-gelatinosa supostamente extraída de cascos de bovinos! Vai ver geléia de mocotó não é geléia mesmo, e só usam esse nome para enganar as criancinhas! Só sei que na minha única e remota experiência com a dita cuja descobri que tem cheiro e aspecto de pneu velho e aposto que a intragável mistura foi desenvolvida em alguma perigosa usina nuclear, talvez as mesmas dos porquinhos do Tender.

Champignon de Paris

Compramos em vidrinhos os simpáticos cogumelos que usamos em molhos, tortas, strogonoff, etc. Mas serão mesmos os champignons simples cogumelos? E mais, cogumelos de Paris? Acho que isso não passa de conversa fiada, pois os insípidos e borrachudos ingredientes são todos iguaizinhos entre si, e se parecem mesmo é com mini-clones de alguma espécie alienígena, com direito até a chapeuzinho! Alías, alguém já ouviu falar em plantação de champignons em Paris? Me engana que eu gosto!
Chips
Pra mim, isso não passa de um maligno experimento da Elma Chips. Só gostaria de saber quem teve a temerária idéia de combinar textura isopor com sabor artificial de algum queijo duvidoso, e, ainda, adicionar essência chulé antes de vender a gororoba resultante como salgadinho para crianças inocentes. Isso deveria ser crime hediondo, gente.

Isso tudo sem falar no ovo cozido que misteriosamente apresenta um tom arroxeado no limite entre clara (que deveria ser branca) e a gema. Essa anomalia geralmente é encontrada em pizzas sabor portuguesa encomendadas naquelas pizzarias de fundo de quintal, sabe-se lá porquê. E a Coca Cola? Dizem até que alguns usam para limpar motor de caminhão e desentupir pias. Bom, é melhor parar por aqui mesmo, pois já está chegando a hora do almoço.

Bom apetite para todos!

Bela

Os donos da conversa

Padrão
Pegando uma carona no último texto da Ana, já perceberam como em qualquer reunião de mais de três pessoas sempre estará presente um ou mais dos tipos abaixo descritos?
Festa de família, reuniãozinha de amigos na mesa do bar, batizado de criança, enterro de cachorro, fila de cinema, e até encontros casuais no meio da rua, lá estão eles, disfarçados de bons samaritanos. Ou não.
Esclareço que esta não é uma obra de ficção: qualquer semelhança com a realidade é mais do que uma simples coincidência. Nomes não serão citados para evitar possíveis constrangimentos. As técnicas de repressão citadas foram testadas com grande índice de êxito, mas a autora se coloca aberta a novas sugestões.

O pedante

Descrição: Inicia todas suas frases com “no curso de francês medieval que eu fiz…” ou “na minha última viagem a Londres eu…”. Não deixa passar a oportunidade de comentar detalhadamente o último filme do Almodóvar (mesmo que seu interlocutor não tenha visto a película) e simula espasmos de incredulidade quando descobre que uma pessoa não leu a obra completa de Bukowski. Tem opinião formada para todos os temas e assuntos, exceto futebol e a nova temporada do Big Brother, e sempre que pode critica o Paulo Coelho e o Código Da Vinci.
Como reconhecer: Anda sempre com um livro na mão, de preferência com um título complicado e autor de nome impronunciável. O tipo qualificado anda com um livro em língua estrangeira. Costuma usar óculos de aros pretos, e ostenta orgulhosamente aquele tom branco-escritório de quem não vê um solzinho há séculos.
Como se proteger dele: Apresente-se para ele como “Fulano/fulana, PhD”. Isso já será um balde de água fria para o ânimo do Pedante. Quando ele iniciar algum assunto que você ignora, diga que se recusa a discutir o tema desde a publicação do artigo de Hijstch (pode ser qualquer nome com muitas consoantes e poucas vogais que lhe vier à mente). No mínimo, isso vai calá-lo até a próxima vez que vocês se encontrarem.

O Experiente

Descrição: Sempre tem uma história para contar, um episódio super interessante que aconteceu com ele. Desde viagens incríveis a experiências amorosas complicadas, tudo, absolutamente tudo já foi vivenciado por este agraciado cidadão. Por isso ele não poupa relatos exclusivos de suas experiências sensacionais e sempre tem um “ótimo” conselho para dar.
Como reconhecer: Costuma se disfarçar bem em festas de família e mesas de bar. Denuncia-se quando pergunta “Quer um conselho?” e se entrega quando o conselho seguido não surte os efeitos desejados.
Como se proteger dele: Treine em casa o relato detalhado de uma operação de mudança de sexo, recheando o seu discurso com descrições de imagens, sem esquecer das metáforas e outros estilos de linguagem. Ou pergunte-lhe quando será lançada sua autobiografia.

O monopolizador hipocondríaco


Descrição: Esse tipo simplesmente desconhece o real sentido da palavra “diálogo”. Se você, inadvertidamente sacar um singelo “tudo bem?, mesmo que a entonação interrogativa no final seja leve, o monopolizador hipocondríaco aproveitará a oportunidade para contar minuciosamente como sofre com suas dores nas costas, como ocorreu cada consulta médica sobre isso, além de relatar os constrangedores efeitos colaterais dos remédios receitados. E se por um infeliz acaso você tiver tentado iniciar esse diálogo na casa dele, ainda será obrigado a assistir o vídeo da operação na coluna do dito-cujo. Haja estômago.
Como reconhecer: Esta anomalia da comunicação se manifesta principalmente nos indivíduos na faixa dos 60 (sessenta) anos ou mais.
Como se proteger dele: Simplesmente desista do gentil e quase automático “tudo bem?”.
… E uma boa dose de sorte para escapar deles.
Bela

Se é pra resumir…

Padrão

Eu bem sei que os afazeres triviais do dia a dia acabam por consumir quase todo o tempo livre do qual dispomos para nos distrair. E eu, assim como muitos dos que vêem nos visitar aqui no blog, costumo passar grande parte do meu tempo livre lendo!

Apesar de passar quase o dia inteiro lendo petições, artigos, leis, notícias, etc., sempre termino um dia com um livro na mão. É um costume antigo, um ritual quase mágico que já virou rotina: não importa a hora em que eu me deite, é sagrado ler algumas páginas de um livro antes de dormir. Teimo em dizer que sem essa leitura diária eu nem conseguiria cair no sono, mas a bem da verdade, às vezes acordo de madrugada com a luz acesa e o livro na cara.

Então, voltando ao que eu estava dizendo no início do texto, às vezes nos falta tempo para nos distrair, e, para quem gosta de ler, simplesmente falta tempo para ler! Pois, para se deleitar com este singelo afazer é necessária uma certa preparação: é preciso conjugar silêncio, conforto, e, claro um exemplar de uma excelente obra literária, porque, sem esse último, o que era para ser um prazer acaba se tornando uma grande perda de tempo… Realmente, não há nada pior do que um livro ruim, mas, em compensação, também é difícil descrever as delícias que apenas um bom livro pode nos proporcionar!

O que me entristece é que existem tantos bons livros no mundo, muito mais do que eu poderei ler nessa vida, e é um grande desperdício de oportunidade eu não conseguir ler todos os livros que eu tenho vontade! Como seria bom se houvesse como resumir aqueles imensos volumes… Pensando nisso, imaginei como seria difícil a tarefa de resumir alguns dos grandes clássicos da literatura:

Guerra e Paz – Leon Tolstoi – 1340 páginas
Um rapaz não quer ir à guerra porque está apaixonado. Napoleão invade a Rússia. A mocinha casa-se com outro.

Os sofrimentos do jovem Wether – Goethe – 212 páginas
Rapaz sofre por um amor não correspondido. Não agüenta ver a sua amada noiva de outro e suicida-se.

Madame Bovary – Gustave Flaubert – 431 páginas
Um médico do interior se casa com um moça bem educada e bonita, criada num convento. Um dia eles vão a um baile da aristocracia. De volta à sua vida comum, ela entra em depressão, se endivida e arruma alguns amantes, até tudo perder a graça e ela se envenenar com arsênico.

Romeu e Julieta – Shakespeare – 223 folhas
Dois adolescentes se apaixonam, mas suas famílias são contra o romance. Um padre tem uma idéia idiota para tentar com que eles fiquem juntos, mas ambos não entendem o plano do padre e acabam se matando pensando que o outro tinha morrido.

Em busca do Tempo perdido – Marcel Proust – 1600 páginas
Um menino se entristesse profundamente por não receber um beijo da mãe antes de dormir. Quando adulto, ele come um bolinho molhado no chá e se lembra da sua infância. Ele frequenta muitas festas estranhas com gente esquisita e tudo termina num baile em que todos estão muito velhinhos.

Édipo Rei – Sófocles – 180 páginas
Rapaz mata o pai, casa com mãe e fura seus próprios olhos, tudo isso porquê ninguém prestou atenção numa profecia.

E o vento levou – Margareth Mitchell – 962 páginas
Uma garota rica e mimada apaixona-se por amigo de infância, mas não é correspondida. Ele se casa com outra. Todos ficam pobres, muitos parentes morrem. Ela se casa três vezes, e se descobre apaixonada pelo último marido quando ele não quer mais nada com ela.

***

Falem a verdade, perdeu toda a graça, não? Eu quero minhas 4.948 páginas de volta!

Bela

Tarde demais…

Padrão
Uma das maiores tristezas da vida é descobrir, tarde demais, que uma pessoa é insubstituível na sua vida…
Às vezes nos parece que um amor é meio morno, quase sem graça, e que se acabar, tanto faz.
Uma amizade que vemos sem grandes promessas, complicada e trabalhosa, nos parece desnecessária e até mesmo condenada ao fracasso.
E assim, com o desinteresse, o descuido, o descaso, a amizade e o amor acabam mesmo!
E, só daqui a muitos anos descobrimos que nada era mais forte e raro do que aqueles sentimentos, que essas pessoas que dispensamos sem nenhuma cerimônia são na verdade pessoas especiais, incomparáveis, insubstituíveis!
Tarde demais é uma expressão cruel.
Tarde demais é uma hora morta.
Tarde demais é uma página virada.

Nunca é tarde para pedir perdão, mas pode ser tarde demais para ser perdoado.

Nunca é tarde para reconhecer um erro, mas às vezes pode ser tarde demais para corrigir o mal que já foi feito.
Nunca é tarde para dizer “sinto sua falta”, mas a nossa ausência já pode ter sido suprida por outra pessoa, e não dá mais para recuperar aquele lugarzinho que já foi nosso.
Tarde demais é um lugar perdido no tempo. Não é lá que devemos deixar florescer nossas descobertas.
BELA

Um sorriso de 500 anos

Padrão
Mona Lisa, a mais famosa e extraordinária obra do pintor renascentista Leonardo da Vinci está fazendo aniversário!

Especula-se que Leonardo começou o retrato em 1503 e levou três anos para terminá-lo. Hoje, a pintura a óleo sobre madeira de álamo encontra-se exposta no Museu do Louvre, em Paris, onde foi projetada uma elaborada sala especialmente para abrigá-la, a “Salle des États”.

Quem teve a chance de ver pessoalmente essa pintura com certeza já se perguntou sobre a razão de seu sucesso: de fato, a Mona Lisa, também conhecida como La Gioconda ou, em francês, La Joconde, é uma pintura de dimensões modestas, e os estragos do tempo são perceptíveis a olho nu, nos pigmentos escurecidos e nas pequenas fissuras da madeira.

Acontece que o que torna a Mona Lisa uma obra notável não é percebido apenas com uma análise estética. Nunca uma obra de arte foi tão reproduzida, comentada, estudada, e sobre nenhuma obra de arte existem tantas controvérsias!

A começar pela identidade de seu “sujeito”, pois não se sabe ao certo quem a Mona Lisa retrata. Alguns estudiosos italianos dizem que a mulher de expressão introspectiva e um pouco tímida, para não dizer conservadora, foi a esposa de Francesco del Giocondo, um rico comerciante de seda de Florença e uma figura proeminente no governo florentino na época do renascimento.

Para a cientista Lillian Schwartz, a Mona Lisa nada mais é do que um auto-retrato de Leonardo, porém, travestido (?) de mulher. Esta teoria baseia-se no estudo da análise digital das características faciais do rosto de Leonardo e dos traços da modelo. Dizem que ao comparar um auto-retrato de Leonardo com a mulher do quadro, ficou evidente que as características dos dois rostos se alinham perfeitamente. Os críticos desta teoria sugerem que as similaridades são devidas ao fato de que ambos os retratos usados para a comparação foram pintados pela mesma pessoa, ou seja, a técnica e o próprio estilo de Leonardo ensejaram a similitude entre as duas figuras. Essa constatação não impediu essa teoria de se tornar famosa, pelo contrário: a afirmação de que Mona Lisa é na verdade um auto-retrato foi citada até por Dan Brown no livro O Código Da Vinci!
Já para o historiador Maike Vogt-Lüerssen, que se dedicou ao estudo da iconografia da Mona Lisa por 17 anos, a mulher por trás do famoso sorriso só pode ser a Duquesa de Milão, Isabel de Aragão, na corte de quem Leonardo da Vinci trabalhou como pintor por 11 anos. O estudioso chegou a essa conclusão ao verificar que o padrão do vestido verde escuro de Mona Lisa indica que a modelo é um membro da casa de Visconti-Sforza, família à qual pertencia a Duquesa. Além disso, alega que ao comparar cerca de 50 retratos de Isabel de Aragão, representada como a Virgem ou Santa Catarina de Alexandria, para o qual ela serviu de modelo, conclui que a semelhança com a Mona Lisa que conhecemos hoje é evidente, o que o leva a concluir que a Mona Lisa é o primeiro retrato oficial da nova Duquesa de Milão.
Como vocês podem ver, não há nenhum estudo conclusivo sobre a identidade da modelo da Mona Lisa, o que sem dúvida contribui para cercá-la de uma aura de mistério e assegurar a sua fama mundial.
Num curso de história da Arte que eu fiz há alguns anos atrás, o professor também apresentou uma teoria para explicar o fascínio que a Mona Lisa exerce sobre quem dela se aproxima. Segundo ele, Leonardo, que além de pintor e desenhista talentoso também foi um exímio inventor e cientista (quando não se entretinha com ocupações menos “nobres” como inventar jogos de salão e roupas extravagantes para a aristocracia), criou, nada mais, nada menos, que um efeito inusitado na pintura, capaz de reter a atenção do apreciador sem, no entanto, chamar a sua atenção especificamente para este fato. Explico: Leonardo da Vinci criou um cenário irreal para a modelo, que posa, descontraída em primeiro plano, enquanto no fundo, não há continuidade na paisagem retratada, onde vemos uma espécie de cachoeira, árvores mirabolantes e vegetação extravagante, estradas tortuosas que não levam a lugar algum. Segundo meu professor, é esse cenário, esse “fundo” da pintura que nos atrai para a contemplação, e não o sorriso da Mona Lisa, e isso não passou de um “artifício” do original Leonardo para atrair a admiração de seu público.

Enfim, apesar das inúmeras lendas que pairam sobre ela (e aqui abordamos apenas algumas), a única conclusão a que podemos chegar é que olhar persistente, o sorriso enigmático da Mona Lisa, apesar de sua idade, continua a seduzir a multidão e a fascinar os mais desprevenidos. Uma pintura inestimável, símbolo do maior museu do mundo e de um grande e talentoso artista.

Parabéns, Leonardo!
Parabéns, Mona Lisa!

Bela

Saudade

Padrão

Dizem que a palavra “saudade” só existe na nossa língua. Sabemos, no entanto, que sentir saudades não é privilégio nosso. Outras línguas, outros artistas, outros poetas, também descobriram uma forma de expressar saudade. Mas “saudade”, palavra genuinamente portuguesa, não encontra tradução em língua alguma!

Mas, enfim, o que tem de tão especial e sui generis a palavra saudade? Será que já tentamos traduzir para nós mesmos o sentido desta palavra?

Primeiro, saudade não é única e simplesmente uma palavra. Não podemos ser simplistas a ponto de reduzir tudo o que há de belo na saudade a uma palavra constante do dicionário…Traduzir um sentimento por uma palavra sempre foi o maior dos desafios do homem sensível: transformar sentimentos em coisas palpáveis, visíveis, compreensíveis. Este é o incomensurável presente que a racionalidade nos oferece.

Saudade não pode ser apenas uma palavra, pois palavras são imperfeitas, palavras são humanas demais para demonstrar todos os sentimentos que se escondem por trás delas.
Saudade é o sentimento reconfortante de chegar a um lugar conhecido após dias de busca desenfreada pelos caminhos da solidão. Saudade é o lar daquele que se encontra perdido, é o fio de esperança que nos conduz nos confins da memória, e nos permite saborear, intactos, momentos repletos de felicidade.

No entanto, a saudade nunca deve ser confundida com tristeza ou melancolia. A saudade é o maior trunfo que um ser humano pode carregar em si, pois é a manifestação mais profunda da consciência diante da inexorabilidade do tempo, da vivência que se completa quando germina uma lembrança, do caminho percorrido no árduo trajeto da vida. É o sentimento que nos traz a certeza de termos sido felizes um dia, mesmo que esse dia tenha passado. Quem tem saudade pode dizer: vivi – ou melhor, estou vivo! Sentir saudades não é ficar preso ao passado, mas poder dizer, sem hesitar, que viver vale a pena.

Saudade é a faculdade de trazer para o presente os sentimentos do passado, as alegrias de um dia perdido no tempo, é um privilégio que só podem gozar aqueles dotados de alma sensível, capazes de ver a beleza da vida em pequenas coisas.

A saudade é a arte de perceber o valor das minúsculas porções de felicidade esparsas pelo tempo, que assim como o impiedoso e violento vento, destrói tudo com sua passagem, e, como que por crueldade, nos deixa incólumes para observar as ruínas de tudo que se foi…

Bela

"Pega o ladrão!"

Padrão

Sempre me disseram que a Praça da Assembléia é um lugar perigoso, sobretudo no final da tarde, pois muitos meliantes lá se refugiam para passar a noite.

Apesar do aviso, lá estava eu, esperando o ônibus para me levar pra casa. No ponto de ônibus, quase deserto, apenas uma velhinha estava sentada, segurando, apertada contra o peito, a bolsa de crochê.

Eis que surge uma menina, lá pelos seus 12 anos, descalça e suja, nos encarando de forma petulante.

Julgando que se tratava de uma pedinte, eu já me preparava para murmurar que tinha apenas o dinheiro da passagem quando a menina se dirigiu à velhinha:

– “Ei, troca pra mim dez notas de um real por uma de dez?”

A velhinha, inocentemente, já ia abrindo devagar a sua bolsa para atender ao estranho pedido da menina quando eu me vi obrigada a intervir:

-“Não faça isso, minha senhora! Talvez ela vá se aproveitar para pegar o seu dinheiro…”

E a menina logo interrompeu, atrevidamemente:

– “O que você tem a ver com isso? Cala a boca e me deixa em paz!”

A velhinha, convencida de que se tratava de um pedido sem segundas intenções, estendeu para a menina uma nota de dez reais, esperando em troca as dez notas amarfanhadas de um real.

Assim que tocou a nota de dez reais, a menina soltou uma gargalhada fenomenal, e saiu correndo com o dinheiro da velhinha, quando eu, na mesma hora, soltei os livros que estava carregando e consegui segurá-la pelos cabelos, tomando de suas mãos a nota da velhinha.

Dessa vez gritando de dor, a menina correu em direção oposta, e sumiu.

A velhinha, estarrecida, ainda estava sentada no ponto de ônibus quando lhe entreguei sua nota de dez reais. Foi quando percebi que também tinha nas mãos as dez notas de um real da menina.

Nessa hora, ouvimos um grito:

– “Pega o ladrão! Pega o ladrão! Ele levou o meu dinheiro!”

Mas o grito não era para mim, alguém também tinha acabo de ser assaltado!

O que eu fiz com o dinheiro da menina? Peguei um táxi, por via das dúvidas, e também porque andar pela Praça da Assembléia à noite é mesmo muito perigoso.

Bela

Amizade

Padrão

A amizade…mas enfim, que grande coisa é essa?

Os dicionários a definem como o sentimento fiel de afeição, simpatia, estima e ternura entre pessoas que geralmente não estão ligadas por laços de família nem por atração sexual.

Outros costumam definí-la como uma correspondência entre pessoas de amor e bons serviços. Contudo, essa é uma definição bem limitada e mesquinha desse sentimento, pois sujeita a amizade a um balanço entre despesa e receita, assim como uma conta bancária.

Acredito que a verdadeira amizade é mais rica e mais generosa, não faz cálculos aritméticos com medo de dar mais do que recebeu, não tem medo de perder mais do que investiu.

No entanto, apesar da grande dificuldade em definir o que é a amizade, com certeza esta é tarefa mais fácil do que a praticar. O que me parece é que as pessoas não querem ser amigas, querem TER amigos, e assim vivem de empobrecidas e dispensáveis amizades convenientes.

O amigo não se afasta porque começou a namorar. O amigo não se afasta porque mudou de trabalho, de cidade, de país. Afasta-se, sim, porque adquiriu interesses divergentes ou simplesmente porque aquela pessoa, antes amiga, deixou de valer a pena… Quer seja porque essa pessoa o decepcionou, quer seja porque ela deixou de ser importante.

O amigo não rouba as suas idéias, a sua paquerinha ou o seu pingente de estimação. O amigo te motiva sempre a crescer, te dá segurança para ser confidente, e com isso consegue aquecer o seu coração. A amizade é fonte de alegria e satisfação, jamais de rancores ou cobranças.

O que eu aprendi sobre a amizade é que as pessoas entram e saem da nossa vida, e o que importa é aprender com essa convivência, mesmo que ela seja curta ou dolorosa. E quando chega a hora de uma pessoa sair da nossa vida, devemos permitir que ela se vá, sem mágoas, sem ressentimentos, mas com o desejo sincero de que ela seja feliz, até sem a nossa companhia.

Ao meu ver, esse é o verdadeiro sentido da amizade: um sentimento de bem querer que não espera nada em troca, mas que tem a certeza de que deu tudo o que queria receber.

Bela

Viagens e sonhos

Padrão
Desde pequena, fui acostumada a seguir meus pais em todas suas viagens: de férias na praia com a família inteira, com direito a casa e lotada e pererecas no banheiro até longas viagens de carro passando por vários países em um curto período de tempo. Corajosos, eles não tinham medo nem frescura de colocar duas crianças no banco traseiro do carro, uma barraca e um colchão no porta malas, duas garrafas de água mineral debaixo do banco do motorista (uma era exclusiva para a minha irmã, que não sabia beber direto na garrafa sem babujar tudo) e sair em busca de aventuras, explorando novas culturas e países mais distantes. A experiência dessas viagens acabou por nos tornar viajantes quase profissionais, acostumados a reconhecer de longe o que era uma furada e evitar transtornos, sem, contudo, abrir mão das peripécias que tornam cada viagem única! E quantas histórias para contar depois!

Quando viajamos, somos tomados pelo ímpeto de conhecer a maior quantidade de coisas possíveis, fazendo o dia render de uma forma inimaginável. Lembro de uma vez em que passeei por todos os pontos turísticos de Barcelona em um único dia (juro, é verdade, é possível), e à noite, quando dormi, não parava de sonhar com os prédios, parques e torres da cidade que havia desfrutado com tanta pressa… Pois essa é a melhor parte de viajar: as lembranças que guardamos dos momentos que vivemos em lugares estranhos ao nosso dia a dia, e que por isso se tornam tão especiais. Sonhar com esses lugares depois, é uma maravilha, eles deixam de fazer parte apenas do nosso imaginário, e você pode guardar experiências concretas dos lugares por onde passou. E sonhar em conhecer alguns lugares, e depois realizar o seu desejo é uma das coisas mais prazerosas do mundo, e rendem momentos de felicidade inigualáveis! Já aconteceu comigo, e espero que aconteça ainda muitas e muitas vezes!

Já realizei o sonho de conhecer:

Giverny, França

Nesta pequena cidade próxima a Paris, o pintor Monet instalou sua residência familiar. É uma casa simples, bem mobiliada e decorada sem ostentação, mas o que atrai mesmo são os jardins! Tanto que ele usava o próprio jardim como tema da grande maioria de suas telas. As vitórias-régias cor de rosa (as ninféias), o laguinho onde suas filhas andavam de canoa e a famosa ponte japonesa, está tudo lá como o Monet retratou com tanto talento!

Füssen, Alemanha

Hoje na região da Bavária na Alemanha, fazia parte do Reino da Baviera, onde governou o Rei Ludwig II no século XIX. Dizem que o Rei não batia muito bem, que vivia no mundo da lua, preocupado apenas em realizar os seus desejos pessoais. E foi dessa cabeça perturbada que saiu o projeto do Neuschwastein, um castelo magnifico e surreal, tão próximo da fantasia que foi usado pela Disney como modelo para o castelo da Cinderela. Mas não é só o exterior que impressiona, o interior do castelo é um exagero de pinturas, pedras preciosas, móveis esculpidos e pintados com ouro, mas nem por isso deixa de ser harmônico. Acredite, no terceiro andar do castelo, há uma gruta e um lago iluminados em tons azuis e rosa, e um barquinho em formato de cisne (a ave que o rei elegeu como seu alter ego)! Tudo é esplendorasamente kitsch, mas nem por isso deixa de ser bonito!

Tiradentes, Brasil
Imagine um pequeno vilarejo, perdido entre montanhas. De manhã, após a gélida madrugada, as brumas envolvem a cidade, até o sol nascer, resplandecente. Berço do inconfidente Tiradentes, esta pequena cidade em Minas Gerais tem um charme incomparável com suas calçadas de pedras irregulares, ruas bucólicas e arquitetura colonial. Um sonho para viver a dois, de preferência. Uma aventura onírica inesquecível.

Agora, não me peçam uma lista dos lugares que sonho conhecer… não caberia nesse post!

Tiradentes3

Bela.

Era uma vez… (uma história de terror)

Padrão

Era uma vez um menino que vivia sozinho. Não tinha pai, nem tinha mãe. Mas sua característica principal não era a solidão, era a sujeira. Não cortava os cabelos nem as unhas, que cresciam desgrenhados e imundos, causando repulsa em quem cruzava seu caminho. É óbvio que não conseguia fazer amigos, e nem a compaixão dos próximos ele atraía, pois afastava a todos com sua sujeira e mau cheiro insuportáveis.

Não, minha gente, isso não é o roteiro de uma história de terror.

O personagem acima foi criado em 1844 pelo médico alemão Heinrich Hoffmann para ilustrar o livro que escreveu para presentear seu filho de três aninhos no Natal. No original, o personagem se chamava Struwwelpeter, mas foi traduzido para o português como João Felpudo, e desde a sua criação vem aterrorizando criancinhas em todo o ocidente.

A intenção pedagógica do livro é clara: exaltar a importância da higiene e intimidar as crianças a se manterem sempre limpas e asseadas. O que é questionável, contudo, é a maneira dramática como Hoffmann insere a “moral da história” em seus livros, encenando cenas assombrosas de mutilações e morte como punição por pequenas travessuras. Enfim, os castigos desmesurados sofridos por seus personagens acabam virando humor negro, não dos mais acessíveis às crianças de tenra idade.

Mesmo assim, João Felpudo mereceu diversas traduções, inclusive uma feita por Mark Twain, o que lhe rendeu a oportunidade de chegar às bibliotecas escolares e povoar os pesadelos de inúmeras criancinhas, incluindo-me nessa lista que acredito ser bastante extensa. Até hoje João Felpudo me provoca certo pavor, para não dizer asco, e ainda tenho pesadelos com o cabeludo personagem ilustrado com garras dignas do brasileiríssimo Zé do Caixão.

E ele me dá medo. E ele não é fruto da minha imaginação como alguns tentam me convencer, mas sim da mente maligna de um médico do século XIX, e sobrevive até hoje entre nós… Isso lá é história de criança???
Olha pra ele! Olha só!

Cabelo e mãos de dar dó.
As unhas nunca cortou, cor de carvão, um horror!
Água? Nunca! Ô fedor!
E cada dia é pior!
Qualquer coisa é melhor que esse João Catimbó.
(tradução de Ângela Lago)

Bela.