Arquivo da categoria: Crônica

Sobre a "dita cuja" (gripe) suína…

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Em meio às árvores...

Na dúvida é não facilitar…
Na dúvida é amar ao próximo como ama a ti mesmo.
Prestem atenção: como ama a ti mesmo.
Há um tom de egoísmo na pregação de Inácio de Loyola (e na doutrina Jesuíta)?
Já ouvi muita gente falar muita besteira sobre isso. Sempre discordei veementemente.
Egoísmo é importar-se com o seu vizinho só porque ele é pobrezinho e não pode ficar doente, pra não transmitir doença pra você!
Mas amar a si próprio é fundamental para que possamos amar o outro. Só assim conseguimos olhar o que tem lá fora: quando a gente se volta para dentro e percebe o quão frágeis todos nós somos. E é aí que enxergamos a única certeza que podemos ter em vida – a morte! E assim, todos somos iguais, vulneráveis, egoístas, incapazes de dizer “eu te amo” com amor verdadeiro, na hora que dá vontade. Pensamos em ações e reações, pesamos riscos, fazemos seguro de vida, carro, imóvel…
E assim, fazemos mal.
E assim, faz mal aquele que despeja lixo nos rios, polui o ar, faz mal não respeitar o direito do próximo, faz mal não amar, não se colocar no lugar do outro.
Menos preconceito.
Mais amor
Sorrisos
Aplausos
Cores.
VIDA.

(Clique para ouvir)

Ana.

(Foto e texto: Ana Letícia.)

Sombrinha ou guarda-chuva?

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Dia de chuva...

Dia comum, como outro qualquer, a começar pelo tempo doido que tem feito neste mês, calor excessivo, chuvas fora de hora, etc. O trabalho nunca é de menos, sobra dia no meu diminuto tempo. Comi a maçã cotidiana (“eat an apple a day and keep the doctors away”) e fui bater perna pra casa. Pessoas ainda implicam com minha insistência em caminhar… Emagrece, é de graça, ‘desestressa’ e é melhor que pegar ônibus ou pagar estacionamento, oras!

Justificativas a postos, tênis também. E a roupa própria de caminhante, óbvio. O mochilão carrega tudo que não deveria carregar: carteira, celular, iPod, roupas de trabalho, scarpin de salto, bolsa de maquiagem, pen-drive… A garrafinha d’água vai também – mas isso é necessário, certo? A função shuffle do meu music player costuma me pregar peças: tocar Sinatra logo após o Fat Boy Slim, por exemplo, ou uma clássica de J. S. Bach logo após um rock n’ roll da pesada. Mas de vez em quando ele funciona muito melhor que qualquer DJ dos bons, e engata sequências fantásticas e nunca dantes imaginadas, com músicas que têm tudo a ver entre si, mas que nunca foram gravadas juntas num CD só. Neste dia, peguei uma dessas, e enquanto meu passo avançava, meu bem-estar aumentava e o set musical se encaixava com pensamentos, paisagens, sons urbanos. O cheiro de chuva recente aumentava minha a confiança de que escolhera o melhor horário para ir embora: logo após a chuva, o chão molhado, o ar fresco, as plantas limpas, enxurrada zero. Maravilha!

Na esquina da Praça, a libertina chuva desabou sobre o “Curral Del Rey”. Enquanto muitos corriam em desespero, carros buzinavam, gente se amontoava embaixo das marquises, puxei triunfante minha sombrinha de dentro do mochilão (como um guerreiro saca sua espada) – uma mulher prevenida vale mais que duas, quase pensei em voz alta. Segui caminhando com a valentia de quem estava já na metade do caminho, empunhando o leve guarda-chuva de alumínio, e que confiava demais na auto-previsão temporal, de que os chuviscos seriam apenas uma pancadinha de verão e logo logo iriam passar.

Só que a tal ‘pancada’ virou rios e lamaçais… Quase tombei várias vezes, fiquei ilhada noutras, e por pouco não fui engolida por algum bueiro. O celular tocou num dos trechos mais críticos (claro, pois ele nunca toca quando você pode atender), quando a cachoeira – enxurrada – me impossibilitava de andar pela calçada e tive que subir a rua na contra-mão desafiando o trânsito.

Neste momento, tinha que atravessar uma larga avenida. O senhor de camiseta branca que caminhava sem o guarda-chuva amarelou no canteiro central, em frente à pororoca do Rio Amazonas que tomou o asfalto, deu meia-volta e me recomendou que fizesse o mesmo. Vá por outro caminho, por aqui não dá. Segui em frente. Até eu fiquei abismada com a destreza com que driblava as ondas do “rio”, não conhecia este meu lado pescadora do “Velho Chico”!

Consegui alcançar a outra margem. E aí?
E aí que chuva simplesmente PAROU no exato momento em que pus meus dois pés na calçada, do outro lado das cataratas do niágara, nenhuma gota a mais caiu do céu, as enxurradas secaram imediatamente, e o que antes era um rio, nem riacho ficou.

O resultado, em que pese a maquiagem intacta: cabelo desgrenhado, nenhum arranhão, alguns espirros na manhã do dia seguinte, muitas roupas e sapatos e tênis e mochila molhados, mas a certeza de que poderia ter morrido afogada numa enxurrada, como se já não bastasse ser chamada de pintora rodapé!

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

O Começo do Fim

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Give me the light

E se a vida começa agora, o passado foi um ensaio.
Marionetes esquecidas num palco de dor e cor. Vimos brilhos e luzes, vestidos, pétalas de cor. Mas não estávamos vivos: manequins de vitrines sem coração… Não conta.

E se o ano começa agora… um, dois e… já!
(Aguardo acontecer.)

Tudo permanece igual, intocado. Ciscos de poeira pairam sob os raios da lâmpada halógena, acima de nossas cabeças. Nem um pio. Nenhuma alma. Apenas um cachorro molhado me encara, com ar de abandono. Cheira a beirada do vidro, e o focinho molhado encontra só cimento frio. Eu, impassível. O canino faz um muxoxo, franze as orelhas e crocita desesperado. Nada. Olha em torno, olhos de gato rompem o silêncio. E lá vai ele, se distrair com novas aventuras.

Sinto um cheiro doce inebriante. Será este o cheiro do mel? Algo coça meu nariz… Atchim! Pimenta, só pode ser. Um movimento em falso, dispara o alarme. Manequins também querem viver! Não apenas brincamos de faz-de-conta-que-é-assim.

Temperamos o foundue de nossas roupas com a mistura de sonhos e pulsos vibrantes. E a luz que cega a noite tromba em outros pés e outros cheiros. Tropeço por várias vezes, desacostumada a caminhar.

Será que viver é assim?
Cair, levantar?
Ensaiamos o futuro, vivemos no passado.
E o presente, sempre ausente, cai como um raio.
Relâmpago chega e já foi.
E se a vida começa agora…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Se A, então B

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Filosofia de banheiro

Sonhei com números, acordei dividida.
Multipliquei dúvidas por aliterações
Dividi o sonho entre dor e paz.
O que me restou?
Paixão e sentimento exponencial
Amor: número primo, indivisível.
A raiz quadrada do sonho se desfaz
Sobra sexo, sono, som, fumo
Atos cotidianos que tendem ao infinito
Acordar, urinar, continuar
E sonhar acordada com cifras e milhares de milhões
Acasos formam efemérides e me dão noites sem dormir
De cor
Decoro
O coro
Decifro números, incógnitas e palavras
Frases lógicas brotam
Intrínsecas ao ser ou não ser
Senão, nada mais irracional que
Não estar
Não ser
Não te ter.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Artesão

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BH_ 099

Suspira. Olha para longe – ignora minha presença. Acaricia o bigode e alguns fios apenas de sua barba, meticulosamente toca em cada um, arrumando-os, reposicionando o que já não é muito organizado. Ajeita na frente de si o caderno, em posição exatamente perpendicular à borda da mesa. Ao lado, uma xícara de café frio repousa, a colher suja pende para um dos lados. Mais à frente, cinzeiro, isqueiro e maço de cigarros espreitam, pacientemente – como eu.

Alisa a folha escrita. Acaricia as palavras ali deixadas, amantes guardadas como um tesouro. No plural. São centenas de folhas e dezenas de cadernos, menores ou iguais a este.

Um brilho no fundo do olhar faísca ideias, que rastreia sobre o papel com a caneta que ganhou de brinde promocional. Gentileza para uns, salvação para outros, dependentes das letras e dos escritos – uma caneta, dez, vinte, nunca é o bastante.

E assim, vez por outra produz maravilhas – outras, nem tanto – em vocábulos fonéticos, frases e orações. Por horas a fio, sob a luz do abajour, sem sair do lugar, viaja pelos séculos, vai e volta a terras longínquas e… continua aqui.

Artesão de palavras. Escritor. Segue seu caminho de pautas, margens e pingos nos is.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Síndrome

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Milagres

Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando… Esperando…

Aguardo um milagre… Um acontecimento? Não, apenas algo (ou alguém) passando por mim que me faça transcorrer impulsos nervosos do cérebro à mão. Fotografias mentais, palavras rebordadas, desenhadas, escorrerão de minha pena preta, juro.

Temo não conseguir chegar a lugar nenhum, o que está por vir, inesperado, fatal. Tremo um bocado, mas teimo em continuar. Padeço da cegueira do mundo estranho, do ninho de espinhos.

E no momento em que todos somem, não há nada pra me deter. E o que se fala ao meu redor não importa mais. Não há fronteiras, sons. Apenas um vácuo na existência. Sou matéria exposta, sou intempérie, fratura que dói, sou lágrima que não escorreu, sou o amor que ainda está por vir. Sem exclamações. Zen.

(Sinto pena de mim, por não poder me ver agora, momento único entre a síndrome da folha em branco e a síncope de criação.)

Agradeço à reciclagem, à folha parda, à ponta de aço que roça sobre o papel, deixando rastros de tintura e emoções à superfície da margem.

Rezo em transe sobre o caderno que abriga parcos sentimentos em pautas azuis. Dois pontos:

— Palavras cruas são vírgulas fora do lugar.

Reticências. Um dia, quem sabe… Virarei a página.

Eterno recomeço.
Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando… Esperando…

Ana.

(Texto e foto por Ana Letícia.)

***

Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também – dia 21!!!), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né? 😉

Depois…

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Bibi fonfon

Depois que tudo passa, muito tempo depois, restam as lembranças. Sendo elas boas ou más, apenas elas ficam. Não que queira mais que isso. Apenas elas já bastam. A água que passou debaixo da ponte não volta mais — e todo mundo sabe que água reaproveitada não é própria para o consumo humano.

Você se torna mais um número na agenda telefônica. Daqueles que você ainda não apagou pois um dia na vida, outro na morte, poderá precisar de alguma coisa, que nem você mesmo consegue imaginar o que poderia vir a ser. Devolver aquele livro do Dostoiévski, talvez, ou o DVD dos Rolling Stones. Ligar pra conversar, botar o papo em dia… nem pensar! Que papo? Não existe mais papo ou notícia pra contar, acabou o diálogo, acabou a vontade de dialogar. Ficou tudo artificial demais, chato demais, na mesmice demais.

Colecionar fatos, pessoas, lembranças, mentiras, sapos engolidos, momentos. É disso que é feita nossa vida. E é isso o que acontece, depois que tudo passa. Mais um item na coleção de coisas passadas.

Você se torna mais um álbum de fotografias guardado no alto do armário, junto com todos os outros. No caso dos mais moderninhos, aos quais fotos impressas estão obsoletas, você vira uma imagem .jpeg gravada em CD’s e DVD’s de fotos esquecidos na estante, arquivos digitais que lotam as memórias dos chips das máquinas que já não são mais usadas, em pastas de computador que não são mais clicadas, abertas, expostas, lembradas. Você vira Um mero endereço de e-mail, ao qual mensagens de humor ou reflexão são enviadas — isso quando não se trata de arquivos horrendos e piadas encaminhadas de péssimo gosto, apresentações bregas de powerpoint, dessas que você nem manda executar, manda pra lixeira direto.

Mas te esqueceram de contar que depois que tudo passa, muito tempo depois, resta você. Resta a sua vida inteira pela frente. E isso já é coisa demais. E ponto final.

Ana.

(texto e foto)

A maldição do banheiro feminino

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Todo homem se pergunta por que as mulheres gostam de ir juntas ao banheiro. É claro que a maioria das vezes é para fofocar. No caso do meu trabalho… a gente vai é para INVESTIGAR. Para tentar descobrir quem foi a fdp querida que fez merda por lá. (Literalmente! )São simplesmente revoltantes as cenas que presenciamos nos banheiros femininos, e deixo aqui registrados meu protesto e indignação! A maioria da mulherada não tem respeito nem educação. No meu local de trabalho até mesmo as faxineiras já relataram fatos horrendos. Disseram que preferem mil vezes limpar o banheiro masculino ao feminino…

O pior é saber disso e, ainda assim, presenciar coisas toscas… Aqui existe uma senhorita (?) que nunca dá descarga para o nº 1, quem dirá para o nº 2! Acreditamos ser a mesma que também não lava as mãos (ela sempre sai da cabine quando não tem ninguém do lado de fora aguardando e vai embora sem nem abrir a torneira para despistar). Nunca ninguém conseguiu pegá-la em flagrante delito, apesar das inúmeras tentativas. Ela nem dá descarga, nem lava as mãos. Eca!

Será a mesma senhora porquinha que só joga o papel usado fora do lixo? Será ela que também erra na mira e faz suas necessidades no chão? Quanta porcaria para uma só pessoa… Minha tese é de que existem umas ‘ogrinhas’ por aqui que adoram por a culpa nos outros. Cada uma é especialista numa nojeira. Enquanto há quem deixe o absorvente aberto e na vista de todos por cima do lixo, há quem deixe respingar xixi no assento do vaso e nem se preocupe em limpar. Penso se é proposital… É uma falta de respeito! Como diria Boris Casoy, é uma ver-go-nha.

Vai ver existe um carma dentro de cada banheiro feminino. Uma maldição, sei lá. Já que os pequenos cartazes pregados nas paredes pedindo mais educação não têm dado resultado, muito menos nossas infrutíferas investigações, o jeito é rezar e apelar pro santo especialista em banheiros… Alguém aí conhece algum?

Ana.

Foto retirada deste site.

 

João Lenjob: Aborto – Sim ou Não?

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Não me perguntem minha opinião sobre o texto abaixo… João sempre foi polêmico, ele é isto e não se fala mais nisto! Quem viver… lerá. (ou não.)

PPJL

Aborto – Sim ou não?

Mais uma crônica de vínculo totalmente social e realmente necessária. Desta vez o aborto é o tema em atividade. Pouco se noticia da importância e o método utilizado por aqueles que usam desta prática. O que realmente deveria ser observada é a causa que leva a essa atitude e a qualidade, segurança e forma como é praticada.

Polêmica ou não, abortos são freqüentes em todo o mundo e por dois critérios, muito preocupantes. Primeiro, o poder aquisitivo da mãe e eventualmente do pai, deixando relevante que na maioria absoluta das vezes a decisão acaba sendo materna. Ninguém cria filhos de graça, pois além do enorme desgaste físico, o custo é alto, a ajuda do governo mínima e nem sempre a família pode ou quer permanecer junto, o que torna significativa o segundo critério: quando os pais (ou um deles) não aceitam o filho por efeitos sociais ou até por vaidades. Mesmo que este ocorra num menor número de vezes, deixa claro que o problema é grave.

A sociedade brasileira em geral não foi educada a administrar o vínculo familiar, quase sempre a gravidez vem por um “decreto” chamado “acidente”, o que torna a concentração e formação do lar comprometida e prejudicada. Por quem? Por todos! A partir do momento em que existe uma relação sexual, os executores devem se atentar ao cuidado e à possibilidade do inesperado. Considerá-lo um acidente é a maior falta de respeito ao ente que os próprios criaram. Isto se chama covardia. Por outro lado, a proibição do aborto por leis, iniciativas cruéis de autoridades e pior, pelas religiões… é complicado.

Como anteriormente descrito, o problema é de todos. Como é proibido no Brasil, o retrato do grande preconceito velado, o aborto – em sua quase totalidade – é clandestino, os “profissionais” que cometem esta experiência médica, como agem fora da lei, não têm recursos adequados, modernos e seguros para tal função, o que o torna ainda mais perigoso, traz riscos a saúde do filho e da mãe, e moralmente vincula os familiares e pessoas próximas.

O que para uns é um homicídio, para outros um erro convencional do excesso de conservadorismo humano. As leis não poderiam jamais ser generalizadamente aplicadas, porque tendo a visão do lado financeiro e/ou aquisitivo, tal morte viria depois; quando não vem, acontece a vergonha de crescer com a alimentação limitada, sem educação digna e sem o menor preparo emocional para encarar a vida como necessariamente é preciso. Coerente mesmo seria abraçar a temática apurando o que seria melhor para a sociedade.

O que é fora da lei é colocar em risco a vida de um filho. Perante a sociedade, o risco, além do filho, é também da mãe. Que abortem as leis.

João Lenjob *

Comunidade no orkut.

* João escreve aqui às sextas-feiras, quando dá pra esta editora aqui se organizar para publicar algo… Ultimamente tem sido difícil até vir aqui ver o que está rolando, quanto mais postar algo… E que venha a polêmica! Comentários! Queremos comentários! rsrs

Estação, ferrovia, estação

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Ouço um barulho muito alto soando longe, forte e vigoroso. Parecia um apito. E era: o trem iria partir. Corri pra estação, que eu cismava de chamar de “rodoviária”. Ferroviária, Ana, ferroviária.
A máquina, toda antiga e lustrosa, uma panela de pressão gigantesca e antiga, bufava vapor com cheiro de óleo queimado. A criançada toda empoleirada, os ambulantes vendendo cocada e entregando papéis, alguns vestidos com roupas antigas, de época. Outros sorridentes, tentavam seduzir pelo carisma. “Vamos dar um passeio de van quando chegar lá, doutor! Senhorita bonita, você vem também, viu?” Não, obrigada. Eu nem me dava o trabalho de responder. Nada daquilo me era novidade, mas trazia à mente lembranças de dias não tão distantes. Memória olfativa, visual, de sensações de um tempo em que tudo parecia mais fácil e mais incerto, mais feliz e mais nebuloso, ao mesmo tempo de maior expectativa… E como poderia prever que lá estaria eu outra vez?
Vagões de madeira, bancos duros e estreitos. Será que o povo naquela época era mais magro? Ou será que era mais gordo, e que aquelas poltronas eram somente para uma pessoa? Pensei. O rapaz que marcava os bilhetes informou que as cadeiras almofadadas já tinham sido todas ocupadas, e me contentei com aquele retorno no tempo. Afinal de contas, trem não balança tanto assim.
Os olhos, tais como câmeras nervosas de paparazzi em ação, não perdiam um ângulo sequer. De um lado, do outro, a estrada – ferrovia, Ana, ferrovia – cortava caminhos e desvendava paisagens que somente guardo na mente e no coração. A serra nos acompanhando, os campos, as matas, os riachos, as pontes, as flores… E de repente, uma invasão de sementes de dente-de-leão voa pelo ar de dentro da cabine e o sol, que já se deitava meio de lado, iluminava as faíscas de vida que brincavam por ali, como fadinhas preguiçosas.
Um sorriso no meu cabelo, um girassol no meu vestido, a montanha azul da cor do seu sol, bordado de suor e dor. Vento de estrelas, sinos invadindo o espaço, e uma fada pousou em meu nariz. Assoprei, voou longe a danada, e foi dizer que eu estou chegando… Que um dia eu chego lá!
Na estação, Ana. Na estação.
Onde a vida se repete.
Ana.