Estação, ferrovia, estação

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Ouço um barulho muito alto soando longe, forte e vigoroso. Parecia um apito. E era: o trem iria partir. Corri pra estação, que eu cismava de chamar de “rodoviária”. Ferroviária, Ana, ferroviária.
A máquina, toda antiga e lustrosa, uma panela de pressão gigantesca e antiga, bufava vapor com cheiro de óleo queimado. A criançada toda empoleirada, os ambulantes vendendo cocada e entregando papéis, alguns vestidos com roupas antigas, de época. Outros sorridentes, tentavam seduzir pelo carisma. “Vamos dar um passeio de van quando chegar lá, doutor! Senhorita bonita, você vem também, viu?” Não, obrigada. Eu nem me dava o trabalho de responder. Nada daquilo me era novidade, mas trazia à mente lembranças de dias não tão distantes. Memória olfativa, visual, de sensações de um tempo em que tudo parecia mais fácil e mais incerto, mais feliz e mais nebuloso, ao mesmo tempo de maior expectativa… E como poderia prever que lá estaria eu outra vez?
Vagões de madeira, bancos duros e estreitos. Será que o povo naquela época era mais magro? Ou será que era mais gordo, e que aquelas poltronas eram somente para uma pessoa? Pensei. O rapaz que marcava os bilhetes informou que as cadeiras almofadadas já tinham sido todas ocupadas, e me contentei com aquele retorno no tempo. Afinal de contas, trem não balança tanto assim.
Os olhos, tais como câmeras nervosas de paparazzi em ação, não perdiam um ângulo sequer. De um lado, do outro, a estrada – ferrovia, Ana, ferrovia – cortava caminhos e desvendava paisagens que somente guardo na mente e no coração. A serra nos acompanhando, os campos, as matas, os riachos, as pontes, as flores… E de repente, uma invasão de sementes de dente-de-leão voa pelo ar de dentro da cabine e o sol, que já se deitava meio de lado, iluminava as faíscas de vida que brincavam por ali, como fadinhas preguiçosas.
Um sorriso no meu cabelo, um girassol no meu vestido, a montanha azul da cor do seu sol, bordado de suor e dor. Vento de estrelas, sinos invadindo o espaço, e uma fada pousou em meu nariz. Assoprei, voou longe a danada, e foi dizer que eu estou chegando… Que um dia eu chego lá!
Na estação, Ana. Na estação.
Onde a vida se repete.
Ana.
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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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