Sombrinha ou guarda-chuva?

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Dia de chuva...

Dia comum, como outro qualquer, a começar pelo tempo doido que tem feito neste mês, calor excessivo, chuvas fora de hora, etc. O trabalho nunca é de menos, sobra dia no meu diminuto tempo. Comi a maçã cotidiana (“eat an apple a day and keep the doctors away”) e fui bater perna pra casa. Pessoas ainda implicam com minha insistência em caminhar… Emagrece, é de graça, ‘desestressa’ e é melhor que pegar ônibus ou pagar estacionamento, oras!

Justificativas a postos, tênis também. E a roupa própria de caminhante, óbvio. O mochilão carrega tudo que não deveria carregar: carteira, celular, iPod, roupas de trabalho, scarpin de salto, bolsa de maquiagem, pen-drive… A garrafinha d’água vai também – mas isso é necessário, certo? A função shuffle do meu music player costuma me pregar peças: tocar Sinatra logo após o Fat Boy Slim, por exemplo, ou uma clássica de J. S. Bach logo após um rock n’ roll da pesada. Mas de vez em quando ele funciona muito melhor que qualquer DJ dos bons, e engata sequências fantásticas e nunca dantes imaginadas, com músicas que têm tudo a ver entre si, mas que nunca foram gravadas juntas num CD só. Neste dia, peguei uma dessas, e enquanto meu passo avançava, meu bem-estar aumentava e o set musical se encaixava com pensamentos, paisagens, sons urbanos. O cheiro de chuva recente aumentava minha a confiança de que escolhera o melhor horário para ir embora: logo após a chuva, o chão molhado, o ar fresco, as plantas limpas, enxurrada zero. Maravilha!

Na esquina da Praça, a libertina chuva desabou sobre o “Curral Del Rey”. Enquanto muitos corriam em desespero, carros buzinavam, gente se amontoava embaixo das marquises, puxei triunfante minha sombrinha de dentro do mochilão (como um guerreiro saca sua espada) – uma mulher prevenida vale mais que duas, quase pensei em voz alta. Segui caminhando com a valentia de quem estava já na metade do caminho, empunhando o leve guarda-chuva de alumínio, e que confiava demais na auto-previsão temporal, de que os chuviscos seriam apenas uma pancadinha de verão e logo logo iriam passar.

Só que a tal ‘pancada’ virou rios e lamaçais… Quase tombei várias vezes, fiquei ilhada noutras, e por pouco não fui engolida por algum bueiro. O celular tocou num dos trechos mais críticos (claro, pois ele nunca toca quando você pode atender), quando a cachoeira – enxurrada – me impossibilitava de andar pela calçada e tive que subir a rua na contra-mão desafiando o trânsito.

Neste momento, tinha que atravessar uma larga avenida. O senhor de camiseta branca que caminhava sem o guarda-chuva amarelou no canteiro central, em frente à pororoca do Rio Amazonas que tomou o asfalto, deu meia-volta e me recomendou que fizesse o mesmo. Vá por outro caminho, por aqui não dá. Segui em frente. Até eu fiquei abismada com a destreza com que driblava as ondas do “rio”, não conhecia este meu lado pescadora do “Velho Chico”!

Consegui alcançar a outra margem. E aí?
E aí que chuva simplesmente PAROU no exato momento em que pus meus dois pés na calçada, do outro lado das cataratas do niágara, nenhuma gota a mais caiu do céu, as enxurradas secaram imediatamente, e o que antes era um rio, nem riacho ficou.

O resultado, em que pese a maquiagem intacta: cabelo desgrenhado, nenhum arranhão, alguns espirros na manhã do dia seguinte, muitas roupas e sapatos e tênis e mochila molhados, mas a certeza de que poderia ter morrido afogada numa enxurrada, como se já não bastasse ser chamada de pintora rodapé!

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)
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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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