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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

O mineiro e o filme

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Era uma vez, um mineiro com sua esposa e sua filha na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Chegaram cansados da viagem que durou 3h30min, da capital até a pequena cidade onde acontecia o festival. Após alguns passeios andando pelas vielas de chão de pé-de-moleque, resolvem entrar na tenda principal, onde um longa metragem era exibido.

O filme já tinha começado há alguns minutos, mas o segurança não deixava viv’alma entrar na sala de cinema. Estranho! – falou o mineiro – em qualquer outro cinema do mundo a gente pode entrar na sala depois que o filme começou!, insistia com o segurança.

O moço, um tanto truculento, retrucou que cumpria ordens, que o mineiro havia chegado atrasado, não podia liberar a entrada.

O mineiro ficou furioso! Saiu para dar uma volta pela tenda para esfriar a cabeça com a esposa e a filha. Até que, não mais que de repente, apertou o passo e entrou escondido pela porta de saída do cinema. A filha e a esposa pararam estupefatas, observando a cena.

Então surge o segurança, que corre atrás do mineiro, que já tinha entrado por trás do pano preto. As outras pessoas que observavam do lado de fora se surpreendem com a cena pitoresca, algumas riem da atitude do mineiro, outras aplaudem, todas comentando entre si. Muitos também estavam indignadas com a proibição sem razão de ser e com a má educação do segurança. (Provavelmente, invejavam a atitude do senhor mineiro quebrando as regras, o único com iniciativa!)

Segundos depois, reaparecem do meio da cortina preta, lado a lado. Mineiro e segurança. Aquele discutindo e gesticulando. Este respondendo que “outro dia mesmo, um diretor de cinema foi barrado durante a exibição do próprio filme, pois tinha chegado minutos depois da hora marcada”.

Alguns poucos minutos depois, a diretora do filme, que ficara sabendo do ocorrido, manda liberar a entrada para os que quisessem – havia cadeiras vazias sobrando lá dentro do cinema, ora! Várias pessoas entraram, pela porta da frente, com ar de – Venci!, quando se viravam para o segurança.

A esposa do mineiro dormiu nos primeiros 2 minutos após terem se sentado no escurinho do cinema. Acontece que o filme era um tanto experimental, abusava de cenas escatológicas e tinha uma história meio sem pé nem cabeça, sombria, soturna.

O mineiro e sua filha, enojados, acordaram a esposa-mãe e, dito isso, não demoraram nem 10 minutos lá dentro. Ao saírem, dão de frente com o segurança, que os olhava torcendo o nariz e resmungando por dentro.

Um filme, muitas risadas, uma carranca. E mais uma história pra contar.

(A 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi um sucesso, com muitos filmes – longas, curtas, de ficção e documentários – produzidos no Brasil de excelente qualidade. O mineiro já foi em quase todas as edições, voltará ano que vem, e recomenda o passeio!)

Ana.

(Texto e fotos: Ana Letícia.)

Poeira em alto mar

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Era um típico sábado de verão. Dia lindo, nenhuma nuvem no céu, sol escaldante, piscina, churrasco, cerveja gelada, rock n’ roll nos ouvidos e muita conversa boa.

Ao percebermos que o carvão e a cerveja estavam chegando ao fim, apelamos para o “disque-birita”, segundo ele, a melhor invenção da humanidade depois do youtube. (Para mim, quem ganha é o google. Mas, foquemo-nos.)

Campainha tocando é sinônimo de cachorros latindo, ou seja, mais um carregamento da dita cuja sendo entregue pelo motoqueiro, o qual nem ousa desembarcar propriamente em razão de canelas calejadas das investidas frenéticas dos cachorrinhos de guarda e companhia. Estes, nos protegem de tudo – talvez até de nós mesmos, ao tentarem impedir a entrega dos comes e bebes (mais bebes que comes, em verdade).

Meu namorado me grita de lá: – Rápido! Segure a Miúda! – referindo-se à pequena fox com síndrome de pit-bull.

Eu, um pouco relutante – pois usava trajes de banho – e pensando que o escândalo canino era simplesmente em razão do pobre do motoboy encarregado das cervejas, como já era costume da pequena Miúda e dos demais cachorros da casa, me dirigi ao local lentamente, porém curiosa. Foi então que avistei meu namorado, imóvel junto à porta, carregando não só as cervejas e o carvão, mas também uma montanha de 1 metro de roupas empacotadas.

Pensei, por um instante, que fossem trouxas limpas da lavanderia ou algo do tipo, mas tudo aquilo não me fazia qualquer sentido pois sua mãe havia colocado roupas na máquina para lavar naquele mesmo dia, pela manhã. Ao mesmo tempo, alcancei Miúda debaixo de uma mesa baixa, e a prendi no colo: – O que é isso? – apontei para o embrulho.

Meu namorado, com olhos faiscando de satisfação, com aquele monte de roupa de inverno nos braços, responde, em tom de voz baixo, como que em segredo: – É um gajo português aí na porta, vendendo jaquetas de couro!

Até eu entender que, de fato, se tratava de um vendedor de roupas, cuja nacionalidade era portuguesa, demorou mais que um instante pois, até então, meu raciocínio lentificado pelo sol do meio-dia não conseguia fazer a associação CALOR + CERVEJA + PISCINA + VERÃO NO HEMISFÉRIO SUL com a equação JAQUETA + COURO + PORTUGUÊS + INVERNO. Sendo assim, pelo bem da típica piadinha de brasileiros x portugueses (colônia x colonizadores, e por aí vai), pensei que só poderia mesmo ser um “português” querendo vender tal tipo de vestimenta no alto verão fluminense.

Mas eis que o sujeito desconhecido entra na casa e me cumprimenta, carregando no típico sotaque d’além mar. E só então pude perceber a razão da felicidade do meu namorado. Esta não residia nas ditas jaquetas de couro de antílope (como jurou o patrício), mas sim na rara possibilidade de um conto ou crônica baterem – literalmente – a campainha de sua porta.

Garanto que o português não saiu de lá muito feliz, afinal de contas, nem mesmo abaixando o preço de absurdos R$ 1.700,00, para não módicos R$ 150,00, ele conseguiu a venda.

Mas sua presença, além deste texto, nos rendeu boas risadas após a porta se fechar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Saudosismo…

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Da Dor de se Amar Demais
(Texto publicado originalmente aos 22.10.2007.)

Poderia me abstrair de tudo e dizer, e acreditar, simplesmente, que me basta um amor tolo, como o tempo de duração do filamento de uma lâmpada comum, tácito, plácido, de desejo, pura e simples, explícito em tons pastéis, lânguido e preguiçoso. Não, não posso. Não sou assim.

Não costumo economizar. Há de sobra empolgação, falta de noção. Sou moça de horas, de dias, de anos, anos-luz. Mulher da dor de se amar demais e de se entregar, de ser perfeccionista com tudo o que faço e sinto.

Não há nada pela metade. Meias-palavras, meia foda, meia-calça. Meia-luz, pode até ser. Mas nem 8, nem 80. Ou é ZERO, ou é CEM. E vou de 1 segundo a 1000 km/h (e vice-versa) de olhos fechados, na fração de um momento, na feição, na emoção, no olhar, na letra, na ponta dos pés, no pingo do i. E é aí que mora o perigo!

E de tanto querer, há tanto sofrer. Tanta responsabilidade, tanta dor. E há tanto prazer… E há o lembrar, e há o sentir, e há o cheirar, e há o gostar. Pois não há amor sem gosto, lembrança sem cheiro, música sem gozo.

E depois daquele beijo, há a quebra. Há o limite ultrapassado, e tudo se torna tão bom quanto uma fotografia perfeita, a luz que aquece e ilumina seus loiros pelos, como num quadro de um filme, como um filamento de ouro deliberadamente largado, esquecido, sobre suas vestes… E tudo fica tão engraçado quanto numa comédia de palhaços tristes, tão natural quanto deitar na relva e sentir o cheiro da chuva, acariciar seu cão, dormir abraçadinho, mesmo quando não se está com sono, comer banana com queijo e lamber o fundo do prato até não sobrar um resquício de amor sequer.

Ana.

Texto e Foto: Ipê Amarelo: by Ana Letícia.

Calos

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Congresso Nacional 8

Me falaram da minha sensibilidade
Por onde ela anda?
Endurecida pelos tropeços
Acertos
Repetições
Calos que se formam aos poucos
Aos montes
Na alma
A calma
Me falta.
Ânimo
Cansaço
Palavras soltas pela madrugada
E o pedaço de papel que nunca está lá
Ou é a preguiça que sobra?

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

As melhores surpresas

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17:30h, no ponto de ônibus. Line sai do trabalho aliviada por não ter ficado nem um minuto a mais, e posta-se a esperar o Circular 01 – Contorno, para voltar para casa. Posta-se de costas pro passeio, de pé, olhando em direção ao outro lado da rua, onde pessoas pedalam bicicletas sem sair do lugar, dentro de uma sala fechada com luzes de boate: spinning in door, na Academia Corpo em Forma. Pensa rapidamente que está cansada demais de tudo pra aguentar uma ginástica destas após o trabalho.

Tato chega com sua mochila. Encabulado e exausto, toca no ombro de Line e sorri com os olhos.

Line se vira assustada, e se espanta mais ainda ao ver Tato bem ali na sua frente. O abraça imediatamente, dando-lhe um beijo estalado no pescoço, próximo à orelha. Sente seu cheiro, escondido atrás dela, próximo do cacho de seus cabelos castanhos: shampoo de camomila, sabonete neutro, cravo, canela, homem. Os mesmos cheiros que ela sentira em seus livros, seu quarto, suas cartas. Ela se lembrava…

As bochechas rosadas dele não a deixavam enganar, corado de timidez e felicidade, tudo ao mesmo tempo. Trazia ainda um envelope murcho em sua mão molhada de suor, ansiedade que ele tentava disfarçar.

Estende a mão com o envelope em direção a ela, ainda encabulado, fitando o chão.

Line procura seus olhos e toma o envelope. Ele levanta a cabeça e a encara, respirando fundo. Com a outra mão, ela segura a mão livre dele, gelada. O abraça novamente, emocionada. Carinhosamente, ele toca seus lábios num beijo doce e leve. Ela sempre adorou o jeito meio sem jeito que ele a beijava quando não sabia o que fazer.

Ela abre o envelope, endereçado a ela. Dentro, um pequeno bilhete. Os dois se olham e sorriem.

Ela finalmente retira o bilhete de dentro do envelope, dobrado ao meio, o abre e então vê a foto dos dois, do último encontro, impressa em branco e preto. Embaixo, a letra dele, cuidadosamente grafada com caneta de tinta preta:

AS MELHORES SURPRESAS SÃO AS QUE VÊM DO CORAÇÃO.

Ana.

* Texto publicado originariamente em 27/07/2007.

Compasso Poético – Capítulo 1

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Pelourinho em Chuva (*)

O Largo do Pelourinho

Casa de Jorge Amado

Cores do Pelô

Paisagem que se revela depois a chuva

Jorge Amado no Largo do Pelô

Pássaro sacro

Reflexos

Edifício salmon

Patrimônio a recuperar

Zumbi na chuva

Prédios Coloridos

Janela famosa (**)

Varandas centenárias

Guardião do Amado

Entrada vigiada

Portões do saber

Tijolos no Chão

Grades d’água

Um olhar mineiro sobre terras soteropolitanas, e a chuva caindo a lavar as cores do Pelourinho… Consegui um grande número de fotos, todas feitas pelo meu iPhone, e o resultado está aí. O Castelo ficou mais axé enquanto eu passeava a pé – a melhor maneira de conhecer o Pelô, de guarda-chuva em punho e com um olhar clínico para cada canto, beco, janela, caminhos pisados por Zumbi. E semana que vem tem mais!

Ana.
www.mineirasuai.wordpress.com
www.castelodopoeta.blogspot.com

(**) Alguém aí se lembra do vídeo-clipe do Michael Jackson da música “They don’t care about us”, gravado em parte no Pelourinho? Pois é, esta janela famosa da foto é a mesma em que ele, MJ, o finado Rei do Pop, aparece no clipe!

Fotos publicadas no Flickr.

(*) Publicado originalmente no Castelo do Poeta.

Olhando nos Olhos

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Hoje, 14 de março, é o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem a Castro Alves.

Nos seus olhos” não foi o primeiro poema que declamei. Sempre gostei de brincar disso, mas nunca havia tentado em frente a uma câmera ligada apontada para mim – me sinto mais à vontade atrás das lentes.

O feito inédito foi presente do primo poeta João Lenjob,  projetando seu próximo livro, Verso Liso.

Mais sobre este e outros projetos no Castelo do Poeta.

Espero que gostem…

Ana.

De como estrear um moleskine

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Páginas em branco me intimidam. Causam espanto e um certo desconforto ao escrever. O caderno limpo, claro, me encara e é como se fosse a primeira vez na vida a ver aquele monstro cheio de pautas, margens e linhas a preencher.

Me arrisco com uns poucos garranchos de uma mão mais acostumada a digitar.

É verdade. Os manuscritos mal fazem parte do meu mundo atual. Mas são tão diferentes, estimulam tanto… Havia me esquecido de como a caneta na mão siginifica palavras tomando vida própria, brotando de pensares e sonhares, apesar dos pesares…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Pausa.

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De vez em quando o peito aperta, como se fosse um mau pressentimento ou algo do tipo.

Na noite de 11/01/2011 não foi diferente. Resolvi telefonar. Liguei uma, duas, três vezes. Caixa postal.

Na quarta tentativa, não foi ele quem atendeu. Me foi dito que ele estava em uma situação delicada, impossibilitado de falar ao telefone. Veio uma pontada em meu peito, a certeza de que algo estaria acontecendo.

Hora e meia depois atendi meu telefone. Desta vez era ele quem ligava, dizendo que já estava bem. O problema havia sido um defeito na fechadura do banheiro, que o deixou alguns (muitos) minutos trancado por dentro. Culminou com a desmantelação das dobradiças, para que a porta se abrisse, com direito a ferramentas pela janela e tudo mais.

O pior havia passado, pensei. Mais calma, dormi.

No dia seguinte, em meio aos afazeres profissionais, fico sabendo por e-mail que Teresópolis, Nova Friburgo e Itaipava (Petrópolis) estavam caóticas por causa das chuvas…

O resto virou história: http://olhaosemblante.blogspot.com/2011/01/voltemos.html.

Ana Letícia.

Ps. 1: Foto tirada em abril/2010. Assim era o rio em Itaipava que destruiu o Vale do Cuiabá na enchente do dia 12/01/2011.

Ps. 2: Para ajudar as vítimas da enxurrada que varreu a Serra Fluminense, acessem o G1.

A pedra

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pendente na janela

E quando no meio do caminho tem uma pedra
Dê um pontapé
Um salto
Contorne
Passe por cima
A pedra continuará lá
No meio do caminho
E haverá outras pedras
Maiores e menores
No seu caminho
Haverá também oásis e poços profundos
Haverá rios caudalosos
Riachos
Quem sabe até, cachoeiras
Um oceano de distância
Um mar de possibilidades
No caminho do meio.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)