Arquivo da tag: poesia

O outro

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O outro chega e me aconchega
Só quero afundar em seu peito
Acarinhar para sempre seus cabelos
Conversar até o infinito e além
Sentir seu abraço me derreter
Em um momento que antecede o beijo
Em que sua barba me espeta carinhosamente
E sua respiração coincide com meu descompasso.
E então sentir-me-ei entregue e indefesa
Aterrorizada pela impossibilidade
Do choque de realidade de não poder
E então me frustrarei
E me recolherei
Na dor de nunca ser.
Dois pássaros voando
Desejo de criar asas…

Pássaros

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.
* Todos os direitos reservados *

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Para trás

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arco
Não volto nunca mais, ele disse.
(Quero voltar…)
E ao ir embora, perguntou se não tinha ficado nada para trás.
Nada, respondi.
Ficou tudo, pensei.
Seu cheiro, seus pelos, seu lugar na cama, seu vazio, seu inteiro.
A ausência de sua voz, nossas brigas, seus abraços, meus cabelos em teus braços.
A toalha usada, a roupa de cama suada, minha camisola surrada.
Pegadas pelo chão.
Um coração.
Eu.
Só.

Texto e foto: Ana Letícia.

Borboleta e metal

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Ainda sinto seu abraço
E seu corpo no meu
Ainda sinto seu beijo
Tímido
E seu rosto limpo
De sabonete de mel
Saboreio sua voz
Vida em seu canto
Música de borboleta e metal
Desço do salto
E nas pontas dos pés
Danço em seus braços
E então sorriso nos olhos
Contidos
E no canto da boca
nasce
Um poema.

Ana.

A Queda

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É sempre assim, grandes expectativas, maiores decepções
Acontece com uma festa que não é nada daquilo que você esperava, um almoço que nao aconteceu, um beijo que não se encaixou.
Quantos tombos terei de levar para aprender a não cair mais?
Quantas vezes mais me levantarei?
Fico cansada da vida, do tombo, do mundo
E então começa tudo de novo
A vida segue
Esqueço do tombo
Esqueço de mim
Caindo, levantando, entre erros e acertos.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Disfarce

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Boca

Levanta-se no meio da noite, pega o caderninho e rabisca um recado que ele não receberia, um desabafo que ela não conseguira verbalizar. Foi mais ou menos assim:

– Vou dizer de uma vez só
A minha timidez disfarçada de mulher mutante
Hiperativamente altiva
Espera mais que um sinal
Não tenho prática em decifrar enigmas
Não estudei quiromancia
Meus olhos apenas vêem o que o rosto deixou de esconder
Ouço as palavras ditadas
E minha mineirice, desconfiada, dá um grito de alerta
Antes que eu pule no precipício dos teus braços até não ter mais volta.
Com os dois pés atrás, piso em falso
Mais um entorce e mudo de caminho
Erro a direção
Ando sem poder andar
E me calo ante o inesperado.

E assim, sem um desfecho, ela fecha o caderno, guarda o lápis num canto do criado-mudo, vira-se para o outro lado da cama, sozinha, e volta a dormir.

Outro dia nasce, mais outros tantos se vão, e após uma tarde de chuva com sol, de papo bom, algumas indiretas despercebidas e um pouco de mistério, ele se despede sem um beijo – de novo!?, pensa ela – e ambos se viram em direções opostas, caminhando sem olhar para trás.

Ana.

Texto e foto: Ana Letícia.

Mulher Tola

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Frôzinha

Sorriso no canto dos lábios
Por quase nada
Ou por tão pouco
Dormir suada e acordar assustada
Pelo sonho que sonhei só
E agora o olhar se faz sorrir
(Mesmo sem correspondência)
E o nó na garganta se aperta
Para não escaparem as borboletas
Para não se espalhar a vontade… de escrever poesia
O que não me torna poetisa
Mas, sim, uma tola mulher
Vê se pode?

As borboletas voltaram
Junto a elas engulo saliva seca
Vontade de sair
De pular
De gritar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Entre nuvens

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Cristal nublado

Vejo nuvens sobre mim
Tudo enquadrado
Vejo migalhas sobre a mesa
Nada doce
Nada em mente
Frutos verdes que despencam
Tal palavras sem sentido
Atenção que disperso sobre inanimados desenhos
Se me mostro sou errada
Me recolho e pioro
E a cada dia um cristal que se quebra
Uma gota que cai
E enche um copo
De esperança
De lágrimas
De sorrisos
De verbos soltos.
Abraços rotos
Tapinhas nas costas
Nunca mais.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Quando o blues se torna jazz

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Bacen, na chuva, na rua, pela janela do carro... (Quase submerso!)

Se te adoro por quase um minuto
Depois te odeio mais
Te ligo e desligo
Te vejo e me escondo
Te ouço e não sei o que dizer
Ouvindo blues, as lágrimas embargam vozes
e ouço do rádio: “I ain’t gonna worry my life anymore…”

Os gritos da vizinha não me acordam mais
Se penso muito, me confundo mais
E minha antena mal capta os sinais
Loucos, confusos, poucos

Perco a capacidade
Perco o sono
Perco o amigo
Perco a piada
Viro a piada nos meus pensamentos
Tão corajosa e franca
Tão diferente e medrosa
Fora deles
Sou grossa, sou bicho
Ora doce, ora aguardente

Me excedo menos que queria
Me contenho mais que deveria

Até achar um meio termo
Meia noite já passou
Não vejo estrelas pois meu céu não permite

E quando o blues se torna jazz
É preciso me despedir
Calar a boca e saber ouvir.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Poente

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Memorial JK 9

Um passarinho me contou
Que parou de chover
Contou do Sol e do seu sorriso falso
Da Lua e sua cara fácil
De suas palavras vazias e sua vida dupla
Nada era novidade
Só não quero ouvir o canto do pássaro
Não mais
Não caio no conto da carochinha
Que de carolinha não tem nada
Esqueço o mundo
Esqueço as horas
Mas não esqueço quem eu sou
Minha escola
E minha alma.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Torção e Distorção

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Containers e carro em movinento... #RJ #porto #rio

O não pertencer a lugar nenhum
E a ninguém
O não saber o que virá
Ou sentir
O não poder interpretar
Como agir
Ser forte e frágil
Alegre e triste
Ao mesmo tempo agora
E sempre
Ser poeta ou realista
Bailarina ou pessimista
Duas faces numa mesma moeda
Reluzente e suja
Valiosa e ordinariamente incomum
Ser
ou não ser
eu?

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)