Ana.
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Trapalhadas e Piruetas
enrola, enrola
chega, vai, volta
aparece um e outro
mais fogo
vem bombeiro pra apagar
vem vidente pra encomendar
a alma do sujeito
o ferro
o lero
o corpo
o vento e o pó
que sopro das ventas
do faz-de-conta e do amor
que ficou pra trás.
Do alto daquele morro
(Som na caixa – para ouvir a trilha sonora, aperte o play…)
Não querem saber quem ela é
O que ela sente?
Para onde vai?
O que ela quer?
E eu… dou de ombros, pego o ônibus, e assim como ela, vejo o mundo girar.
Penso em nuvens e ouço mil vozes diferentes,
Respondo, mas sem nunca ninguém ouvir,
E ninguém repara nela.
Olho pra mim mesma e vejo minha cabeça girar.
E a boba no alto do morro, onde passa boi, passa boiada
Passa rente ao mundo, que gira
gira
gira…
Ana.
(Texto e foto.)
Tsunami
Mexo e torço e quebro o copo, revido com um tiro em sua cara de pau. Pega de raspão e me tira do sério, me deixa na mão. Maremoto vai embora e me vem um tufão? Que corre e gira e revira a areia, levanta a poeira e joga tudo no chão… E caem por terra sonhos de pó de arroz e maquiagens de faz-de-conta, será que nunca mais poderei me pintar?
Preciso de um band-aid pra me curar da ressaca que a pororoca me traz. É muita reviravolta, é muita montanha-russa, é muito sobe e desce e sobe de novo, e gira e torce e puxa e volta. É muita água e muita areia prum caminhãozinho tão pequeno, coitadinho, desses que se acham os verdadeiros “formula truck” e atropelam cadilacs cor-de-rosa enfeitados de pérolas marfim. Mas no fundo no fundo, não passam de briquedinhos em mãos de crianças grandes e perversas.
Adeus maremoto insano.
Adeus pororoca sem fim.
Adeus tufão sem rumo, joão-bobo e caminhão.
Melhor é ser borboleta e ser mais leve que o ar.
Melhor é ser libélula e numa gota d’água flutuar.
Melhor é ser beija-flor e parar o tempo no ar.
Ana.
(Texto e foto.)
Brincando
Gosto de brincar que ser feliz. Me pinto e me viro do avesso. Faço chuva doce e arco-íris de mel. Enxergo passarinho verde, azul e multicolor. Falo sozinha, com o vento, rio de mim mesma, da minha cara de besta, e volto a sonhar.
Gosto de guiar os olhos e os olhares. Me enfeito e me faço mulher. Me acompanhe se puder, sou moça fatal, encontro mortal entre o bem e a boa, cara e boca, vem me beijar.
Anoiteceu e sou gata borralheira. Virou manchete e preciso descansar. O caso é outro, não posso me atrasar. Sono da beleza me espera, jeito simples a me convencer que o melhor é fazer chover, caçar arco-íris e ouvir passarinho cantar, sino a tocar, céu a brilhar, horizonte a escutar, faz-de-conta pra brincar.
Sou feliz, tenho onde me deitar.
Ana.
(texto e foto)
Concreto em flor
De vez em quando a saudade te engana, diz que vai embora. Aí fica escondida atrás da porta, só te esperando voltar da rua, pra te ver nua e exausta e frágil e sem graça. Te assusta quando te toma de assalto, pula em frente e te rouba tudo o que é mais seguro. Invade sua bolsa de pele humana, e te torna menos gente do que já é. Explode em sua cara santa um sorriso sarcástico, te nega, te condena, te oprime. É amiga dos minutos, daqueles em que não se tem nada pra fazer. É silenciosa no chegar e alarmante no ficar. É bicho, renegado, nunca se vê mas sempre te segue como uma sombra na penumbra.
Nunca vai embora? Nunca se supre? Não se substitui? Apenas permanece ali, perene, quieta, latente. Enchente nos períodos de pororoca emocional, chuvas intermitentes que assolam a região do pensar, o vale do sonhar, e o norte do estado do vagar. Até que vem a seca que te resseca por dentro, te suga as energias todas e te fazem sucumbir a ela, a saudade, novamente.
Um broto verde surge em meio à lama do rio seco. Um fio de teia de aranha se enfeita de orvalho, como um colar de pérolas no colo de uma moça da realeza. E a libélula pisca os olhos – se é que libélulas piscam os olhos – e se lembra que viver é sofrer, viver é doer, é sentir, é sonhar, é morrer a cada segundo e ressuscitar no instante seguinte ao inspirar perfume de gardênias, mel em flor e baunilha fresca!
Peço licença aos meus devaneios e me pego a caminhar por entre praças, ruas e carros. Algumas buzinas e gotas da chuva que já vem. Nem me importo. Estou na chuva é pra me molhar.
Eu vejo
Vejo que basta uma gota de sol pra transbordar o sentimento, uma mão na mão do amigo pra debulhar lágrimas, silêncio e sorte. Vejo a chuva ao longe, chegando devagarinho, e vejo o tímido luar querendo nascer depois do sol morrer. Vejo laços se formando, me envolvendo, acalentando, laços fracos, laços de fita vermelha e branca, laços com nós, apertados nós, entre nossos mundos e fundos.
Vejo a serra ao fundo, a neblina mansa, branca massa de ar frio que me seca o cabelo e chega como fios brancos na velhice da montanha tardia. Cãs de dúvida e preocupação…
Vejo e antevejo sonhos, o amanhã que já vai chegar, a rotina a retomar. Vejo gritos e sussuros roucos, vejo beijos poucos e trabalho a galopar. Vejo um terno a se formar, termo a reciclar, eterno suspiro de uma mente a relembrar, vejo a tela, a vela, a dipirona e o colar. Vejo a gota a brotar no seio da pétala, do pêssego, do bêbado a cambalear.
E vejo como é simples o amar. Como é puro e é belo o sonhar. Vejo como é fácil e difícil ao mesmo tempo o cuidar. Vejo a vida a passar e o tempo a cacarejar.
Triiiimmmmmmmm… É o alarme a soar. O bolo deve estar assado, não pode queimar.
Ana.
***
Extra! Extra!
Inté…
Ana.
Estação, ferrovia, estação
Escrivinhadeira
Está cansada, tonta, ressacada, amassada, batida, moída, rouca, mas ao menos ainda respira.
Esta Aninha, tão pequenina, já não rabisca mais…
Está murcha, zonza, mole, acabada, acabando, atropelada, morrendo, matando, tentando sobreviver.
Não mete nem com um canivete!
O coração, um furacão preso entre dois pulmões, ileso não é.
Cicatrizes tomam tudo, como tatuagens que marcam para sempre a fronte que envelhece com o tempo.
E sua rala vida ainda persiste; sua saia, já não levita mais.
A alma entalhada, rasgada, cortada, parece um espantalho em forma de gente.
Traz um urubu como amigo num ombro, e no outro uma vara de pescar.
Pesca sonhos e tempestades, pesca cruzeiros no mar.
Danada, safada, esperta a Aninha, fala o que a boca tem pra falar.
Fere e é ferida, sofre de morte morrida, noite sem estrelas e jardim enluarado.
Aninha é amiga, Aninha é demais.
Aninha, escrivinha mais?
Lá vai ela a rebolar, a soltar flechadas de verdade pelo ar.
Balas perdidas de caramelo e menta, pimenta malagueta pra temperar.
Não machucam, são de festim.
Festinha da Aninha, sempre a comemorar. Temporizar. Compreender.
Agora Aninha não quer nem mais escrivinhar.
Adeus, Aninha, vou desmaiar.
Aninha se cansou.
Aninha estafou.
Aninha mandou tudo pra puta que pariu.
À merda com essa Aninha.
Meu nome é Zé Pequeno, porra.
Ana.
Vai ver é assim mesmo…
“Quero te encontrar mas não sei onde estou.
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo, longe desta confusão e desta gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui.” *
Todos falam ao mesmo tempo, ninguém se respeita. Não ouço minha própria voz, e nem a sua, perdida no meio deste chororô que não tem fim. Pare de gritar e de chorar de uma vez por todas, veja que o sol ainda brilha, e se olhe no espelho enquanto olha para mim, e veja a pérola no olhar, o sol a iluminar seu sorriso de canto de boca, o mesmo que deixa transparecer o furo mais profundo na bochecha.
E quando decido de uma vez por todas seguir o meu próprio furacão em forma de coração, e quando todo o universo parece conspirar para que tudo dê certo, e quando te avisto lá no fim do caminho de braços abertos a me esperar, e sei que estou chegando perto, cada vez mais… É que tropeço num riacho cheio de pedrinhas, caio de bunda, faço cara feia, enxergo peixinhos nadando no aquário ao seu redor, vejo capetinhas e anjinhos, e tem montes deles do sexo feminino também. E é neste exato momento de loucura e ansiedade total que você toca na água corrente com delicadeza, e de uma só vez faz espirrar um jato dela bem na minha cara, e me acorda de meus devaneios.
Então sigo em frente, tateando por lugares escuros, muitos sem paredes e corrimões. Desço alguns degraus e subo outros tantos. Não sei para onde vou. Onde estás?
“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre. Está ficando complicado e ao mesmo tempo diferente. Estou cansado de bater e ninguém abrir.
Você me deixou sentindo tanto frio! Não sei mais o que dizer!” *
Texto e foto: Ana.






