Arquivo da tag: devaneios

De estrelas e de sonhos

Padrão

Me dá uma estrela, quero sorrir. Uma estrelinha só, com pó de ouro e diamantes, sorriso de pérolas e cabeça de flor pra enfeitar. Quero a minha própria, sozinha a brilhar. Um asteróide, quem sabe, com campo de futebol e rede pra brincar.
Me dá uma rosa, quero invadir. Uma rosinha só, com perfume de encanto e gotas de orvalho. Pequenas jóias de riso e marfim, espinhos carinhosos no caminho tortuoso de seres tão minúsculos quanto eu. Uma azaléia, quem sabe, com pétalas dobradas e sardinhas cor-de-rosa a lhes enfeitar.
Me dá um carneiro, com ele quero partir. Um carneirinho só, com seus pêlos de algodão, guardado numa caixinha junto a grãos de alegria pra nos alimentar. Quero sorrisos no céu, quero noites com luar, não quero pedaços, quero gente pra contar nos dedos das mãos e dos pés. Quero brincar de sonhar, sono de criança, anéis pra enfeitar.
E quando o frio partir, e quando a chuva chegar, e quando o céu se abrir, e quando o mar namorar, quero estar aqui no ventre das folhas, no cheiro de terra suada, no sorriso estelar.

Ana.

Trapalhadas e Piruetas

Padrão

Vai começar!!!

Segura a onda mas se atrapalha
enrola, enrola
chega, vai, volta
aparece um e outro
mais fogo
vem bombeiro pra apagar
vem vidente pra encomendar
a alma do sujeito
o ferro
o lero
o corpo
o vento e o pó
que sopro das ventas
do faz-de-conta e do amor
que ficou pra trás.

Ana.
(poema e foto)

Do alto daquele morro

Padrão

(Som na caixa – para ouvir a trilha sonora, aperte o play…)

A boba, do alto de um morro, parada, eterna
Não querem saber quem ela é
O que ela sente?
Para onde vai?
O que ela quer?
E eu… dou de ombros, pego o ônibus, e assim como ela, vejo o mundo girar.
Parada e só, vejo o pôr do sol (meu momento preferido)
Penso em nuvens e ouço mil vozes diferentes,
Respondo, mas sem nunca ninguém ouvir,
E ninguém repara nela.
Olho pra mim mesma e vejo minha cabeça girar.
E a boba no alto do morro, onde passa boi, passa boiada
Passa rente ao mundo, que gira
gira
gira…

Ana.
(Texto e foto.)

Tsunami

Padrão
Beijo

Maremoto sem razão, vem você sem explicação. Nem me pede licença pra chegar, invade arrombando portas e janelas, faz estardalhaço, zombaria. Me deixa tonta, irada, me joga baldes de água fria, me xinga, me aquece e ri da minha cara. Sou joão-bobo pra fazer-te rir? Sou cara-pálida pra me invadir?

Mexo e torço e quebro o copo, revido com um tiro em sua cara de pau. Pega de raspão e me tira do sério, me deixa na mão. Maremoto vai embora e me vem um tufão? Que corre e gira e revira a areia, levanta a poeira e joga tudo no chão… E caem por terra sonhos de pó de arroz e maquiagens de faz-de-conta, será que nunca mais poderei me pintar?

Preciso de um band-aid pra me curar da ressaca que a pororoca me traz. É muita reviravolta, é muita montanha-russa, é muito sobe e desce e sobe de novo, e gira e torce e puxa e volta. É muita água e muita areia prum caminhãozinho tão pequeno, coitadinho, desses que se acham os verdadeiros “formula truck” e atropelam cadilacs cor-de-rosa enfeitados de pérolas marfim. Mas no fundo no fundo, não passam de briquedinhos em mãos de crianças grandes e perversas.

Adeus maremoto insano.
Adeus pororoca sem fim.
Adeus tufão sem rumo, joão-bobo e caminhão.
Melhor é ser borboleta e ser mais leve que o ar.
Melhor é ser libélula e numa gota d’água flutuar.
Melhor é ser beija-flor e parar o tempo no ar.

Ana.
(Texto e foto.)

Brincando

Padrão

Gosto de brincar que ser feliz. Me pinto e me viro do avesso. Faço chuva doce e arco-íris de mel. Enxergo passarinho verde, azul e multicolor. Falo sozinha, com o vento, rio de mim mesma, da minha cara de besta, e volto a sonhar.

Gosto de brincar de faz-de-conta, que agora eu sou rainha e meu cavalo fala japonês. O castelo de palitos de picolé é minha casa de poesia, é descanso para a mente e perfume contra chulé. Meus conselheiros mudos dizem coisas indizíveis, e todos no reino, surdos, obedecem à boneca dos olhos de cristal.

Gosto de guiar os olhos e os olhares. Me enfeito e me faço mulher. Me acompanhe se puder, sou moça fatal, encontro mortal entre o bem e a boa, cara e boca, vem me beijar.

Anoiteceu e sou gata borralheira. Virou manchete e preciso descansar. O caso é outro, não posso me atrasar. Sono da beleza me espera, jeito simples a me convencer que o melhor é fazer chover, caçar arco-íris e ouvir passarinho cantar, sino a tocar, céu a brilhar, horizonte a escutar, faz-de-conta pra brincar.

Sou feliz, tenho onde me deitar.

Ana.
(texto e foto)

Concreto em flor

Padrão

Saudade não se fabrica, saudade é presente no ausente, é constante, é cheio de vazio. Não é feita de tijolos de lembranças, nem de pingos de suor. É de pedras no meio do caminho, de poeira de sol, de estrelas no céu, de conta-gotas de mar. Saudade é concreta, saudade é companheira. É coisa, palpável, não se lava, se carrega consigo, como uma roupa que nunca se despe.

De vez em quando a saudade te engana, diz que vai embora. Aí fica escondida atrás da porta, só te esperando voltar da rua, pra te ver nua e exausta e frágil e sem graça. Te assusta quando te toma de assalto, pula em frente e te rouba tudo o que é mais seguro. Invade sua bolsa de pele humana, e te torna menos gente do que já é. Explode em sua cara santa um sorriso sarcástico, te nega, te condena, te oprime. É amiga dos minutos, daqueles em que não se tem nada pra fazer. É silenciosa no chegar e alarmante no ficar. É bicho, renegado, nunca se vê mas sempre te segue como uma sombra na penumbra.

Nunca vai embora? Nunca se supre? Não se substitui? Apenas permanece ali, perene, quieta, latente. Enchente nos períodos de pororoca emocional, chuvas intermitentes que assolam a região do pensar, o vale do sonhar, e o norte do estado do vagar. Até que vem a seca que te resseca por dentro, te suga as energias todas e te fazem sucumbir a ela, a saudade, novamente.

Um broto verde surge em meio à lama do rio seco. Um fio de teia de aranha se enfeita de orvalho, como um colar de pérolas no colo de uma moça da realeza. E a libélula pisca os olhos – se é que libélulas piscam os olhos – e se lembra que viver é sofrer, viver é doer, é sentir, é sonhar, é morrer a cada segundo e ressuscitar no instante seguinte ao inspirar perfume de gardênias, mel em flor e baunilha fresca!

Peço licença aos meus devaneios e me pego a caminhar por entre praças, ruas e carros. Algumas buzinas e gotas da chuva que já vem. Nem me importo. Estou na chuva é pra me molhar.

Ana.

Eu vejo

Padrão
Red flower

Eu vejo a pureza nos olhos da criança, vejo a vida nos olhos do idoso. Vejo quanto tempo se passou, quanto tempo vai passar. Vejo a alegria e a dor, vejo amor, vejo luz, vejo o passado e o futuro, a cavalo.

Vejo que basta uma gota de sol pra transbordar o sentimento, uma mão na mão do amigo pra debulhar lágrimas, silêncio e sorte. Vejo a chuva ao longe, chegando devagarinho, e vejo o tímido luar querendo nascer depois do sol morrer. Vejo laços se formando, me envolvendo, acalentando, laços fracos, laços de fita vermelha e branca, laços com nós, apertados nós, entre nossos mundos e fundos.

Vejo a serra ao fundo, a neblina mansa, branca massa de ar frio que me seca o cabelo e chega como fios brancos na velhice da montanha tardia. Cãs de dúvida e preocupação…

Vejo e antevejo sonhos, o amanhã que já vai chegar, a rotina a retomar. Vejo gritos e sussuros roucos, vejo beijos poucos e trabalho a galopar. Vejo um terno a se formar, termo a reciclar, eterno suspiro de uma mente a relembrar, vejo a tela, a vela, a dipirona e o colar. Vejo a gota a brotar no seio da pétala, do pêssego, do bêbado a cambalear.

E vejo como é simples o amar. Como é puro e é belo o sonhar. Vejo como é fácil e difícil ao mesmo tempo o cuidar. Vejo a vida a passar e o tempo a cacarejar.

Triiiimmmmmmmm… É o alarme a soar. O bolo deve estar assado, não pode queimar.

Ana.

(Texto e foto – Modelo: Maria Eduarda, minha priminha.)


***

Extra! Extra!

Hoje é a minha estréia no MACABELAGEM, o “blog literário” do Projeto Macabéa… Confiram, é um minutinho só! 😉

Inté…

Ana.

Estação, ferrovia, estação

Padrão
Ouço um barulho muito alto soando longe, forte e vigoroso. Parecia um apito. E era: o trem iria partir. Corri pra estação, que eu cismava de chamar de “rodoviária”. Ferroviária, Ana, ferroviária.
A máquina, toda antiga e lustrosa, uma panela de pressão gigantesca e antiga, bufava vapor com cheiro de óleo queimado. A criançada toda empoleirada, os ambulantes vendendo cocada e entregando papéis, alguns vestidos com roupas antigas, de época. Outros sorridentes, tentavam seduzir pelo carisma. “Vamos dar um passeio de van quando chegar lá, doutor! Senhorita bonita, você vem também, viu?” Não, obrigada. Eu nem me dava o trabalho de responder. Nada daquilo me era novidade, mas trazia à mente lembranças de dias não tão distantes. Memória olfativa, visual, de sensações de um tempo em que tudo parecia mais fácil e mais incerto, mais feliz e mais nebuloso, ao mesmo tempo de maior expectativa… E como poderia prever que lá estaria eu outra vez?
Vagões de madeira, bancos duros e estreitos. Será que o povo naquela época era mais magro? Ou será que era mais gordo, e que aquelas poltronas eram somente para uma pessoa? Pensei. O rapaz que marcava os bilhetes informou que as cadeiras almofadadas já tinham sido todas ocupadas, e me contentei com aquele retorno no tempo. Afinal de contas, trem não balança tanto assim.
Os olhos, tais como câmeras nervosas de paparazzi em ação, não perdiam um ângulo sequer. De um lado, do outro, a estrada – ferrovia, Ana, ferrovia – cortava caminhos e desvendava paisagens que somente guardo na mente e no coração. A serra nos acompanhando, os campos, as matas, os riachos, as pontes, as flores… E de repente, uma invasão de sementes de dente-de-leão voa pelo ar de dentro da cabine e o sol, que já se deitava meio de lado, iluminava as faíscas de vida que brincavam por ali, como fadinhas preguiçosas.
Um sorriso no meu cabelo, um girassol no meu vestido, a montanha azul da cor do seu sol, bordado de suor e dor. Vento de estrelas, sinos invadindo o espaço, e uma fada pousou em meu nariz. Assoprei, voou longe a danada, e foi dizer que eu estou chegando… Que um dia eu chego lá!
Na estação, Ana. Na estação.
Onde a vida se repete.
Ana.

Escrivinhadeira

Padrão
(Para entender – ou não – o texto que se segue, leia antes este poema do Paulo DAuria.)
Esta Aninha, tão pequenina, nem consegue escrivinhar mais…
Está cansada, tonta, ressacada, amassada, batida, moída, rouca, mas ao menos ainda respira.

Esta Aninha, tão pequenina, já não rabisca mais…
Está murcha, zonza, mole, acabada, acabando, atropelada, morrendo, matando, tentando sobreviver.

Não mete nem com um canivete!

O coração, um furacão preso entre dois pulmões, ileso não é.
Cicatrizes tomam tudo, como tatuagens que marcam para sempre a fronte que envelhece com o tempo.
E sua rala vida ainda persiste; sua saia, já não levita mais.

A alma entalhada, rasgada, cortada, parece um espantalho em forma de gente.
Traz um urubu como amigo num ombro, e no outro uma vara de pescar.
Pesca sonhos e tempestades, pesca cruzeiros no mar.

Não cansa nunca, essa Aninha!
Danada, safada, esperta a Aninha, fala o que a boca tem pra falar.
Fere e é ferida, sofre de morte morrida, noite sem estrelas e jardim enluarado.

Aninha é amiga, Aninha é demais.
Aninha, escrivinha mais?

Lá vai ela a rebolar, a soltar flechadas de verdade pelo ar.
Balas perdidas de caramelo e menta, pimenta malagueta pra temperar.
Não machucam, são de festim.
Festinha da Aninha, sempre a comemorar. Temporizar. Compreender.

Agora Aninha não quer nem mais escrivinhar.
Adeus, Aninha, vou desmaiar.

Aninha se cansou.
Aninha estafou.
Aninha mandou tudo pra puta que pariu.

À merda com essa Aninha.
Meu nome é Zé Pequeno, porra.

Ana.

Vai ver é assim mesmo…

Padrão

Abismo e céu

“Quero te encontrar mas não sei onde estou.
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo,
longe desta confusão e desta gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui.” *

Não posso ser daqui, pois não me encontro, não sei onde estou, e aí não te encontro também. Te chamo mas você não vem. Não há lugares calmos, aqui dentro tem um maremoto de ansiedade e insônia. Os ventos vêm e vão, sempre fortes e destruidores. Levam embora toda a cor, trazem a dor e a alegria de ser quem eu sou.

Todos falam ao mesmo tempo, ninguém se respeita. Não ouço minha própria voz, e nem a sua, perdida no meio deste chororô que não tem fim. Pare de gritar e de chorar de uma vez por todas, veja que o sol ainda brilha, e se olhe no espelho enquanto olha para mim, e veja a pérola no olhar, o sol a iluminar seu sorriso de canto de boca, o mesmo que deixa transparecer o furo mais profundo na bochecha.

E quando decido de uma vez por todas seguir o meu próprio furacão em forma de coração, e quando todo o universo parece conspirar para que tudo dê certo, e quando te avisto lá no fim do caminho de braços abertos a me esperar, e sei que estou chegando perto, cada vez mais… É que tropeço num riacho cheio de pedrinhas, caio de bunda, faço cara feia, enxergo peixinhos nadando no aquário ao seu redor, vejo capetinhas e anjinhos, e tem montes deles do sexo feminino também. E é neste exato momento de loucura e ansiedade total que você toca na água corrente com delicadeza, e de uma só vez faz espirrar um jato dela bem na minha cara, e me acorda de meus devaneios.

Então sigo em frente, tateando por lugares escuros, muitos sem paredes e corrimões. Desço alguns degraus e subo outros tantos. Não sei para onde vou. Onde estás?

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre. Está ficando complicado e ao mesmo tempo diferente. Estou cansado de bater e ninguém abrir.
Você me deixou sentindo tanto frio! Não sei mais o que dizer!” *

Texto e foto: Ana.

* (Letra da música: Meninos & Meninas – Legião Urbana.)