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Judite e o Toco

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Coisas pitorescas ocorrem em todas as famílias… Mas nunca vi uma tão inclinada para essas coisas quanto a minha. Teve o episódio da morte do hamster que não morreu, teve a gafe do “noivo” que meu pai cometeu outro dia num casamento, teve a história dos pintos, teve meu avô que sumiu no meio do mar de Iriri… Ah… São tantas coisas que nem dá pra contar aqui sem escrever um livro, sem exageros.

É claro que ter um irmão veterinário, com vocação para cientista, ajuda muito para que tais acontecimentos esdrúxulos ocorram com mais freqüência. Afinal de contas, quem, além dele, é que teria disposição para passar as noites em claro fazendo experiências com o casal de hamsters (mamíferos de hábitos primariamente noturnos), até descobrir o ciclo reprodutor da fêmea, obviamente fazendo com que a mesma ficasse prenhe?

Pois agora o alvo de maior interesse de meu irmão, na faculdade, no trabalho, e pasmem, em casa, é a piscicultura. Não, meus amigos, não possuímos um tanque aqui em casa com golfinhos, arraias e tubarões, mas sim um pequenino aquário metodicamente cultivado por ele com espécies simples de peixinhos de água doce. Costumavam viver lá até dois camarõezinhos, batizados por minha mãe de Gilberto e Wellington (foto ao lado). No entanto, os mesmos foram devorados por um surubim maldito, denominado Marinho (adivinhem quem deu o nome?).

Outro dia fui entrando no carro e vi um morcego enroscado no banco do passageiro… Quase dei um grito! Encostei com a ponta da chave, e o “bicho” estava duro… Olhei mais de perto e… era um toco, de madeira mesmo, sem maldade gente, por favor. Descobri depois que meu irmão o tinha ganhado de presente de um amigo – veterinário também, óbvio – para ornamentação do aquário. Sendo assim, o dito cujo foi trazido para casa para fazer o “tratamento” do tronco, ou toco, como preferirem, para poder se juntar aos peixes e plantas aquáticas. Peraí… tratamento? Sim, meus amigos, tratamento que inclui: banho no cloro com água por 24 horas, fervuras e mais fervuras, trocas e mais trocas de água, até esta ficar limpa.

O que não sabíamos era que, após o “banho de cloro”, o tronco ficaria… BRANCO! Todos ficamos horrorizados com a feiúra do toco russo… Será que ele teria descorado? Eu heim!? Minha mãe quase morreu do coração, e foi muito aflita falar sobre isso com meu irmão. É que ela é a auxiliar de laboratório preferida dele, segue rigorosamente todas as instruções do cientista para as experiências feitas em casa.

– Calma mãe, se este toco não voltar a ser marrom, meu nome é JUDITE! Respondeu ele, com convicção.

Sendo assim, durante uma semana o “toco cru pegando fogo” de meu irmão “Judite” foi fervido por horas no enorme balde de alumínio, no fogão daqui de casa… E não é que o tal foi voltando à cor originária? Hoje já está pretim, pretim…

E o toco acabou sendo batizado de Judite, meu irmão continuou se chamando Ângelo, e continuou colocando nomes estranhos em seus bichinhos de estimação… A nova hamster, por exemplo, chama-se “Pristica”!

É… vai entender!?

Ana.

P.s.: Brincadeiras à parte, esta história de piscicultura é coisa séria… O laboratório da UFMG é um dos mais conceituados do Brasil nesta área, meu irmão já tem vários trabalhos publicados e apresentações em congressos pelo país inteiro! É… os surubins e abadejos que se cuidem!

Fotos por Ângelo – meu irmão

Tato e Line

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em…

:. As melhores surpresas .:

17:30h, no ponto de ônibus. Line sai do trabalho aliviada por não ter ficado nem um minuto a mais, e posta-se a esperar o Circular 01 – Contorno, para voltar para casa. Ela está de costas para o passeio, de pé, olhando para o outro lado da rua, onde pessoas pedalam bicicletas sem sair do lugar, dentro de uma sala fechada com luzes de boate: spinning in door, na Academia Corpo em Forma.

Tato chega com sua mochila. Encabulado e cansado, toca no ombro de Line e sorri com os olhos:
– Oi… – Ele diz, meio sem jeito… Sem saber o que dizer, o “Oi” com voz embargada foi a única coisa que conseguiu proferir.

Line se vira assustada, e se espanta mais ainda ao ver Tato bem ali na sua frente. O abraça imediatamente, dando-lhe um beijo estalado no pescoço, próximo à orelha. Sente seu cheiro, escondido atrás dela, próximo do cacho de seus cabelos castanhos: shampoo de camomila, sabonete neutro, cravo, canela, homem. Os mesmos cheiros que ela sentira em seus livros, seu quarto, suas cartas. Ela se lembrava…
– Ahhnn? Como assim? Não acredito que está aqui! – Exclama, transparecendo alegria em seu tom de voz.

As bochechas rosadas dele não a deixam enganar, corado de timidez e felicidade, tudo ao mesmo tempo. Traz ainda um envelope murcho em sua mão molhada de suor, ansiedade que ele tenta disfarçar.
– Vim te ver… E te entregar… isto. – Estende a mão com o envelope em direção a ela, ainda encabulado, fita o chão.

Line procura seus olhos e toma o envelope. Ele levanta a cabeça e a encara, respirando fundo. Com a outra mão, ela segura a mão livre dele, gelada. O abraça novamente, emocionada. Carinhosamente, ele toca seus lábios num beijo doce e leve. Ela adorava o jeito meio sem jeito que ele a beijava.

Agora ela olha para o envelope.
– Está meio vazio isso aqui, heim? – Ela percebe que o envelope amarelo, apesar de aberto, estava endereçado a ela. Dentro, vê um pequeno bilhete e um selo.
– É a resposta de sua carta, Line… – Tato diz, com convicção. Ele sabia que ela reagiria desta forma, já estava acostumado com seu jeito direto de dizer as coisas, sem papas na língua. Ele gostava daquilo, pois sabia que ela era incapaz de mentir.
– Sério? Poxa, eu escrevo 11 páginas procê, e cê me responde com apenas um bilhete e um selo? – Diz ela sorrindo, com um tom de comédia na voz, só para provocá-lo…

Ele solta sua gargalhada característica, não cai nas provocações dela, apesar de adorar aquele jeitinho meio bravinho e brincalhão que só ela possuía. Ele a entendia e adorava!
– Não, Line: o bilhete, o selo, e EU, né? – Responde ele, apertando-a novamente contra seu peito. Os dois sorriem.

Ela finalmente retira o bilhete de dentro do envelope, dobrado ao meio. Abre e vê a foto dos dois, do último encontro, impressa em branco e preto. Embaixo, a letra dele, cuidadosamente grafada com caneta de tinta preta:

AS MELHORES SURPRESAS SÃO AS QUE VÊM DO CORAÇÃO.

***

Texto por: Ana.
Photo by: -gadgetgirl-

Cipotânea Kingdon

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Reza a lenda que nos confins das Minas Gerais, há um reino, um lugarejo mágico, com direito a castelo e princesas, chamado Cipotânea. Lá os bichos falam, as flores sorriem e o céu é mais azul. O sol das 17h doura o capim dos morros que lá se escondem, tímidos morros, envergonhados de sua condição de simples amontoados de terra, pedras e capim verde quando comparados aos morros de concreto que reinam impávidos na capital. Mal sambem eles como são belos, verdes e belos, os tímidos morros…

Uma carruagem me levou até lá, cortando a serra por veios de terra vermelha e poeira branca… No meio da noite eu cheguei, e o Rei mandara enfeitar o céu com diamantes tão brilhantes e numerosos, que meus olhos acostumados aos faróis dos carros e ao neon da cidade custaram a acreditar no que viam, teimando em piscar, fazendo brotar água salgada nos verdes lagos que me habitam. Após um grande baile, num castelo branco com luzes coloridas, o dia queria amanhecer.

Muitos dormiram antes de ir pra casa, aproveitando que as ruas do lugarejo mágico são macias como algodão, nem se importanto com os flocos de gelo que teimavam em cair como confetes num dia de carnaval. Gotas de orvalho tocavam meus cabelos, anunciando, num canto suave e anjelical, que era hora de voltar ao nosso castelo.

Como um abraço carinhoso, o sol entrou pela janela, tocando primeiramente meus pés, subindo pelas pernas e coxas, fazendo um carinho gostoso na barriga, nos braços, até chegar ao rosto, quando, então, despertei. A nobre baronesa correu para o quarto de braços abertos, me surpreendendo e embaraçando, pois eu ainda trajava meu pijama cor-de-rosa! No entanto, ela nem ligou, me abraçando, e frisando que o café-da-manhã nos aguardava.
Após o desjejum, pus-me a caminhar, acompanhada por Donária, a filha da baronesa, que conhecia tudo e todos do lugar. Afinal, não poderia ser diferente, uma vez que nascera no lugarejo e lá passara boa parte de sua jovem vida, até partir para a capital, e de lá, para o mundo. Resolvemos parar para apreciar a paisagem: o rio, os verdes morros, pequenos palacetes, o grande castelo ao fundo, a ponte de ferro…

No meio do caminho que percorríamos havia muito mato, pedras, e também, um oráculo. Era uma vaca muito sábia e antiga na região, que ruminava conhecimentos, mas nem sempre respondia quando perguntada. Queríamos passar direto, mas ela nos parou, anunciando, em voz grave, que um perigo logo a frente nos aguardava, que era melhor voltarmos. Donária deu de ombros, e eu, como boa hóspede, resolvi crer na experiência de minha anfitriã, e a segui.

Logo em frente, após ultrapassar alguns mata-burros, armadilhas para os selvagens jegues que habitam as matas do entorno, adentramos por um bosque, de pinheiros tão verdes quanto as esmeraldas mais verdes que esta Terra já viu. As sombras as árvores amenizavam o calor que subia da terra, e dava vontade de ali deitar e dormir.

No entanto… a profecia da vaca-oráculo se concretizou: vários cães armados com seus dentes surgiram no caminho um pouco a frente, ameaçando-nos caso avançássemos mais alguns passos. E agora? Meia volta, volver! E nada de correr, pois os cães eram velozes, possuiam asas ao invés de patas, e dentes afiados como canivetes. Assim que saímos do bosque, desprotegidas pelas sombras ficamos, mas o sol cegou nossos algozes que ganiram, voltando para a terra de onde saíram. Ufa, estávamos salvas!
E mais um dia se passou, outro castelo conhecemos, onde tudo era feito de milho: móveis, baús, caixas, bolsas, tapetes…

Várias carruagens desfilaram também, com suas princesas empoleiradas em seus trajes de gala.
Pequenos duendes também apareceram, e foram levados ao palco como atração da festa. Afinal, eram eles que cuidavam dos jardins floridos e dos animais do lugarejo. Trouxeram oferendas e ganharam presentes. Era uma troca, estabelecida há milhares de anos pelo primeiro Rei que conquistou a região.

E a festa continuou, todos se fartaram de milho e pipoca, numa felicidade que só teve fim na aurora da 2ª feira.

Texto e fotos: Ana.

Arrebatador

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Vou parar de fingir que não estou nem aí. Vou parar de fazer ironias e de dizer coisas sem sentido e de nunca falar nada que eu quero de verdade. Vou parar de fingir que estou tranquila no meu canto e que não penso em você a todo instante.

Vou parar de fingir que não quero falar contigo todos os dias, e parar de fazer o tipo “ocupada todo o tempo”. Vou admitir que fico te esperando dar um sinal de vida todos os dias, pr’eu tomar mais uma pílula que seja de sua atenção.

Não vou mais fingir que não me decepciono quando você não me liga, e que toda a minha agressividade, ironia e sarcasmo não são em decorrência da sua falta de atitude. Não que você não faça nada, claro que reconheço seus esforços, e acho lindas as coisinhas que você faz, por mais minúsculas que sejam; mas acho que fiz e tenho feito muito, talvez até demais, para te mostrar o que sinto e o que quero.

Não falarei mais com você sobre coisas corriqueiras, sobre como foi o meu dia, nem te perguntarei como foi o seu. Admitirei que já fiz planos, que já sonhei e já pensei e já programei um monte de coisas pra nós dois.

Não vou mais fingir que não me apaixonei por você. Eu sei e você sabe que coincidências assim, como as nossas, não acontecem sem um propósito, muito menos, são coisas corriqueiras, que poderiam acontecer com qualquer um. Vou parar de fingir que eu não lembro o tempo todo do seu toque, das suas palavras, e me recuso a achar que foi tudo uma viagem da minha cabeça, que errei feio, e que posso quebrar a cara, mais uma vez.

Eu quero que você fale com todas as letras, e não mais nas entrelinhas. Eu quero parar de tentar decifrar seus escritos, suas palavras faladas e suas reações. Eu quero simplesmente ouvir da sua boca que você me quer e nada mais, que quer me ver de novo, e que podemos ser felizes juntos, ou que, pelo menos, quer tentar.

Vou te falar uma coisa: eu não quero que esta seja só mais uma historinha de amor, dessas que a gente conta pros amigos, pros filhos e netos, um caso, apenas uma aventura, e que morre por aí.

Vou parar de enrolar e te dizer de uma só vez: eu quero que seja arrebatador.

Ana *

(Texto por: Ana Letícia *. Foto by LaMariposa.)

* Inspirado na maravilhosa prosa poética de Brena Brás.

Olha quem está miando…

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Eu não entendo os humanos! Venho me esforçando há alguns anos, e ainda não consegui tirar nenhuma conclusão sobre seu comportamento bizarro.

Antes de tudo, os humanos se dividem em duas categorias: os que gostam de gatos e os que nos detestam. Sim, porque nesse caso não existe meio termo: ninguém é indiferente a um felino.

Mas, como eu ia dizendo, foi um humano que me jogou na rua, me separando dos meus irmãozinhos. Mas também foi um humano que me recolheu lá no meio da trincheira cheia de carros, molhado de chuva e esfomeado. Ele cuidou de mim com carinho, mas como na casa dele tinha um cachorro (eca!) que não gostou de mim, não pude ficar com ele.

Os humanos se acham muito espertos, mas esse, apesar de muito bonzinho, achou que eu era fêmea e me chamava de Bel. Até que um dia chegaram duas moças lá na casa dele, me pegaram no colo e me levaram embora numa caixa. Achei que elas eram simpáticas, mas elas me entregaram para um humano grande e sem pêlos na cabeça que me espetou com uma injeção, mexeu dentro das minhas orelhas e da minha boca, levantou o meu rabo para olhar o que tinha embaixo. Detestei, mas pelo menos ele descobriu que eu sou macho, pois isso já estava começando a me incomodar. Depois disso, as duas moças me levaram para a casa delas, me deram um pote com água e outro pote com ração. Nesse lugar também tinha outros dois humanos. Gostei deles de cara, até deitei no colo deles no mesmo dia! Nesse dia eu também ganhei um nome decente: Miró!

É, as duas moças até que eram legais…

Alguns humanos dizem que os gatos não gostam de pessoas, que são traiçoeiros, mas estão redondamente enganados! Falam isso porque nunca conviveram com gatos, e não sabem como podemos ser carinhosos, meigos e companheiros. Por coincidência, são esses mesmos humanos que falam que odeiam gatos. Por que será?

Mas, voltando a falar dos humanos, eu reparei que eles são cheios de manias.

Por exemplo, eles gostam de entrar na água! Não dá pra entender… Água é bom pra beber, pra brincar, mas entrar debaixo daquele jato uma vez por dia ultrapassa a minha felina compreensão! Não sei porquê eles não aprendem comigo a usar a língua para se limpar, é muito mais divertido e econômico.

Também não sei como eles conseguem passar tantas horas na frente daquela caixa barulhenta que fica lá na sala. Eu só acho interessante dormir em cima porque é quentinho. Mas quando meu rabo passa na frente, sei que vou ser xingado. Ah, mas é tão divertido ver a cara de raiva dos humanos! Eles também têm acessos de raiva quando eu deito em cima do livro que eles estão lendo, afio as unhas nas cadeiras da sala de visitas ou tento andar no parapeito das janelas!

Outra coisa que eu não entendo é por que eles passam o dia todo fora de casa quando é muito mais legal ficar cochilando na cama ou no sofá! Mas os humanos, pelo menos os meus, saem cedo e só voltam de noite pra casa. São uns bobos.

Olha, para terminar, só quero deixar bem claro que apesar de eu achar vocês um tanto esquisitinhos, adoro receber carinho e deitar em um colo, e sou muito grato por isso. E para aqueles que dizem não gostar de gatos, vocês não sabem o que estão perdendo!

Esses humanos…

Me dão carinho, comida, ratinhos de pelúcia…

Acho que eu sou um Deus!
Texto por: BELA