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ERRATA
– Calma aí. Quem foi que disse que eu fujo de você? Não fujo nunca. Ouviu bem? Nunca. Mas você tem que me entender, por favor, me compreenda. Tenho que pensar ainda. Mas eu gosto de você. Gosto muito. E confio em você, demais da conta. Eu sei que não é vampira, sei bem o que pode fazer e que pode me fazer feliz. É rara, é iluminada, é especial. Sinto-me lisonjeado só de te conhecer, só por ser minha amiga, entre outras coisas, claro. Mas não sei ainda como agir, o que fazer, como fazer.
– É, não sabe mesmo. E eu só sei que está fazendo tudo errado.
Ana.
(Texto e foto.)
Mineiras, Uai: Um Presente de Natal
Gari, Bebela e Lúlis, amo vocês! Um Natal de luz, harmonia e amor para todas! E que 2008 seja surpreendente, mágico e repleto de sonhos se tornando realidade…
Ana.
Um Presente de Natal
Assim, passaram-se alguns anos de trabalho duro, malgrado a seca que teimava em roubar os preciosos litros de água que nutriam os míseros legumes da horta de Jacinta e cavava profundas entalhas onde Rosinha, a vaca ancuda e magricela deveria ter o seu pasto.
Mesmo trabalhando duro sob o sol inclemente do sertão, Antonino não reclamava da dificuldade da vida e do suor que impregnava o seu corpo no final do dia, pois à noite ele recebia um beijo de Jacinta e um abraço apertado do filho Francisco.
Mas esse ano tinha sido diferente: a seca deu uma trégua a Antonino, o que lhe permitiu conseguir trabalho em uma propriedade nas redondezas e amainar a miséria que reinava na casa de pau a pique. E por isso, com algumas notas no bolso, Antonino resolveu que este ano a família comemoraria o Natal, não apenas com orações à meia noite como sua mãe havia lhe ensinado, mas também com presentes. Suspeitava de que Francisco sequer saberia o que significava o Natal, mas ele iria proporcionar ao filho uma surpresa especial.
Chegou em casa pensando no tecido florido que viu na vendinha da cidade mais próxima, e com o qual Jacinta poderia fazer um belo vestido. Sorriu ao imaginar a felicidade da mulher. Pôs-se, então, a pensar no filho. O que poderia agradar Francisco?
Francisco estava sentado na porta da casa, a camiseta suja de terra e os joelhos ralados, como qualquer garoto de sua idade. Correu para o pai quando o viu se aproximar e o abraçou, pulando em seus braços.
Isso encorajou Antonino a perguntar:
-Filho, o que você quer ganhar de presente de Natal?
Francisco o olhou com um inconfundível brilho de alegria nos olhinhos e disse entusiasmadamente:
– Pai, eu sei o que eu quero. Eu quero NEVE!!!
Assustou-se Antonino com tal resposta, e em seguida questionou ao filho de onde viera ousado pedido. A resposta foi rápida:
– Ouvi a professora Matilde dizer que na Europa as crianças brincam na neve no Natal. Então eu quero brincar com neve também!
Matilde era uma das poucas professoras da “Escola Felicidade” que se preocupava com o futuro das crianças, sem perder a esperança de que dias melhores estavam por vir. Assim, numa de suas aulas de contos, a professora Matilde leu aos alunos histórias sobre o Natal na Europa, e Francisco ficou curioso e encantando com a tal “neve”.
No entanto, este seria um presente quase impossível de Antonino dar a seu filho querido. O dinheiro que havia ganhado mal dava para comprar presentes e fazer uma cesta de comidas. Pensou que a solução seria viajar com o filho, mas para onde? Como?
Com sua pouca escolaridade, Antonino mal sabia qual era a cidade mais próxima que nevava. Havia viajado poucas vezes de barco e nunca de avião, como realizaria o sonho do filho?
Antonino informou-se com as pessoas mais ricas do sertão e descobriu que pouco abaixo da divisa do Brasil, a caminho do Uruguai, estava a primeira cidade que nevava. Mas sair do sertão e chegar até lá, como seria, quanto tempo demandaria… Teria que deixar de construir um Natal feliz para toda a família e apenas realizar o sonho de Francisco.
O coração de Antonino apertou. Jacinta, com seu amor incondicional, acalmou Antonino e disse para rezarem à Divina Providência, que com certeza uma solução apareceria.
Até que na véspera do dia de Natal um anjo tocou em Antonino, e o levou para bem longe da vida. A família inteira ficou alvoroçada, desnorteada, até esqueceu que era o dia do nascimento do menino Jesus. Esqueceu também de Papai Noel, esqueceu seus sonhos e planos. Francisco, da noite para o dia deixou de ser criança, e sentiu o peso do mundo em suas costas infantis, o peso que antes o pai carregava.
Dez anos se passaram e as coisas mudaram muito. Pouco tempo depois da morte de Antonino, Jacinta se juntou a ele, e Francisco se viu sozinho. Agora já era adulto, e cuidava de si com determinação. Casou-se com uma moça da cidade grande, Maria Lúcia, uma menina linda e sonhadora. Logo juntaram dinheiro para poder viajar, e foram tentar ganhar a vida nos Estados Unidos. A América era um sonho, uma chance de ganhar um dinheiro mais valorizado.
Chegaram a Nova York em Março, não estava nem quente nem frio. Chiquinho agora era “Frrranciscow”, como os americanos o chamavam. Fazia de tudo: pintava paredes, lavava pratos, latrinas e andava com os cachorros dos gringos. Impressionante como aqueles animais eram cheios de luxos que ele mesmo nunca tivera, nem sonhara existir.
Maria Lúcia cuidava da casinha que conseguiram alugar, bem longe do centro, e também trabalhava em casa de famílias abastadas, cuidando de crianças e fazendo de tudo um pouco. A vida não era nada fácil, aprender uma língua diferente e aparentemente difícil. As pessoas eram frias, distantes, mas achavam graça do jeito diferente dos brasileiros, do modo como falavam, e das coisas que comiam. Sentiam-se estranhos àquele local, meio excluídos, discriminados, mas levavam a vida assim mesmo.
O Natal ia se aproximando, Chiquinho e Marilú (como ele a chamava carinhosamente) não faziam idéia do frio que viria pela frente. Pela primeira vez viram que realmente uma pessoa poderia morrer de frio, pois até então, só tinham medo da fome e da sede que matava tantas crianças no sertão de onde vieram. Muita chuva e um vento cortante e gelado, e o dia parecia nunca chegar, pois a noite caiu sobre a agitada cidade daquele país estranho, e parecia que nunca mais iria terminar. A vida ficou cinza e sem graça.
Desde que seu pai morreu Francisco não se lembrava do que era o Natal. A Escola Felicidade ficara para trás há muito tempo, assim como a professora Matilde, e as lembranças daqueles poucos anos que vivera na roça em companhia de seus pais, Antonino e Jacinta. Há muito tempo não pensava neles, embora sentisse que sempre tinha uma mão por perto o amparando, nos momentos mais difíceis. Na verdade, Francisco não tinha tempo para pensar nessas coisas. Sua rotina era trabalhar, trabalhar, trabalhar. Muitas vezes dormia menos de 4 horas por noite, pois sua jornada de trabalho era longa penosa.
Não nevou nenhum dia desde que estava na América, de fato, o inverno estava atípico, bem mais ameno, diziam os “new yorkers”. Francisco nem se importou, afinal seus sonhos de criança já tinham se perdido, e nem mesmo do pedido de neve de presente que fizera ao pai anos atrás, ele se recordava. Até que na véspera de Natal, o que todos os americanos entendem como bom presságio para a noite do nascimento de Cristo, e para o ano que se aproxima, aconteceu… da forma mais inesperada e estranha que todos os habitantes do planeta já tiveram notícias…
Naquela mesma noite, Francisco e Marilú estavam de folga no alpendre de casa, e juntos bebiam “Cidra Cereser” que compraram numa venda de brasileiros num bairro próximo. De olhos fechados e de mãos dadas, Francisco sentiu um toque leve e gelado em seu nariz. Assustou-se com aquela nova sensação, e abriu os olhos. Os mais belos flocos de neve desciam do céu, e ele ficou cego de lembranças, de emoções, e de tudo aquilo que ficou tão bem guardado em seu coração há tantos anos. Lembrou-se de quando era uma criança, e de tudo o que já vivera: do pedido de Natal, de seu terno pai e da carinhosa mãe.
Naquela hora, Maria Lúcia anunciou que esperava um filho de Francisco, e a alegria tomou conta daqueles seres embevecidos pela beleza e pelo frescor do presente enviado dos céus.
Cantaram, gargalharam, dançaram, como nunca haviam feito antes.
A partir de então, Francisco entendeu o verdadeiro sentido do Natal: o que a neve trouxe foi a certeza de que seriam felizes, pois a felicidade estava nas menores coisas, e onde quer que ele fosse, nunca mais se esqueceria do amor por seus pais, por Maria Lúcia e o filho que iriam ter, e acima de tudo, do amor que o fazia seguir em frente, apaixonado pela vida, pelos sonhos, e pela magia do Natal.
Fragmentos
– Estás rindo de mim?
– Não, para você.
Me olho no espelho, e falta uma parte da face. Deixei ali, jogada pelo travesseiro, junto com o secador de cabelos. Estava molhada, não prestava. Preciso usar minha máscara de mulher forte, engraçada e sabichona.
Você levanta e diz que quer dançar, tomar um refresco, um pouco de ar. Diz que a vida não presta, e que é tudo mesmo assim. Vira pro canto e não liga pra mim.
Me embriago de vida, de histórias, de vento. Me encho de Lua, de terços e santos, me sento. Rezo. Rezo tanto!
Levanto a blusa de cetim, suja do meu corpo. Cansada e trouxa, fico nua no beiral.
– Será que ele me viu assim?
Paro e lembro da noite anterior. Perfume de xaxim, lirismo de jardim, um pouco de sangue no álcool pra ver se vai dar pé.
Como contar uma história se ela não tem fim? Se não é feliz, e se nem triste é. Não me faz chorar, nem me emociona. Não solto gargalhadas sem fim, não sinto saudades, não.
Pra quê contar, então? Não contarei.
Calo minha boca. Dormirei assim, sorrindo, nua no beiral, junto ao vento, no sereno e ao relento, suja do corpo, da trouxa, do riso, do gozo, do mofo, do moço, que um dia sorriu pra mim. Sou fragmentos de mim.

Texto e foto: Ana.
Menininha
O mundo lá fora era barulhento. Não tinha vozes de crianças, não se jogava amarelinha, nem se brincava de rouba-bandeira. Ruídos eram os das máquinas de quatro-rodas, das conversas adultas e dos morcegos que rondavam a região.
Engraçado como as árvores frondosas e centenárias, tão ornamentais e úteis para a cidade, no seu papel de refresco e retenção das águas das chuvas, poderiam abrigar seres tão medonhos e horrendos. Morria de medo quando tinha que fazer o percurso a pé, dos tais poucos quarteirões que a levavam da escola à casa, naquele horário de lusco-fusco, começo da noite.
Final de ano era chuva na certa. E às 18h, quando batia o sinal do Colégio e os coleguinhas entravam nos carros dos motoristas dos pais abastados, era sua hora de bater perna morros acima. Coraçãozinho disparado, mochila pesada, não podia correr. Havia uma casa… mal-assombrada. Nunca vira movimento algum lá dentro. Dizem que era habitada por fantasmas, e pelas sombras que rondavam por ali, habitantes das trevas e da enorme árvore, torta e cheia de sulcos e reentrâncias. O tronco negro, só podia ser oco, a casa dos seres das trevas, as raízes expostas eram como braços, querendo abraçá-la e levá-la lá pra dentro.
Passava sempre quase correndo , evitando olhar, com medo do que poderia ver. Jurava ouvir gritos de horror, ranger de dentes, e aquele cheiro de terra molhada de chuva e de musgo, que para ela, àquela hora da noite e naquele local assustador, parecia cheiro de mofo, de gente velha descuidada, de morte.
Mas era só o dia clarear, a luz do sol penetrar por entre as frestas das folhas, traduzindo num translúcido verde, cristalino e cintilante, para sentir o perfume de alecrim e lavanda que habitava os jardins das casas. E as sombras não mais ali estavam, dormiam naquele horário. E o sinal da escola já batia, e ela corria, para não se atrasar. E recreio, e morrinho, e terra, e suor, e bola.
E ela não poderia imaginar que um certo tempo depois, faria parte do mundo preto e branco e cinza dos adultos que circulavam por ali quando era menininha, com suas pastas e sombrinhas sem graça, sem sentir cheiros, sem ver as sombras e nem os morcegos – que se cansaram mudaram pra outro lugar.

Texto e foto: Ana.
A Amiga
– Dô-o-quê?
– Do-ná-ria!
– Que nome diferente!
– Pois é…
Donária era sua companhia para as aventuras mais hilárias. Jogar pedra no rio, catar coquinho, fazer guerrinha de mamona, pular o muro de casa, roubar manga do vizinho, beber até cair, dançar no balcão do bar… e por aí vai.
– Mas que doida esta Donária, heim?
Atiçava a curiosidade de todos. Donária já fora loira, já tivera os cabelos lisos, já fizera permanente nos cachos e usara lentes violeta. Donária já fora para a Europa, já lera todas as obras de Graciliano Ramos, já tivera a coleção inteira do Iron Maiden, já fora num show dos Beatles e já beijara o Jim Morrison. Donária era amiga da filha do Cartola!
– Essa Donária é danadinha mesmo, heim?
Aprendera a nadar com a Donária. A sorrir, a brincar, a dançar e a chorar com a Donária. Era ela quem lhe ensinava as maldade dos homens, e lhe contava das maravilhas mundo afora. Era ela que falava inglês com sotaque britânico perfeito, e que inventava os apelidos mais engraçados para os outros.
– E que dia vamos conhecer essa tal Donária?
Certo dia, ligou para a mãe, dizendo que estava no Shopping com a Donária, na loja tal. Mas sua mãe era esperta, pegou o carro e foi pra lá. E qual não foi a sua surpresa quando a mãe ali chegou, perguntando por Donária?
Donária era sua amiga… Imaginária!
Texto e foto: Ana.
Ps.: Este texto é para a Donária, que não é amiga imaginária!
