Paixonite

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Todos os dias, tenho o hábito de descer até a portaria do meu prédio pra observar o movimento. No interior era assim, mas íamos pra janela ou pro alpendre de casa namorar, conversar, ou só olhar a rua mesmo. Aqui na cidade grande, da janela do meu apartamento – meu não, do Maurício, meu filho – é muito alto, e a copa das árvores atrapalham minha visão, que já não é das melhores.

Então um dia eu o vi. Um pouco mais jovem que eu, alto, forte. Cabelo grisalho, sempre muito bem penteados para trás. Um pão!!! Fiquei observando ele passar por mim e, para minha surpresa, chamou-me pelo nome!!!
– Maria!
– Oi… Sorri, meio sem graça, com as faces rubras.

Ele passou. Atravessou a rua e entrou no prédio da frente. Então ele morava ali! Passei a esperá-lo todos os dias. E sempre era assim. E assim fui me encantando a cada dia mais, me apaixonei por aquele homem misterioso que sabia meu nome sei lá como… Todo dia nos cumprimentávamos daquela forma. E todo dia eu me empetecava mais: passava batom e talco, colocava meu melhor vestido.

Outro dia, voltando do sacolão, nos encontramos. Frente a frente!
– Maria!
– Oi, tudo bem?
– Como vai você? E o Maurício, está bem?

E engatamos uma conversa muito agradável. Foi aí que descobri que ele se chamava Adalberto, e que era também viúvo, assim como eu. Muito inteligente e delicado. Me tratou tão bem! Mal poderia ele imaginar que eu, logo eu, estaria morrendo de amores por ele… Sonhando com aquele momento há tanto tempo… Sonhando tantas coisas mais. Até que…

– Maria… Posso passar lá na sua casa mais tarde? Pra conversarmos mais… E também eu quero falar com o Maurício, se ele concorda que conversemos mais…
– Claro! Pode ir. (Respondi, eufórica…)
– Sim, então passo lá mais tarde, tá bem?

Voltei pra casa correndo, nem guardei as compras. Maurício me disse que precisaria sair pra pagar umas contas no banco. Resolvi tomar meu banho logo, para esperar o Adalberto chegar. Parecia uma adolescente. O coração até palpitando! Preparei uma roupa bem bonita, estendi em cima da cama para vesti-la assim que me banhasse. Já estava debaixo do chuveiro, toda molhada, quando escuto o barulho do interfone. Era o Adalberto, claro. Tive certeza de pronto. E ele insistiu. Insistiu. Tocou váááárias vezes. E eu lá, rezando para que Maurício chegasse logo para abrir a porta, pois eu não podia sair do banho sem roupa! Não queria atender ao interfone assim. Como sofri naqueles minutos!!!

Até que… o interfone cessou.

Saí do banho, me arrumei. Pensei que ele fosse voltar. Esperei, esperei, esperei o interfone tocar novamente. Maurício voltou do banco. Nada de Adalberto. O sol se pôs no horizonte, nada de Adalberto. Não quis nem comer, esperando por Adalberto. Fui dormir, nada de Adalberto aparecer, ou ligar, ou dar sinal de vida.

No dia seguinte, esperei por ele na portaria do prédio, como de costume. Ele não apareceu, e nem no dia seguinte, e nem no outro, nem na semana seguinte. Já tem 1 mês que não vejo o Adalberto. Estou em frangalhos. Estou deprimida de paixão. Amar dói demais, gente! Vocês nem imaginam como meu coração está apertado. Só penso no Adalberto…

Por favor, alguém aí conhece o Adalberto?

***

Se é verdade ou não, já nem sei. Mas a história foi contada, mui detalhadamente, pela própria Dona Maria, uma senhora na casa de seus 80 anos, lúcida e lépida, freqüentadora e vizinha do salão de beleza aqui no bairro… Fiquei emocionada com tanta vida, tanta vontade de amar, de viver, de ser feliz, tanta falta de medo, e tanta abundância de emoções naquela mulher extraordinária.

🙂

Ah! E se alguém conhecer o Adalberto, me avise antes que Dona Maria morra de amores…

Ana.
(Foto: La Mariposa.)
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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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