Tem coisa que só acontece em boteco…

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Todo ano é a mesma coisa. Mal são anunciados os bares participantes do “Comida di Buteco”, e haja paciência para andar pelas ruas adjacentes aos mesmos, encontrar vaga para estacionar em lugar seguro, esperar mais de hora na fila pela mesa, e por aí vai… Mas como todo dia é dia de cerveja na “capital mundial dos botecos”, não custa nada encarar tudo com muita descontração e sem stress, e de preferência com uma gelada descendo goela abaixo.

Of course, my horse, tem gente que vai pra boteco só para arrumar confusão. Briga com o flanelinha, briga com o garçon, briga com quem está ao lado esperando mesa, briga com o cara que controla a lista de espera… Enfim, pessoas de mal com a vida assim deveriam ser proibidas de freqüentar botecos. Ou restaurantes. Ou locais públicos. Isso, nem deveriam sair de casa. Melhor, nem deveriam nascer!!!

Mas acontece muita coisa interessante em botecos… Já reparou como é fácil fazer amizade nestes locais? Basta você olhar pra pessoa, comentar da temperatura polar da cerveja e pronto: viraram amigos de infância! Tem gente que até vai sozinha ao bar só pra isso, conversar com estranhos, bater um papo cabeça, e, quem sabe, iniciar uma amizade!

Nos barzinhos do Mercado Central daqui de Beagá isso é uma constante. Você conhece gente de tudo quanto é lugar, tudo quanto é jeito e classe social. Desde um pedreiro a um empresário de sucesso, uma executiva de multinacional, uma prostituta internacional… Lá todo mundo é igual, todos estão ali para se divertir, bicar uma branquinha (tomar cachaça), beber uma loirinha esperta (cerveja estupidamente gelada) e, claro, comer uma carnezinha na chapa acebolada com um jilozinho refogado (ou “afogado”, como diz o povo “da roça”). Qual a carne? Você escolhe: fígado, contra-filé, pernil… Hummmm, deu água na boca! O mais interessante é que os botecos do Mercado equivalem a um corredor de 3x6m, são dois em cada “corredor”, posicionados um em frente ao outro, sem mesas nem cadeiras, e, obviamente, fica todo mundo de pé. Não tem garçons tradicionais também, é claro, pois não caberia no diminuto espaço, disputado entre os beberrões e comilões de plantão! Os cozinheiros ficam na parte de dentro dos balcões, disputando no grito o cliente, como que numa guerra para ver quem é o mais simpático e ganha primeiro a empatia do transeunte que foi ao mercado inocentemente comprar rolhas, pano de prato, ração para hamster ou um peixinho fresco.

Outro dia fui num bar participante do “Comida de Buteco” deste ano, coisas engraçadas aconteceram, a começar pelo local: trata-se do quintal de uma casa de família, que depois vim a descobrir, pertencente a um ex-colega de colégio. Para entrar no boteco, você passa pela garagem da casa (com os carros da família lá dentro), atravessa a área de serviço, desse uma escadinha e chega até o quintal. Acesso para portadores de necessidades especiais? Pode esquecer… No entanto, o local é super aconchegante, é rústico, mas também muito aprazível, fresquinho, com uns espaços cobertos e outros não, tem televisão para ver os jogos do Galo (time do coração dos donos do estabelecimento), mesas redondas feitas com rodas de carro de boi antigas, algumas cadeiras são antigas, e outras, tocos improvisados (pedaços de tronco de árvore), e ainda muitas, muitas plantas espalhadas em todos os cantos, como todo quintal que se preze há de ter.

O nome do lugar também é bem sugestivo: “Pimenta com Cachaça”, iguaria também servida no estabelecimento por apenas R$ 2,00, àqueles apreciadores da tal misturinha… Já o delicioso tira-gosto concorrente tem um nome que é outro caso à parte: “Petisqueijo de filé ao molho PCC”. Antes que me perguntem, não sei o porquê de o delicioso molho de mostarda servido numa cumbuca de tomate maçã ter o nome de PCC. Mas hei de descobrir um dia…

Chegando lá, apenas 4 mesas na frente na lista de espera. ‘Bora aguardar um tiquim? Lógico, não deve demorar tanto assim…

– Está lotadaço! (Disse o “hostess”, com um walkie-talkie modernoso na mão.)
– Mas a comida deste boteco é boa, moço?
– Ô, se é!
– Esperaremos então. (Minha fome não permitiria outra fila de espera, em outro boteco em qualquer outro lugar.)

E dito e feito. Mesa para duas, nosso nome foi posto na listagem. Ficamos 2 horas esperando120 minutos de estômago roncando. E haja papo! Acabamos fazendo amizade com um rapaz (que aguardava seu amigo chegar) e com um casal (um japonês paulista e sua mulher – mineira, lógico!), que também aguardavam sua vez. Na hora em que fomos chamadas, anunciaram uma mesa para 7 pessoas…

– ‘Bora lá, entrar todo mundo junto? (Eu e minha educação…)
– Vocês não se importam? Queremos muito entrar… (Responderam em coro, com excitação.)
– Que nada, a mesa cabe mais gente mesmo! (Sem contar que já estávamos sem assunto, se é que é possível que duas mulheres cheguem a este patamar…)

E lá fomos nós. A mesa acomodou muito bem todos os 6, e o papo foi divertido, rimos até. Principalmente do amigo do rapaz, que já chegou lá “mamado”, depois de todo mundo, com uma long-neck na mão, contando “piadinhas de japonês” (de gosto duvidoso, claro) para o casal, e derramando tudo que estava em cima da mesa… Puxou um espetinho de nosso tira-gosto, o xuxou no molho PCC e ficou lá rodando o palito, uns 5 minutos… Quase perdi a respiração de tanto rir.

Bêbado é foda, não dá uma dentro. Bem que o coitado tentou, mas depois de 4 a 0, parei de contar os foras que ele levava e provocava…

Placar final: Galo 2 x 0 Avaí, pela Copa do Brasil, menos 10 reais na minha carteira, e abdominais feitos de tanto dar risada!

Ana.

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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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