O Questionário Proust

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Na expectativa de amenizar o marasmo da tarde de hoje (que, diga-se de passagem, está quente demais – fato este agravado pelo mesquinho impulso dos “dirigentes” do meu escritório em poupar a energia do ar condicionado em detrimento dos nossos neurônios), resolvi compartilhar algumas das minhas idéias, ou simplesmente, algumas observações com você, prezado leitor.

Aqueles que me conhecem um pouco sabem da minha profunda admiração pelo escritor Marcel Proust, considerado um dos maiores escritores franceses do século XIX. Aliás, a própria definição do século do qual Marcel participa como principal expoente é controvertida, vez que sua obra foi publicada no século XX, mas foi escrita quase que exclusivamente no século anterior, trata de fatos acontecidos no século XIX, e só não foi publicada por falta de interesse editorial (ou será “falta de perspicácia editorial”?).

Marcel ficou célebre por sua obra Em Busca do Tempo Perdido, saga de sete volumes na qual destacou-se uma antológica descrição da percepção do tempo advinda dos sentidos: o momento em que o narrador, já adulto, prova uma madeleine (espécie de bolinho com aroma de limão ou amêndoas) com chá, sabor que o remete à sua infância e é responsável pelo despertar de inúmeras sensações em seu íntimo. Esta descrição da memória involuntária é considerada por muitos como o ápice da obra, e foi ela que tornou Proust mundialmente conhecido, assim como as madeleines, claro!

Lá pelos idos de 1886, o então futuro escritor, na época com treze anos de idade, estava na festa da prima, Antoinette, e foi convidado a preencher um questionário. Era uma “modinha”, como se diz, uma brincadeira que teve origem na Inglaterra vitoriana, e que consistia numa diversão de salão chamada “Confissões”, na qual os participantes respondiam a uma pequena lista de perguntas pessoais. Essa se tornou uma brincadeira bastante comum nos refinados salões da Belle Époque, e se tornou uma fonte de assuntos e de animações para as festas, uma forma original de entreter os convidados.

Proust respondeu ao mesmo questionário duas vezes na vida, a primeira quando era menino, aos treze anos de idade, e outra, já um rapaz de vinte anos, quando servia o exército francês. As respostas do gênio da literatura francesa tornaram o modelo de questionário tão famoso que virou uma espécie de padrão até de entrevistas jornalísticas! Hoje, o pouco que se sabe da vida pessoal de Proust foi praticamente “deduzido” dos questionários respondidos, reencontrados pelo filho da prima Antoinette, e publicados em 1924. Através do questionário, pode-se conhecer bastante da personalidade e das aspirações do escritor, o que sempre instigou críticos, admiradores e fãs como eu. Em homenagem ao autor de Em Busca do Tempo Perdido, que gostava do jogo, a brincadeira é internacionalmente conhecida hoje pelo nome de “Questionário Proust”.

A grandiosa obra de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, trata, em resumo, dos contratempos de uma existência na procura da realização pessoal e da satisfação dos sentidos, do magnífico encontro das aspirações pessoais com a descoberta da realidade (que nada mais é do que a percepção – e compreensão analítica – das convicções íntimas do ser humano inserido num núcleo social). Não se trata, a Busca de uma autobiografia, como muito já se especulou por aí, mas o narrador, Marcel, como comumente acontece com os autores e suas obras, não se desprende, em momento algum da pessoa de seu criador. E muito do que Marcel (o personagem) buscava, Marcel Proust (o escritor) já havia descrito em seu questionário! No entanto, Marcel Proust gastou toda uma vida para chegar a esta conclusão, para atingir o fim da busca de si mesmo, em O Tempo Redescoberto, último volume da saga.

A reprodução da versão original em inglês das respostas dos questionários que o próprio Proust respondeu, aos treze anos – algumas das respostas surpreendem pela maturidade, como por exemplo Who are your favorite heroines in real life?/A woman of genius leading an ordinary life (Quem é sua heroína na vida real? Uma mulher de inteligência extraordinária com uma vida comum)- e aos vinte anos foi transcrita por mim ao final desse texto, vale a pena conferir.

E você, caro leitor, já pensou sobre o SEU encontro com você mesmo?

Então, quem sabe você não começa como Proust, com um simples questionário dirigido a você mesmo…? Além deste ser um ótimo exercício de auto conhecimento, as respostas obtidas podem ser surpreendentes, e até mesmo reveladoras.

1. Qual é sua maior qualidade?

2. E seu maior defeito?

3. A característica mais importante em um homem?

4. E em uma mulher?

5. O que você mais aprecia nos seus amigos?

6. Sua atividade favorita é…

7. Qual é sua idéia de felicidade?

8. E o que seria a maior das tragédias?

9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?

10.E onde gostaria de viver?

11.Qual sua cor favorita?

12.Uma flor?

13.Um pássaro?

14.Seus autores preferidos?

15.E os poetas de que mais gosta?

16.Quem são seus heróis de ficção?

17.E as heroínas?

18.Seu compositor favorito é…

19.E os pintores que você mais curte?

20.Quem são suas heroínas na vida real?

21.E quem são seus heróis?

22.Qual é sua palavra favorita?

23.O que você mais detesta?

24.Quais são os personagens históricos que você mais despreza?

25.Quais dons da Natureza que você gostaria de possuir?

26.Como você gostaria de morrer?

27.Qual seu atual estado de espírito?

28.Que defeito é mais fácil perdoar?

29.Qual é o lema da sua vida?

Madeleine e Chá
– Vai uma Madeleine aí?

Texto por Bela.

P.S.: Recebemos tantos pedidos de leitores para que enviássemos o questionário respondido pelo Proust que resolvi editar o texto original e publicar aqui mesmo as respostas do escritor:

Respostas do Proust aos 13 anos

What do you regard as the lowest depth of misery?
To be separated from Mama
Where would you like to live?
In the country of the Ideal, or, rather, of my ideal
What is your idea of earthly happiness?
To live in contact with those I love, with the beauties of nature, with a quantity of books and music, and to have, within easy distance, a French theater
To what faults do you feel most indulgent?
To a life deprived of the works of genius
Who are your favorite heroes of fiction?
Those of romance and poetry, those who are the expression of an ideal rather than an imitation of the real
Who are your favorite characters in history?
A mixture of Socrates, Pericles, Mahomet, Pliny the Younger and Augustin Thierry
Who are your favorite heroines in real life?
A woman of genius leading an ordinary life
Who are your favorite heroines of fiction?
Those who are more than women without ceasing to be womanly; everything that is tender, poetic, pure and in every way beautiful
Your favorite painter?
Meissonier
Your favorite musician?
Mozart
The quality you most admire in a man?
Intelligence, moral sense
The quality you most admire in a woman?
Gentleness, naturalness, intelligence
Your favorite virtue?
All virtues that are not limited to a sect: the universal virtues
Your favorite occupation?
Reading, dreaming, and writing verse
Who would you have liked to be?
Since the question does not arise, I prefer not to answer it. All the same, I should very much have liked to be Pliny the Younger.

Respostas do Proust aos 20 anos

Your most marked characteristic?
A craving to be loved, or, to be more precise, to be caressed and spoiled rather than to be admired
The quality you most like in a man?
Feminine charm
The quality you most like in a woman?
A man’s virtues, and frankness in friendship
What do you most value in your friends?
Tenderness – provided they possess a physical charm which makes their tenderness worth having
What is your principle defect?
Lack of understanding; weakness of will
What is your favorite occupation?
Loving
What is your dream of happiness?
Not, I fear, a very elevated one. I really haven’t the courage to say what it is, and if I did I should probably destroy it by the mere fact of putting it into words.
What to your mind would be the greatest of misfortunes?
Never to have known my mother or my grandmother
What would you like to be?
Myself – as those whom I admire would like me to be
In what country would you like to live?
One where certain things that I want would be realized – and where feelings of tenderness would always be reciprocated. [Proust’s underlining]
What is your favorite color?
Beauty lies not in colors but in thier harmony
What is your favorite flower?
Hers – but apart from that, all
What is your favorite bird?
The swallow
Who are your favorite prose writers?
At the moment, Anatole France and Pierre Loti
Who are your favorite poets?
Baudelaire and Alfred de Vigny
Who is your favorite hero of fiction?
Hamlet
Who are your favorite heroines of fiction?
Phedre (crossed out) Berenice
Who are your favorite composers?
Beethoven, Wagner, Schumann
Who are your favorite painters?
Leonardo da Vinci, Rembrandt
Who are your heroes in real life?
Monsieur Darlu, Monsieur Boutroux (professors)
Who are your favorite heroines of history?
Cleopatra
What are your favorite names?
I only have one at a time
What is it you most dislike?
My own worst qualities
What historical figures do you most despise?
I am not sufficiently educated to say
What event in military history do you most admire?
My own enlistment as a volunteer!
What reform do you most admire?
(no response)
What natural gift would you most like to possess?
Will power and irresistible charm
How would you like to die?
A better man than I am, and much beloved
What is your present state of mind?
Annoyance at having to think about myself in order to answer these questions
To what faults do you feel most indulgent?
Those that I understand
What is your motto?
I prefer not to say, for fear it might bring me bad luck.

(Texto editado em 23/10/2006)

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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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