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Whatever it’s gonna be, it’s gotta be
Mas como ir contra um sentimento tão forte? Uma atração maior que a força da gravidade? Uma sensação de impotência total, e sucumbência absoluta frente a tudo isso? E então deito de costas, e me ponho a boiar, deliciosamente fecho os olhos, e me permito sonhar. Conto carneirinhos, vejo desenhos em nuvens. Não olho para baixo, apenas sinto meu corpo cair, o vento soprando envolvendo meu corpo entregue ao simples ato de… cair.
E quando acordo deste sonho bom, sinto-me culpada por dormir tanto, sinto remorsos por boiar neste lago de águas doces e calmas durante horas, sinto dores, pois o chão é duro e a queda foi longa.
E todo dia é a mesma coisa. Tudo igual, tudo igual. A mesma tentativa de resistência, a briga interna, aí recebo um gostinho, ganho uma prova apenas, e é o bastante para a sucumbência. Para novamente pisar em falso e tropeçar em minha própria pedra no meio do caminho, se é que não era para ela estar ali, se é que o propósito do próprio caminhar não é justamente encontrar com tal pedra. Se é que esta pedra nada mais é que o retrato da minha imutabilidade, da minha incapacidade, da minha vida. Como um caroço no angu, ou uma pinta na pele alva, uma bolha no chocolate caseiro, ou ainda um retrato esquecido na parede.
Só sei que é impossível lutar contra. Continuarei sonhando, e caindo, e tropeçando. E lutarei a favor então. E viciada permanecerei neste círculo envolvente e impossível de administrar.
E bye-bye 2007. This is the end. O fim. “Zéfiní”.
E feliz 2008 pra nós!!!
Texto e foto: Ana.
Balões de Gás
É de madrugada, é de manhã
Acho que sou flor, água marinha e amor, criancice, juventude, ansiedade. Deita aqui, vem descansar. Passeio em tuas costas, largas, vejo o teu rosto, calmo. Ataque de beijos, de mãos, pernas, cheiro de roupa lavada, camisa molhada e cabelo pintado, aço escovado, espelho no teto e ponho-me a cantar.
Pergunta-me quem sou. Quem é você?, devolvo em retórica. História que começou, livro que se acabou, desejo que se iniciou, beijo que se apegou, coisa que não quero parar, pessoa que não quero lembrar, sol, sorriso e brincadeira, me dá minha mamadeira, deixa eu brincar de ser seu bebê.
Teto iluminado, som desligado. Barulho de gente, duas pessoas já é demais. Mergulho em teu sorriso, e esqueço que é melhor nem lembrar do perigo que é amar. Não quero saber, agora eu quero você. Não dou, não empresto, não vendo, não divido. Nem adianta argumentar. Se não é assim, então prefiro parar.
Era o meu medo que não me deixava escutar a sua voz no meu ouvido, a chamar. Não, prefiro negar. É mais fácil, mais ético, mais seguro.
Dane-se tudo, já entrei no mar. Se a onda bater, vou me afogar. Virarei um peixe, uma serpente do mar. Sereia a flutuar, com algas marinhas, golfinhos e estrelas do mar. Conchas para enfeitar o jardim de um polvo instalado em corais, com pérolas e marfim, peixes ornamentais, caranguejos e um castelo de vitrais.
É de manhã, e você não está aqui. Sinto meu corpo cansado, minhas coxas doloridas, e certamente não foi de te beijar. Melhor bocejar, soltar um espirro matutino, acordar. Se foi sonho, mania de grandeza, adeus, preciso trabalhar.
Ana.
” porque todo mundo já percebeu que eu tenho verdadeira paixão pelo povo mineiro. Lá descobri o mundo das crônicas de João Lenjob e vira-e-mexe ando por lá tirando suas lições…”

Fiquei muito feliz com a indicação, e o João também, pela menção às suas crônicas. Mais ainda, por conhecermos mais esta leitora de blogs, no caso, do meu.
Inté!
Ana.
Carta ao Papai Noel
Em primeiro lugar, nunca sei como chamar o senhor: Santa Claus, Nicolau, Papai Noel, só Noel, Bom Velhinho, Pai Natal, etc. Poderia me esclarecer esta questão, para começarmos melhor nossa conversa?
Em segundo lugar, gostaria de dizer que fui uma boa menina (mulher, garota, jovem, adulta?!) durante este ano. Trabalhei demais, estudei (de menos), namorei (um pouco), briguei menos, chorei (demais), vivi (demais), sofri (um bocado), viajei (bastante, porém menos que queria), malhei (não o suficiente), gastei (mais que deveria), poupei (menos que gostaria), fiz amigos (muitos), reencontrei pessoas queridas, reatei amizades, escrevi bastante, conheci pessoas novas de todo canto do Brasil e do mundo, brinquei, dancei, gritei, esperneei, beijei, amei, decepcionei, presenteei… enfim, vivi com plenitude!
Sendo assim, aí vai minha lista (merecida, diga-se de passagem) de presentes. Sinta-se livre para me dar o que quiser (ou puder):
– Um notebook;
– Um carro;
– Um namorido;
– Um apartamento.
Ok, ok, brincadeirinhas à parte. Na realidade, o que eu gostaria de ganhar, mesmo, é o seguinte:
– O sentimento da minha mãe;
– A inteligência do meu pai;
– O carinho do Léo;
– A garra do Ângelo;
– A sabedoria do meu chefe;
– A determinação da Gil;
– A minuciosidade da Renata;
– A folga do Fábio;
– A cara-de-pau da Elaine;
– A determinação da Adélia;
– A graça da Donária;
– A cultura da Bela;
– A simplicidade da Lú;
– O profissionalismo do Daniel;
– A paixão da Marília;
– A sagacidade do Nando;
– A capacidade do André;
– A vivência do Renato;
– A graça da Gabi;
– A transparência do João;
– A barriga sarada da menina da academia que corre 2 horas todos os dias na esteira;
– O talento de um grande escritor;
– Uma pele de pêssego;
– A ingenuidade de uma criança;
– A alegria de uma escola de samba;
– A música de um piano;
– A voz de uma soprano;
– A agilidade de uma borboleta;
– A liberdade de um passarinho;
– A beleza de uma flor;
– Arte, muita arte!
Ah é, quase me esqueci: o fim da fome no mundo!
Será que estou pedindo demais? 😉
Ana.
Carta ao Papai Noel
Em primeiro lugar, nunca sei como chamar o senhor: Santa Claus, Nicolau, Papai Noel, só Noel, Bom Velhinho, Pai Natal, etc. Poderia me esclarecer esta questão, para começarmos melhor nossa conversa?
Em segundo lugar, gostaria de dizer que fui uma boa menina (mulher, garota, jovem, adulta?!) durante este ano. Trabalhei demais, estudei (de menos), namorei (um pouco), briguei menos, chorei (demais), vivi (demais), sofri (um bocado), viajei (bastante, porém menos que queria), malhei (não o suficiente), gastei (mais que deveria), poupei (menos que gostaria), fiz amigos (muitos), reencontrei pessoas queridas, reatei amizades, escrevi bastante, conheci pessoas novas de todo canto do Brasil e do mundo, brinquei, dancei, gritei, esperneei, beijei, amei, decepcionei, presenteei… enfim, vivi com plenitude!
Sendo assim, aí vai minha lista (merecida, diga-se de passagem) de presentes. Sinta-se livre para me dar o que quiser (ou puder):
– Um notebook;
– Um carro;
– Um namorido;
– Um apartamento.
Ok, ok, brincadeirinhas à parte. Na realidade, o que eu gostaria de ganhar, mesmo, é o seguinte:
– O sentimento da minha mãe;
– A inteligência do meu pai;
– O carinho do Léo;
– A garra do Ângelo;
– A sabedoria do meu chefe;
– A determinação da Gil;
– A minuciosidade da Renata;
– A folga do Fábio;
– A cara-de-pau da Elaine;
– A determinação da Adélia;
– A graça da Donária;
– A cultura da Bela;
– A simplicidade da Lú;
– O profissionalismo do Daniel;
– A paixão da Marília;
– A sagacidade do Nando;
– A capacidade do André;
– A vivência do Renato;
– A graça da Gabi;
– A transparência do João;
– A barriga sarada da menina da academia que corre 2 horas todos os dias na esteira;
– O talento de um grande escritor;
– Uma pele de pêssego;
– A ingenuidade de uma criança;
– A alegria de uma escola de samba;
– A música de um piano;
– A voz de uma soprano;
– A agilidade de uma borboleta;
– A liberdade de um passarinho;
– A beleza de uma flor;
– Arte, muita arte!
Ah é, quase me esqueci: o fim da fome no mundo!
Será que estou pedindo demais? 😉
Ana.
Realismo Impossível
(Stricto et lato sensu.)
(Seja realista… Exija o impossível.)
Texto e foto: Ana.
Fragmentos
– Estás rindo de mim?
– Não, para você.
Me olho no espelho, e falta uma parte da face. Deixei ali, jogada pelo travesseiro, junto com o secador de cabelos. Estava molhada, não prestava. Preciso usar minha máscara de mulher forte, engraçada e sabichona.
Você levanta e diz que quer dançar, tomar um refresco, um pouco de ar. Diz que a vida não presta, e que é tudo mesmo assim. Vira pro canto e não liga pra mim.
Me embriago de vida, de histórias, de vento. Me encho de Lua, de terços e santos, me sento. Rezo. Rezo tanto!
Levanto a blusa de cetim, suja do meu corpo. Cansada e trouxa, fico nua no beiral.
– Será que ele me viu assim?
Paro e lembro da noite anterior. Perfume de xaxim, lirismo de jardim, um pouco de sangue no álcool pra ver se vai dar pé.
Como contar uma história se ela não tem fim? Se não é feliz, e se nem triste é. Não me faz chorar, nem me emociona. Não solto gargalhadas sem fim, não sinto saudades, não.
Pra quê contar, então? Não contarei.
Calo minha boca. Dormirei assim, sorrindo, nua no beiral, junto ao vento, no sereno e ao relento, suja do corpo, da trouxa, do riso, do gozo, do mofo, do moço, que um dia sorriu pra mim. Sou fragmentos de mim.

Texto e foto: Ana.
Paulicéia Delirante
O bom disso tudo é saber que lá todos são formigas, habitantes do mesmo espaço, comunidades diversas que se fundem e habitam o mesmo louco planeta São Paulo, em busca do mesmo delírio de vida. Influências americanas são inegáveis em tudo por lá, mas não há mesmo como não comparar Sampa a New York, em sua grandeza, diversidade, cultura. Ao mesmo tempo, tudo é muito brasileiro, muito tupi-guarani, muito italiano, muito libanês, muito árabe, muito japonês, muito português, tudo é muito… São Paulo!
Interessante reparar nos sotaques e costumes de cada bairro, com suas influências de diversos locais do mundo, e na paulicéia delirante, que vive num pulsar frenético movido a fuligem, dinheiro, café, cerveja, pão, metrô, cinema, teatro, cultura, diversão e arte. Comida para quem precisa. E reparar em como tudo lá é tão diferentemente escancarado e notório e especializado. Putas são putas. Doidos são doidos. Ricos são ricos. Pobres são pobres. Tudo é ao mesmo tempo, e nada é perto. Não há meios termos.
Ao contrário do que muita gente pensa, paulistas são simpáticos e prestativos. Atendem bem, acolhem, gostam do povo mineiro (ou seria das mineiras, uai?), seja ele japonês, clandestino, ou ilegal; e têm pressa, de tudo. Parece que têm pressa de viver. Falam muito, bebem muito, trabalham muito, dormem muito (nos fins de semana) e muito tarde (todos os dias), curtem muito. Mas também, numa cidade que nunca dorme e que tem vida própria, parece que cada esquina e cada muro e cada pedaço de chão têm uma história pra contar, e lá a pressa é amiga da perfeição.
Profissionalismo, pontualidade, delicadeza, sensibilidade. É como vejo tais criaturas, habitantes da maior metrópole do Brasil. E é com muito orgulho, convicção, e carinho que os chamo de MEUS AMIGOS.
Para: Bela (amiga e companheira de viagem), Nando e Alex (queridíssimos anfitriões), Márcio (nobilíssimo prefeito, o único que me recebeu com uma tulipa de cerveja derramada, foi a emoção, a emoção – rs), Clayton (aquele que tem a profissão carimbada na testa), Marco Vergotti (o CDF caxião mais fofo de todos) e Flávia (florzinha mega carinhosa), Karlinha (a luz em pessoa), Paulo DAuria (ele fala com os olhos, é impressionante), Caio (mesmo na ausência e no stress)…
Ana.
Menininha
O mundo lá fora era barulhento. Não tinha vozes de crianças, não se jogava amarelinha, nem se brincava de rouba-bandeira. Ruídos eram os das máquinas de quatro-rodas, das conversas adultas e dos morcegos que rondavam a região.
Engraçado como as árvores frondosas e centenárias, tão ornamentais e úteis para a cidade, no seu papel de refresco e retenção das águas das chuvas, poderiam abrigar seres tão medonhos e horrendos. Morria de medo quando tinha que fazer o percurso a pé, dos tais poucos quarteirões que a levavam da escola à casa, naquele horário de lusco-fusco, começo da noite.
Final de ano era chuva na certa. E às 18h, quando batia o sinal do Colégio e os coleguinhas entravam nos carros dos motoristas dos pais abastados, era sua hora de bater perna morros acima. Coraçãozinho disparado, mochila pesada, não podia correr. Havia uma casa… mal-assombrada. Nunca vira movimento algum lá dentro. Dizem que era habitada por fantasmas, e pelas sombras que rondavam por ali, habitantes das trevas e da enorme árvore, torta e cheia de sulcos e reentrâncias. O tronco negro, só podia ser oco, a casa dos seres das trevas, as raízes expostas eram como braços, querendo abraçá-la e levá-la lá pra dentro.
Passava sempre quase correndo , evitando olhar, com medo do que poderia ver. Jurava ouvir gritos de horror, ranger de dentes, e aquele cheiro de terra molhada de chuva e de musgo, que para ela, àquela hora da noite e naquele local assustador, parecia cheiro de mofo, de gente velha descuidada, de morte.
Mas era só o dia clarear, a luz do sol penetrar por entre as frestas das folhas, traduzindo num translúcido verde, cristalino e cintilante, para sentir o perfume de alecrim e lavanda que habitava os jardins das casas. E as sombras não mais ali estavam, dormiam naquele horário. E o sinal da escola já batia, e ela corria, para não se atrasar. E recreio, e morrinho, e terra, e suor, e bola.
E ela não poderia imaginar que um certo tempo depois, faria parte do mundo preto e branco e cinza dos adultos que circulavam por ali quando era menininha, com suas pastas e sombrinhas sem graça, sem sentir cheiros, sem ver as sombras e nem os morcegos – que se cansaram mudaram pra outro lugar.

Texto e foto: Ana.




