Cimento cozido

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Solzinho

O silêncio cega, mutila minhas mãos.
Aleijada, sigo no pasto: comer, dormir, acordar, trabalhar.
O ritmo da cidade engole e cospe sangue e fezes
No mesmo prato
Digere ratos, tritura fracos.
Oprimida, sigo por entre os que oprimo
Odiada pelos que odeio
Destemida, despudorada.
No mundo que não é de marshmellow
O chão fofo cede lugar ao cimento duro e cozido
Não há nuvens suficientes
O calor derreteu
Não há ácido suficiente
A pele descamou, o cérebro dissolveu
E o menino atravessa a rua de mãos dadas com o acaso
Desnudo, desnutrido, desavisado.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Reflexo

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Reflexo

Tenho medo do escuro
Do vazio de dentro e de fora
Tenho medo do barulho que ensurdece a mente e cega a canção
Prefiro a dor ao nada
Pois se nada é, não há escolha a fazer
Quem ama o nada, alguma coisa lhe parece.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Warning

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Perigo, eu posso voar
Vou correr até me afogar
Perigo, eu posso sonhar
Vou comer até me acanhar
Perigo eu posso ser eu
Atracar os pés no chão e enxergar que é preciso sentir medo pra gente andar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Cegueira

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Éli-Pê

Um dia uma folha me assustou, num branco pálido cegou minha mente, calou meus ouvidos e secou pensamentos. Muito a sonhar, mais ainda a trabalhar, nada a criar, exceto vidas ao alcance das mãos, exceto páginas cheias de nãos.
No dia seguinte e nos outros então, caminhei errante por pedras rolantes, escadas íngremes que nada ajudavam a dura aventura de vomitar palavras, cantos e contos. Os pontos finais, coitados, serviam apenas a frases malucas, que só sentido têm a quem não tem alma, só juridiquês.
A cegueira da folha branca um dia passou. Como num estalo, um verso brotou fujão, quase me escapa o pensar, escorria pelo lado direito que nem fumaça de incenso, preguiçoso ele de se deixar escrever.
Sou adepta da escrita e do grito, mas sem a ajuda do grande irmão, doutor em senhas e códigos, nada sou, nada faço, não nado, não surfo, não vôo. Não falo, não vejo, não ouço. Será?
Comecemos então:
– Asdfg, maiúscula, vírgula, ponto, deixa estar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Desejos

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Faça um pedido, eu vou te mostrar.
Um desejo apenas, que vou te brindar.
Faça o que eu faço, vou te falar:
Uma moedinha vou atirar.
Jesus pequenino, me faça um favor,
Atenda o meu pedido, uma boneca e uma flor.
Uma bicicleta, pro menino ao lado.
E que tenha sempre comida no prato.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Muito ou Pouco

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BH_ 015

às vezes amar parece muito
e às vezes amar é pouco
é muito pouco
(ou é o suficiente?)
mas quando só amar é pouco
(muito pouco)
não existem mais palavras
tão indefiníveis
ou tão definidas
tentadas
usadas
sofridas
Amor.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

I.M.P.E.R.D.í.V.E.L

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Dica pra galera de Sampa, que não pode perder este lançamento de jeito nenhum!

EGA: O que nem Freud explica.

“Karla Jacobina é poetisa desde que se entende por gente e seu plano para o futuro é continuar sendo até morrer de velha. Bicho-do-mato-grosso domesticado por São Paulo. Bacharel em Direito, mas esse é um segredo que pretende não deixar para inventário, pois levará para o túmulo. Filha adotada de Iemanjá, Odo-Iyá! Morou a vida em apartamentos, razão de suas habituais infiltrações. Poderia ser claustrofóbica, mas aprendeu antes do medo a desenhar linhas de chegada. Caju mancha e mentira também. É míope, um e vinte e cinco de cada lado, mas enxergar através de lente de contato comprada lhe deixa cega. Dança é uma faísca que escapa dela. Poesia é outra.”
www.karlajacobina.com

Ana.

Muffins

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Cupcake

Ontem testei a receita do “Whole wheat banana nut muffin“, que encontrei no “How to eat a cupcake“. Vira e mexe entro naquele site e fico babando nas receitas todas, já que olhar não engorda né?

Tive que mudar um pouco, pois me deparei com algumas situações adversas: falta de nozes em casa, ovo muito pequeno, bananas meio pequenas e não muito maduras, e o desconhecimento do que viria a ser “cramberries” (provavelmente alguma frutinha maravilhosa que não existe aqui no hemisfério sul), tendo que usar a boa e velha uva-passa no lugar. Quem não tem cão, caça com gato!

No final das contas, ficou delicioso e fez muito sucesso por essas bandas de cá! Além do mais, é saudável, integral, feito com fruta e não compromete a dieta.

Mas, vamos ao que interessa: a receita!

Muffin Integral de Banana com Amêndoas e Passas
(Rendimento: de 10 a 12 muffins.)

– 1/3 xíc. leite
– 1/4 xíc. óleo
– 1 ovo
– 1 1/2 xíc. farinha de trigo integral
– 1 xíc. farinha de trigo branca
– 1/2 xíc. açúcar mascavo
– 2 colheres de chá de fermento em pó
– 1/2 colher de chá de sal
– 1 xíc. bananas amassadas (mais ou menos 2 médias)
– 1 colher de chá de essência de baunilha
– 1/3 xíc. de uvas-passas
– 1/3 xíc. amêndoas ou nozes levemente torradas e grosseiramente picadas
– Cobertura Streusel, opcional (receita abaixo)

1) Pre-aqueça o forno em 200°C.
2) Faça a receita da Cobertura Streusel, reserve.
3) Unte com margarina de 10 a 12 formas próprias para muffin, de metal ou cerâmica, polvilhando farinha de trigo branca para não agarrar. Reserve.
4) Numa tigela grande, bata leite, ovo, óleo e as bananas amassadas. Vá juntando as farinhas, o açúcar, o sal, a baunilha, e por último o fermento em pó. A massa vai ficar bem consistente. Incorpore as passas e as nozes (ou amêndoas) picadas, misture bem, mas sem bater. Divida a massa igualmente entre as forminhas de muffin. Por cima da massa, despeje 1 colher de sopa de Cobertura Streusel, se for usá-la, em cada forminha.
5) Asse durante 20 a 25 minutos, ou até ficarem marrom-dourados. (Este tempo varia muito de forno pra forno, portanto, não se esqueça de testar com um garfo no meio do muffin: se sair limpo, está assado!)
6) Após tirar do forno, espere uns 5 minutos para desenformar. Caso esteja usando forminhas de papel dentro das de metal (ou cerâmica), desenforme imediatamente.

Cobertura Streusel

– 1/4 xíc. farinha de trigo branca
– 1/4 xíc. açúcar mascavo
– 1/4 colher de chá de canela em pó
– 2 colheres de sopa de margarina

Numa tigela média, misture a farinha, o açúcar e a canela. Corte em cubinhos a margarina e usando um batedor vá misturando tudo até incorporar bem, virando uma espécie de farofa crocante.

Observações: Confesso que ao bater, achei a massa do muffin um pouco consistente demais, parecendo massa de pão. Isso pode ter relação com vários fatores: clima muito seco, leite desnatado (pois não tinha do integral em casa), a banana era “prata” e não estava muito madura, etc. Então tive que aumentar, no “olhômetro”, um pouquinho a mais de leite (cerca de 2 colheres de sopa a mais) e de óleo (mais ou menos 1 colher de sopa a mais também). O açúcar mascavo daqui de casa estava meio compactado, então creio que coloquei 3/4 de xícara ao invés de apenas 1/2 xícara. Mas mesmo assim, depois que bati, a massa ainda ficou bem consistente. Depois de assado, o muffin ficou perfeito! Massa boa, macia, na saborosa, na consistência e umidade certas!

Espero que testem e gostem da receita! Eu recomendo.

Ana.

Para ver mais fotos, clique aqui.
Para ler a receita original, clique aqui (em inglês).
Para dúvidas, deixe um comentário ou mande e-mail para falecom.mineirasuai@gmail.com.

Prato visto de cima

Tinta Preta

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Porto Seguro, Bahia 173

Tantas palavras corrrem e a tinta escorre no tubo que roça com a língua entre linhas espaçadas de um caderno só. Afinal, é apenas um caderno, é apenas uma vida, uma caneta em sobrevida, que nem marca se vê mais. Se bem que diferença alguma iria fazer, já que a língua japonesa ou oriental que seja, dos confins de onde se originou meu artefato de escriba, não é coisa com a qual eu tenha intimidade.

E no interior de um quarto semi-escuro, a mão quase treme e teima em tecer porcas e pobres e desconexas letras, num desafio ortográfico para grafologista nenhum por defeito… O ponto vira traço, um pingo vira letra ilegível, não sei mais se é acento ou rasura.

Rabisco uma vírgula que nem pausa é mais.
Vira um ponto num ponto qualquer de aterrissagem da ponta fina de onde mina minha tinta.
Preta.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Menino, eu vi!

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Muro

Eu vi o menino andando à minha frente. Lá longe, a mãe do menino, esperando.
Eu vi o homem barbudo vindo, olhando o menino e a mãe do menino.
Eu vi a casa na esquina, a rua, carros passando, o muro baixo da casa e o portão branco, enferrujado.
Eu vi o homem barbudo, lá longe, olhando a casa da esquina.
Eu vi o menino parando, a mãe do menino parando e falando ao menino.
Eu vi o menino pedidno e a mãe ascentindo com a cabeça.
E o homem barbudo vindo, olhando o menino.
Eu vi o menino mijando no muro baixo da casa da esquina com seu portão branco, enferrujado.
Eu vi a mãe virando de costas, o homem vindo andando, olhando a casa da esquina e o menino a mijar.
Eu vi o tempo passando e o muro baixo da casa da esquina molhando com um brilho amarelo.
Eu vi o homem barbudo perto do menino. O menino parando de mijar.
Eu vi o menino correndo, o homem barbudo entrando na casa de muro baixo da esquina, abrindo e fechando o portão enferrujado.
A mãe do menino a ralhar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)