Arquivo da categoria: Ana

E a vida?

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Cirque du Soleil

E a vida o que é?
É palhaçada ou não é?
É brincadeira ou não é?
Tem cambalhota?
Tem sim senhor.
Tem marmelada?
Tem sim senhor.
Tem piruetas, palco iluminado, trapezista?
Dançarinas, mágico, alquimista?
Tem bicicleta morro abaixo…
Tem cachoeira jorrando
Mágoas…
Tem gente se aquecendo
Luar…
Tem curvas, montanhas
Russas
Círculos concêntricos
Viciosos…
Tem amor.
Tem sabor.
Tem ódio.
Tem fantasia.
Tem alegria.
Diga lá meu irmão:
E o palhaço o que é?
É ladrão
De coração
De mulher.

Ana.

(Texto e foto: Ana.)

Coxos

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Para mudar a sua história...
Decrépitos, feios, sujos, leprosos, carregadores, catadores, maltrapilhos, mendigos, moradores de rua, periféricos, mancos, discriminados, renegados. A caminho da rodoviária, vejo-os todos, em seus trapos, carros de tração nas duas pernas.

Cobertor paraíba e travesseiro de pedra, em seu papelão de abrigo… Do frio, da noite, do mundo. O mesmo que os rejeita, engole, regurgita e cospe, num gozo capital, da capital da mina geral, do ouro das entranhas minerais, de esgotos e galerias pluviais, habitam as ruas junto aos ratos e gatos noturnos. Seres soturnos, calados, impávidos e obsoletos, criaturas de carros limpos e vidros fechados, passam também.

Seguem seus caminhos, ignorando-se mutuamente, todos: decrépitos, feios, sujos, leprosos de mentes, pensamentos e idéias, que atravessam a vida de coquetéis e ternos Armani, (ul-)trajes a rigor e convites formais.
Sem olhar pra trás.

Ana.

(texto e foto)

Será que lágrimas secam?

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Bem-me-quer...
[Press “play”.]

Será que lágrimas secam?
Será que é muito sentir?
Quando o som da boca tua provoca um arrepio nos ouvidos meus, percorre os nervos até o cérebro e retornam num pique-repique no coração
Então é a boca minha que se seca, e o olhar meu que se molha.
E dá vontade de gritar a todo mundo:
– Pode me escutar?
E nesta mesma fração de segundo fui à Lua e voltei, saltitando por luzes e faróis, correndo de carneirinhos com medo do bicho-papão.
E ao cair na imensidão do chão teu, encontro nuvens em pó e caminho iluminado, me agarro nos cachos teus e me deixo navegar.
– Me deixa morar neste azul?
– Me deixa encontrar minha paz?
– Você, que é bonito demais: Se ao menos pudesse saber que eu sempre fui só de você, e você sempre foi só de mim…

..
.

Sabe por que sentir saudades é bom?
Eu sei…

..
.

Ana.

[Texto e foto: Ana.]
[Song: Chan Chan – Buena Vista Social Club, by Radio.Blog.Club.]

Lá: onde se quer chegar.

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BH_ 009
O que fazer quando perfeito é pouco demais?
O que falar quando palavras se fazem desnecessárias, quando o silêncio faz parte, quando o peito aperta, e resta só a sua respiração?
O que fazer quando o tempo é longo demais, ou rápido demais?
O que fazer quando o alimento da alma nos sacia, e a fome aumenta ainda mais?
E o beijo que vem inesperado, sela o pacto, cala a boca que fala e a que nada diz, e prova mais uma vez que o silenciar é tão importante quanto o dizer, pois o pensar evita tanta dor…
E o perfeito é o suficiente, em seu mar de imperfeições, idéias e expectativas que ficam para trás. Novas que chegam e devem ficar. Futuro a conquistar.
E o coração dispara e aperta quando chega e quando dá tchau. E os olhos se fecham quando devem fechar, e os cachos se tocam quando devem enrolar, e a água escorre e aquece quando deve transbordar, e transborda quando deve esfriar. E o ritmo acelera quando deve cessar, e a cabeça voa para bem longe estar.
Para onde se quer chegar. Lá.

Ana.

(texto e foto)

Depois…

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Bibi fonfon

Depois que tudo passa, muito tempo depois, restam as lembranças. Sendo elas boas ou más, apenas elas ficam. Não que queira mais que isso. Apenas elas já bastam. A água que passou debaixo da ponte não volta mais — e todo mundo sabe que água reaproveitada não é própria para o consumo humano.

Você se torna mais um número na agenda telefônica. Daqueles que você ainda não apagou pois um dia na vida, outro na morte, poderá precisar de alguma coisa, que nem você mesmo consegue imaginar o que poderia vir a ser. Devolver aquele livro do Dostoiévski, talvez, ou o DVD dos Rolling Stones. Ligar pra conversar, botar o papo em dia… nem pensar! Que papo? Não existe mais papo ou notícia pra contar, acabou o diálogo, acabou a vontade de dialogar. Ficou tudo artificial demais, chato demais, na mesmice demais.

Colecionar fatos, pessoas, lembranças, mentiras, sapos engolidos, momentos. É disso que é feita nossa vida. E é isso o que acontece, depois que tudo passa. Mais um item na coleção de coisas passadas.

Você se torna mais um álbum de fotografias guardado no alto do armário, junto com todos os outros. No caso dos mais moderninhos, aos quais fotos impressas estão obsoletas, você vira uma imagem .jpeg gravada em CD’s e DVD’s de fotos esquecidos na estante, arquivos digitais que lotam as memórias dos chips das máquinas que já não são mais usadas, em pastas de computador que não são mais clicadas, abertas, expostas, lembradas. Você vira Um mero endereço de e-mail, ao qual mensagens de humor ou reflexão são enviadas — isso quando não se trata de arquivos horrendos e piadas encaminhadas de péssimo gosto, apresentações bregas de powerpoint, dessas que você nem manda executar, manda pra lixeira direto.

Mas te esqueceram de contar que depois que tudo passa, muito tempo depois, resta você. Resta a sua vida inteira pela frente. E isso já é coisa demais. E ponto final.

Ana.

(texto e foto)

Não me canso

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Não me canso

não me canso de te ver
teus olhos
tão longe
tanto amor
tanto tempo
tanta coisa
tanto faz
tanto fez
não me canso nunca
de querer
não me canso de pensar
de saber
de olhar
de sentir
não me canso
nunca
nunca
nunca

..
.

Ana.

(texto e foto)

Um dia qualquer

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Um dia qualquer

Um dia qualquer
Te encontro
Te puxo, te acho
Debaixo da cama,
Na máquina digital

Um dia qualquer
Te colo, te seco,
No sal da tua camisa
Vermelha
Impressa
Mãos em prece
Bola de cristal

Na esquina te procuro
No mar te mergulho
No suor me acho
No teu cheiro me perco
Na tua saliva me embebedo
De água, de cachos, de rubros abraços

E quando finalmente te encontrar
Serei eu a perdida
Jogada
Caída
Exausta
Moída
De tanto procurar.

Ana.

(texto e foto)

Ouve só

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Cubos

Não sei dizer
Quando é tão bom ouvir sua voz
Se apenas sinto
Ou se falo
Se te beijo
Ou me calo
Se sonho ou se peço
Que fale mais
Fale sempre, aqui e agora
O timbre
O chiado
Sussurrado, ouvido, gozado
E a experiência de te ouvir se transforma
E viver se torna
Bom.
Mais uma vez
Eu sei.
Cala a boca e ouve.
Só.

Ana.

(Texto e foto.)

Quer?

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Muro

Queria ser sabida, sapiente, paciente, ouvinte, amante, displicente, penitente, santa…
Magnífica, sentimental, natural, semeada, serelepe, sensual
Sarada, sapeca, sedosa, remediante, referência, reverenda
Correr para sair do meu quadrado-ado
Queria gritar sem ser ouvida
Saber de tudo
Saber disso
Queria ser sábia
Queria ser
Queria
Quero
Quer
Eu
?

Ana.

(texto e foto)

Tudo

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O NADA
Para quem quer O NADA… tudo!

Leia no MACABELAGEM, o blog literário do Projeto Macabéa.

Confira ainda o número 1 da Trapiches, a revista cultural eletrônica do Projeto.
(E aguarde novidades, pois o número 2 já está em construção…)

Ana.

(Foto by Jerico.)