João Lenjob: As Cinco Quadras

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Na sua crônica de hoje, o poeta João Lenjob conta de maneira curiosa uma experiência extra-sensorial na cidade do horizonte belo… Bora lê um cadim?

PPJL

As Cinco Quadras
Ainda bem cedo, nota-se um largo mundo novo com serra sinuosa que desperta o finito do horizonte que dá nome à cidade. Pessoas que vivem e fazem a “silhueta formigueiro”. Ninguém é de ninguém. O mundo é de todos. Pelo menos nesta citação, é um conjunto de mundos para cada ser ali, passageiro.

De início a exibição de um perfil mais preservado. Pessoas andam rápidas, outras muito vagarosas e ainda hoje, no século vinte e um, há quem cumprimente, na forma mais literal da palavra, sem conhecer. Com generosidade e nostalgia. Por aí passam ambulantes, mágicos, doentes, muitos doentes, e até artistas e poucas pessoas atenciosas a todos estes gêneros. Assim é o desfile cotidiano da das cinco quadras iniciais da Avenida Afonso Pena, capital mineira.

Fiz questão de sair de meu mundo e arriscar e vasculhar impetuosamente cada mundo ali presente, numa aventura que é muito bom recordar. Perdi-me meio às diversas pessoas de idades diferentes e vi prantos, sorrisos e sonhos. Conversas moles, fiadas e até quem acredite num futuro plausível para o país, estado e cidade.

Os aposentados sempre foram ali os mais elegantes. Quando não se unem a grupos de colegas, para assuntos extras, esbanjam saúde e grande sanidade ao vencer os mais jovens nos xadrez, dama, dominó ou cartas. São lugares interessantes que cabem também comerciantes, banqueiros, bancários, desempregados e consumidores. Acha-se de tudo e, sobretudo, o sotaque local com variadas formas do “trem”. O único lugar que uma lotação que passa por ali é “trem” e também carros, motos, bicicletas ou a rápida visualização de um helicóptero ou barulho de um avião. Também é muito comum o universo de palavras reduzidas, sintetizadas, que é identificável muito facilmente, apesar do desconfiômetro e da timidez de caráter mineiros. Logo se ouve “comé qui ce tá?” Ou “nooooooó!!!!”.

Dentre outros milhares. Cruzando o pirulito da Praça Sete, nota-se várias tabacarias que pode-se degustar o mais famoso “cafezim” brasileiro e o mais nobre e inesquecível “pãozim de queij”. Pessoas sempre comentam e discutem do futebol do fim de semana, com mais freqüência sobre Atlético e Cruzeiro, e mais pênaltis, faltas, roubos e enfim, gols. E assuntos políticos, mais comíssios e bandeiras, bandeirolas de todos os partidos e também a circulação de policiais com suas fardas, coturnos e rádios e, algumas vezes, cavalgando por sobre cavalos quase que reais.

Curiosamente, a correria de gente não acaba, e o cruzamento de mundos também não. Mas ao fim do itinerário, o volume de pessoas é menor e também é diferente o perfil. Aparecem mais vestimentas brancas, lembráveis da proximidade com a área hospitalar da cidade e em alguns horários do dia tudo neste trecho lembra um desfile de estilistas. Não é um desfile de modelos. É de estilistas mesmo. Vertência dos eventos artísticos do Palácio das Artes, que fazem de alguns expectadores os “concorrentes do brega”. Vê-se novamente de tudo, só que com requinte e enfeite. A grande maioria longe do convencional.

Somados por metro quadrado, torna-se fácil elaborar uma estatística e perceber que qualquer cidade tem estes mundos, variando proporcionalmente à população, mas o “cafezim” e o “pãozim de queij”… é só em Minas mesmo.

João Lenjob *
http://www.lenjob.blogspot.com/

joaolenjob@yahoo.com.br


* João escreve neste blog toda sexta-feira. No resto da semana ele discute sobre Atlético e Cruzeiro e caminha pelas 05 quadras da Av. Afonso Pena, apreciando este belo horizonte…
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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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