Um Defeito de Cor

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“You don’t reach Serendipity by plotting a course for it. You have to set out in good faith ofr elsewhere and lose your bearings serendipitously.” (John Barth, The Last Voyage of Somebody, the Sailor – NY, 1991.)

Estou lendo Um Defeito de Cor, o livro de Ana Maria Gonçalves, lançado em BH no dia 12/05, 6ª passada, na livraria Quixote, pela Editora Record.

As 952 páginas começaram a me fascinar desde a primeira vista: capa dourada acobreada, acetinada, orelha escrita pelo Millôr Fernandes, o título é sugestivo, as folhas são de um tom bege claro, a letra Times, formatação impecável, o livro nem é muito pesado… Mas nada disso importa: o melhor é a história do defeito, da cor, da saga que atravessa 8 décadas…

“[…] Um defeito de cor, que tendes em mão (por respeito sempre me refiro a este livro na segunda do plural), está entre os melhores que li em nossa bela língua eslava. […] Em suas 952 páginas, Um defeito de cor não tem hausto, parada pra respirar. Desmintam-me, por favor.”

Foi o Millôr Fernandes quem disse, na orelha do livro, e não ousarei desmenti-lo. O livro é literal, a narrativa é livre, corrida, você não dorme, não respira, não consegue parar de ler.

Há muito tempo antes do lançamento já havia ficado curiosa para ler as aventuras de Kehinde: mulher, negra, nascida em Savalu, reino de Daomé, África, em 1810. Foi o Idelber quem entregou o ouro, num encontro no Maleta, ano passado, em que também estavam presentes meu pai, Biajoni, Guto e Mônica.

Contrariando a grande maioria dos romances históricos que já li, e que existem por aí, esta é uma história da vida de uma mulher, sua luta, seu sofrimento, sua família, sua vida, sendo que os outros são quase sempre sobre homens, suas batalhas e feitos heróicos.

Mais marcante ainda, é o fato de ser esta esta mulher uma africana negra, capturada como mercadoria, como carneiro (ou pior, até), e de ter chegado ao Brasil por meio de um navio negreiro, como escrava, passando todos os perrengues por que devem ter passado nossos antepassados (sim, pois no Brasil somos todos mestiços, esqueceram?)…

“Nós, as mulheres, gostaríamos de ter esperado pelos homens no convés […]. Logo nos fizeram entender que qualquer protesto seria recebido com violência. […] O navio tinha dois porões, e o de baixo, onde fomos colocadas, era um pouco menor que o de cima, pelo qual passamos sem parar. Também não tinha qualquer entrada de luz ou de ar […]. Silêncio que mais parecia um pano escuro e malcheiroso, sabendo a mar e a excrementos, a suor e a comida podre, a bicho morto. Carneiros, talvez.”

Além da aventura, da histíoria narrada no livro, vale muito à pena ler o Prólogo… Nele, a Ana conta como foi que começou a escrever o livro, a idéia, de onde surgiu, etc… E isso, creio eu, seria assunto pra outro livro, tamanhas as coincidências e serendipidades ocorridas.

Um defeito de cor é fruto da serendipidade. Ele não só contém uma história, como também é conseqüência de uma outra história que, depois de pensar bastante, percebi que não posso deixar de contar […].”

E para saber o que é a tal da serendipidade (serendipity):

“Serendipidade então passou a ser usada para descrever aquela situação em que descobrimos ou encontramos alguma coisa enquanto estávamos procurando outra, mas para a qual já tínhamos que estar, digamos, preparados.”

Ficou curioso? Então corra já para a livraria mais próxima, ou então compre pela internet mesmo! Um Defeito de Cor já está a venda aqui, aqui, aqui e aqui!

(De pé: Idelber Avelar, pai e mãe. Sentada: Ana Maria Gonçalves autografando nosso exemplar – BH, 12/05/2006, Livraria Quixote).

Ana Letícia.

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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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