Cantigas de Assustar

Padrão

Ou:
Boi da Cara Afro-Americana (?!)

Sempre fui muito musical. Inclusive tenho mania de brincar com músicas e letras de músicas, como até mesmo já comentei neste texto, além de ter aprendido a tocar piano aos 06 anos, e ainda fazer desta atividade uma de minhas terapias pra enfrentar o dia a dia. Sem contar que minha família também é musical, meu pai toca vários instrumentos, meus irmãos tocam samba de raiz, meu avô já tocou em banda na cidade dele, meu avô materno toca violão e acordeon desde moço, etc.

Nada mais natural que eu, enquanto criança em desenvolvimento num ambiente amplamente musical, gostasse de cantigas de ninar… Certo? Errado! Uma coisa que sempre me intrigou muito foram as tais “cantigas de ninar”, ou “cantigas de roda”, tradicionais em Minas, e creio que em todo o Brasil. Isto porque, muitas vezes – quando criança – eu não conseguia nem dormir se alguém cantasse pra mim uma dessas músicas, de tão assustadoras que eu as achava. Sempre ficava imaginando as cenas da letra das músicas, e muitas vezes o que eu conseguia era ter um pesadelo daqueles…

Você já parou pra pensar e examinar a fundo?

Dá só uma olhada: “Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta”. Ou então: “Atirei o pau no gato / mas o gato / não morreu / Dona Chica / admirou-se / Do berro / do berro que o gato deu / Miau!”. São ou não são letras de um certo mau gosto, e pra piorar, politicamente incorretas?

Aí outro dia recebi um e-mail contando a história de um brasileiro que morava nos Estados Unidos, e trabalhava de “baby-siter” pra complementar a renda, e este rapaz começou a ficar extremamente sem jeito e preocupado ao comparar as nossas cantigas de ninar com as de língua inglesa, que eram em geral bem mimosas, inofensivas e infantis mesmo. Além disso, fiquei muito surpresa ao ler na Veja de 22/03/2006 (a que tem o FHC na capa), uma reportagem da jornalista Mônica Weinberg – “Será que Funciona? Cantigas ganham letras politicamente corretas” – exatamente sobre as nossas bizarras cantigas de ninar, e suas versões politicamente corretas (não menos bizzaras, em sua maioria, diga-se de passagem).

Então vejamos:

O “Boi da Cara Preta” virou “Boi do Piauí”:
“Boi, boi, boi, boi do Piauí, pega essa menina que não gosta de dormir”.

(Rá! Tirou o preconceito contra negros e entrou o preconceito contra Nordestinos… Não sei o que é pior. Além do mais, continua fazendo ameaça à criança…)

E o Atirei o Pau no Gato ficou assim:
“Não atire o pau no gato / porque isso / não se faz / o gatinho / é nosso amigo / não devemos / maltratar os animais / Miau!”.
(A letra é até ecologicamente correta, mas não achei que ficou muito legal com a melodia…)

Já O Cravo e a Rosa…
“O cravo brigou com a rosa / debaixo de uma sacada / o cravo saiu ferido /e a rosa despedaçada. / O cravo ficou doente / a rosa foi visitar / o cravo teve um desmaio / a rosa pôs-se a chorar./ A rosa deu um remédio / e o cravo logo sarou / o cravo foi levantado / a rosa o abraçou.”
(Ok, ok, e o início da música? É, parece que a violência doméstica é considerada normal… Como crescer e acreditar no amor e no casamento depois de ouvir essa passagem anos a fio???)

E as outras canções? Não foram sugeridas mudanças ainda para elas:

“Eu sou pobre, pobre, pobre / de marré, marré, marré / Eu sou pobre, pobre, pobre / De marré de si. / Eu sou rica, rica, rica / De marré, marré, marré / Eu sou rica, rica, rica / De marré de si.”

(Chega a ser uma Ode à Desigualdade Social…)

“Vem cá, Bitu! vem cá, Bitu! / Vem cá, meu bem, vem cá! / Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá! / Tenho medo de apanhar.”

(Quem foi o adulto sádico que criou essa rima? No mínimo ele espancava o pobre Bitú…)

“Marcha soldado, cabeça de papel! / Quem não marchar direito, / Vai preso pro quartel. / O quartel pegou fogo / Maria deu sinal / Acode, acode, acode à bandeira nacional”.

(De novo, ameaça! Ou obedece ou você vai se fu*… Sem contar que dá mais valor ao bem material – a bandeira – que à vida dos soldados…)

“A canoa virou / Quem deixou ela virar / Foi por causa da (nome de pessoa) / Que não soube remar”.

(Ao invés de incentivar o trabalho de equipe e o apoio mútuo, as crianças brasileiras são ensinadas a dedurar e a condenar um semelhante.)

“Samba-lelê tá doente, / Tá com a cabeça quebrada. / Samba-lelê precisava / É de umas boas palmadas”.

(A pessoa, conhecida como Samba-lelê, encontra-se com a saúde debilitada e necessita de cuidados médicos. Mas, ao invés de compaixão e apoio, a música diz que ela precisa de palmadas! Acho que o Samba-lelê deve ser irmão do… Bitú!!!)

E aí? Alguma sugestão?

Beijos,

Ana.

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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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