Se A, então B

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Filosofia de banheiro

Sonhei com números, acordei dividida.
Multipliquei dúvidas por aliterações
Dividi o sonho entre dor e paz.
O que me restou?
Paixão e sentimento exponencial
Amor: número primo, indivisível.
A raiz quadrada do sonho se desfaz
Sobra sexo, sono, som, fumo
Atos cotidianos que tendem ao infinito
Acordar, urinar, continuar
E sonhar acordada com cifras e milhares de milhões
Acasos formam efemérides e me dão noites sem dormir
De cor
Decoro
O coro
Decifro números, incógnitas e palavras
Frases lógicas brotam
Intrínsecas ao ser ou não ser
Senão, nada mais irracional que
Não estar
Não ser
Não te ter.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Artesão

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BH_ 099

Suspira. Olha para longe – ignora minha presença. Acaricia o bigode e alguns fios apenas de sua barba, meticulosamente toca em cada um, arrumando-os, reposicionando o que já não é muito organizado. Ajeita na frente de si o caderno, em posição exatamente perpendicular à borda da mesa. Ao lado, uma xícara de café frio repousa, a colher suja pende para um dos lados. Mais à frente, cinzeiro, isqueiro e maço de cigarros espreitam, pacientemente – como eu.

Alisa a folha escrita. Acaricia as palavras ali deixadas, amantes guardadas como um tesouro. No plural. São centenas de folhas e dezenas de cadernos, menores ou iguais a este.

Um brilho no fundo do olhar faísca ideias, que rastreia sobre o papel com a caneta que ganhou de brinde promocional. Gentileza para uns, salvação para outros, dependentes das letras e dos escritos – uma caneta, dez, vinte, nunca é o bastante.

E assim, vez por outra produz maravilhas – outras, nem tanto – em vocábulos fonéticos, frases e orações. Por horas a fio, sob a luz do abajour, sem sair do lugar, viaja pelos séculos, vai e volta a terras longínquas e… continua aqui.

Artesão de palavras. Escritor. Segue seu caminho de pautas, margens e pingos nos is.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Em pílulas

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Miudeza

Eu não tenho um ângulo bonito
Não tenho paz
Não tenho pás
Nem sei como se faz
Ou se é atrás.
E se você não tem lóbulos
Dê-me logo meus glóbulos
De açúcar para remediar
Minha falta de ângulo
Minha falta de dor
De cor
De amor teu.
Quero gotas maiúsculas
E coisas minúsculas
Para guardar por entre minhas curvas
Dentro de meus retângulos circunflexos
De sentimentos convexos
Ósculos e amplexos
Que um dia você me deu.

Ana.

Presente, Passado e Futuro

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Presente, Passado e Futuro

(Texto e Foto: Ana.)

Obs. 1: Clique no cartão para visualizá-lo em tamanho maior.

Síndrome

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Milagres

Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando… Esperando…

Aguardo um milagre… Um acontecimento? Não, apenas algo (ou alguém) passando por mim que me faça transcorrer impulsos nervosos do cérebro à mão. Fotografias mentais, palavras rebordadas, desenhadas, escorrerão de minha pena preta, juro.

Temo não conseguir chegar a lugar nenhum, o que está por vir, inesperado, fatal. Tremo um bocado, mas teimo em continuar. Padeço da cegueira do mundo estranho, do ninho de espinhos.

E no momento em que todos somem, não há nada pra me deter. E o que se fala ao meu redor não importa mais. Não há fronteiras, sons. Apenas um vácuo na existência. Sou matéria exposta, sou intempérie, fratura que dói, sou lágrima que não escorreu, sou o amor que ainda está por vir. Sem exclamações. Zen.

(Sinto pena de mim, por não poder me ver agora, momento único entre a síndrome da folha em branco e a síncope de criação.)

Agradeço à reciclagem, à folha parda, à ponta de aço que roça sobre o papel, deixando rastros de tintura e emoções à superfície da margem.

Rezo em transe sobre o caderno que abriga parcos sentimentos em pautas azuis. Dois pontos:

— Palavras cruas são vírgulas fora do lugar.

Reticências. Um dia, quem sabe… Virarei a página.

Eterno recomeço.
Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando… Esperando…

Ana.

(Texto e foto por Ana Letícia.)

***

Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também – dia 21!!!), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né? 😉

O vírus

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Bug

E se o amor fosse um vírus, já estaria contaminada. Infectada, sintomática, febril e delirante. Os sintomas se manifestariam e irradiariam pelos cabelos jogados ao vento, suspiros soltos pelo ar.

O desejo se manifestaria: de tocar e ser tocada todo o tempo, beijar, olhar, sentir cheiro de lembrança…

E então carregaria consigo o torpor da gripe, o ardor em seu corpo torto, manchas da doença cravadas em sua alma, como tatuagens de fogo, pele de carvão em brasa, rocha derretida, exalando perfume de capim limão.

Vontade de viver, pura e simples. Significados múltiplos em singelos afazeres e tilintar de dedos e impressões digitais…

Espirraria em alegria, assoaria o nariz transbordando coriza apaixonada em seu lenço de cetim. E o fluxo de amor correria em suas veias e a viciaria para sempre, e necessitaria dele para permanecer caminhando, em relação sine qua non, como o oxigênio e a fotossíntese.

E então, o vírus arrebatador, invadiria sua mente, romperia suas senhas e segredos, descobriria labirintos de memórias nunca dantes vasculhadas, derrubaria mitos, verdades, muros de arrimo e ouro em pó.

Até que estancaria por ali, do lado esquerdo do peito, de onde nunca mais pudesse sair, expulsando de lá os restos de pedaços de órgão destroçado e embolorado que um dia existiu, tomaria seu espaço, preenchendo as lacunas em formato de coração, derramaria paixão.

Cuidado. Pode ser contagioso.

Ana.

(Ana: Texto e foto – Bug.)

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Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né?

TRAPICHES 2 – JÁ ESTÁ NO AR!

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O segundo número da Revista Trapiches, nossa e-magazine sobre cultura, já está no ar, totalmente remodelada!

Esta é a capa:

Trapiches 2

Esperem só pra ver o conteúdo!

Acessando o site, vocês poderão ler todas as matérias, inclusive meus textos para a Revista Trapiches, nas seções:

  • “A Granel” – Matéria e entrevista com o cartunista de BH, Darío Velasco;
  • “Grãos” – Um mini-conto (Vício) e uma poesia (Escrivinhadeira);
  • “Olho Mágico” – Crônica sobre o filme Estômago, no Festival de Cinema de Tiradentes.

***

HOJE, em São Paulo, vai rolar um SARAU na Casa das Rosas (Av. Paulista, n°. 37), para o lançamento do n° 2 da Revista Trapiches, cria do Projeto Macabéa, a partir das 19h.

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Até mais ler!

Ana.

Ghost Writer

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Momento lembranças...

Vestido de fita
Cintura de pilão
Flanela, salopete
Saia de balão
Sinto muito se o seu cinto
Não é fino como o meu
Se eu não fosse pequenina
Mini-saia, pés-no-chão
Me amarrava em colo teu
E subia num balão
Vestida de chita
Ou pano de chão
Se eu me chamasse Rita
Seria mais uma rima
E não uma assombração.

Ana.

[Texto e foto (de foto): Momento Lembranças…]

Eu tenho medo de quê?

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Vazio

Notícia ruim
Ouvir o que não quero
Falar o que não devo
Acidentes de percurso
Pouca luz
Muita claridade
Barata
Cheiro de vela velha
Casa vazia
Ovo podre
Esgoto
Sorrisos falsos
Abraços magros
Beijos parcos
Cozinhas porcas
Risos poucos
Gritos tortos
O mundo adormecer
E o dia amanhecer
Sem paz.

Ana.

Lado B

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Oxigênio

Às vezes tudo o que consigo fazer é parecer pior que jamais pretendi.
Ficar a 1000 léguas de distância ao fim de tudo, do lado oposto ao que pretendia estar.
Esta é a minha arte.
Mandar quando não posso mandar
Não falar quando preciso falar
Chorar na hora errada
Rir nos piores momentos
Soar estranha como um sino que desafina
Ao fim da tarde de um domingo de mormaço em seus braços.
E me pergunto: por que sou assim?
Então me diz que não estou errada
E que vai dar tudo bem
E que o mundo é pequeno demais para todos os problemas insignificantes
E é aí que eu sei que desandei
Como creme de leite que talha
Ou o leite que entorna quando ferve em demasio.
O que fazer?
Apagar o fogo, assoprar o leite e rezar
Pra espuma baixar
Limpar a ferida
Enxugar as lágrimas
E que a maquiagem não borre
Jamais.

Ana.

(Texto e foto: Oxigênio.)