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Natureza viva (morta)
simples tom em si maior
me faz ser menos eu
me faz ser menos tua
me faz ouvir o que eu não quero
e dizer o que eu não sei
se eu não sou eu
e se nem ao menos sei quem sou
aonde vamos chegar com tanto quiprocó?
sem um sorriso, uma cova de estar
um laço na estrela
um nó no meio do mar
não chego
não falo
não sou perfume, vinho, pó.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Sombrinha ou guarda-chuva?

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Dia de chuva...

Dia comum, como outro qualquer, a começar pelo tempo doido que tem feito neste mês, calor excessivo, chuvas fora de hora, etc. O trabalho nunca é de menos, sobra dia no meu diminuto tempo. Comi a maçã cotidiana (“eat an apple a day and keep the doctors away”) e fui bater perna pra casa. Pessoas ainda implicam com minha insistência em caminhar… Emagrece, é de graça, ‘desestressa’ e é melhor que pegar ônibus ou pagar estacionamento, oras!

Justificativas a postos, tênis também. E a roupa própria de caminhante, óbvio. O mochilão carrega tudo que não deveria carregar: carteira, celular, iPod, roupas de trabalho, scarpin de salto, bolsa de maquiagem, pen-drive… A garrafinha d’água vai também – mas isso é necessário, certo? A função shuffle do meu music player costuma me pregar peças: tocar Sinatra logo após o Fat Boy Slim, por exemplo, ou uma clássica de J. S. Bach logo após um rock n’ roll da pesada. Mas de vez em quando ele funciona muito melhor que qualquer DJ dos bons, e engata sequências fantásticas e nunca dantes imaginadas, com músicas que têm tudo a ver entre si, mas que nunca foram gravadas juntas num CD só. Neste dia, peguei uma dessas, e enquanto meu passo avançava, meu bem-estar aumentava e o set musical se encaixava com pensamentos, paisagens, sons urbanos. O cheiro de chuva recente aumentava minha a confiança de que escolhera o melhor horário para ir embora: logo após a chuva, o chão molhado, o ar fresco, as plantas limpas, enxurrada zero. Maravilha!

Na esquina da Praça, a libertina chuva desabou sobre o “Curral Del Rey”. Enquanto muitos corriam em desespero, carros buzinavam, gente se amontoava embaixo das marquises, puxei triunfante minha sombrinha de dentro do mochilão (como um guerreiro saca sua espada) – uma mulher prevenida vale mais que duas, quase pensei em voz alta. Segui caminhando com a valentia de quem estava já na metade do caminho, empunhando o leve guarda-chuva de alumínio, e que confiava demais na auto-previsão temporal, de que os chuviscos seriam apenas uma pancadinha de verão e logo logo iriam passar.

Só que a tal ‘pancada’ virou rios e lamaçais… Quase tombei várias vezes, fiquei ilhada noutras, e por pouco não fui engolida por algum bueiro. O celular tocou num dos trechos mais críticos (claro, pois ele nunca toca quando você pode atender), quando a cachoeira – enxurrada – me impossibilitava de andar pela calçada e tive que subir a rua na contra-mão desafiando o trânsito.

Neste momento, tinha que atravessar uma larga avenida. O senhor de camiseta branca que caminhava sem o guarda-chuva amarelou no canteiro central, em frente à pororoca do Rio Amazonas que tomou o asfalto, deu meia-volta e me recomendou que fizesse o mesmo. Vá por outro caminho, por aqui não dá. Segui em frente. Até eu fiquei abismada com a destreza com que driblava as ondas do “rio”, não conhecia este meu lado pescadora do “Velho Chico”!

Consegui alcançar a outra margem. E aí?
E aí que chuva simplesmente PAROU no exato momento em que pus meus dois pés na calçada, do outro lado das cataratas do niágara, nenhuma gota a mais caiu do céu, as enxurradas secaram imediatamente, e o que antes era um rio, nem riacho ficou.

O resultado, em que pese a maquiagem intacta: cabelo desgrenhado, nenhum arranhão, alguns espirros na manhã do dia seguinte, muitas roupas e sapatos e tênis e mochila molhados, mas a certeza de que poderia ter morrido afogada numa enxurrada, como se já não bastasse ser chamada de pintora rodapé!

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

r.a.r.e.f.e.i.t.o.

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Soberbo

a cegueira do silêncio da noite
te nega e custa a chegar

não quer o gosto do oposto, o jeito do não
abraça o chão
inflama o vermelho, queima, dói
faz cortar
e não me fale de flores quando as dores insistem em ter razão

joga os dedos ao vento e o espera
como um alento para a cara secar
pútrido e abatido, parado e sofrido, ele chega
sem nem assoviar
derrete em carne a pele – parafina e pó-de-arroz
estanca a cicatriz com estopa de algodão-
-doce ilusão
a casca se quebra
tinge rubros cabelos e lençóis
levanta poeira e o elo liquefeito
é raro efeito
desfazendo-se em tuas mãos

com licença, é preciso sorrir
na esquina compre pílulas de felicidade
torne a dormir.

Ana


(Texto e foto: Ana Letícia.)

Impossibilidades Reais

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Fitas

Eu nunca não tenho nada a dizer, mas sou bom ouvido.
Só que ouvir às vezes cansa.

Humor entalado, amor enlatado, às vezes é bom usar um abridor, girar a torneirinha e deixar fluir. Sai casca, sai sangue, sai lágrimas, sai dor…
E vai embora pelo ralo.

Escorre um beijo no canto da boca, molha o molho do tom maior, que cai na clave de sol fazendo chuá.
Toca o sino pra parar de chorar.
Dia de oração, é dia de respirar.

Homenagem aos dias que se foram, saudades dos que estão por vir.
Se chorei ou se sorri, tudo vale à pena, se a alma da pequena, inflada de poesia, flutua por aí numa nau de emoções vividas, caras partidas e braços torcidos.

E chego à conclusão: amar nunca é demais.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Nhac!

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Pão torrado com queijo, alface, ovo, tomate e bacon. Um pouco de maionese para temperar. Voilá! O melhor sanduíche do mundo, bem ao alcance das mãos. Cai bem beber uma tulipa de chop bem gelado, ou um vinho tinto na temperatura certa, pra acompanhar esta perdição…

Duvidam?

Preguiçosos de plantão, madames de unha feita, saiam já da dieta e corram à cozinha. Vamos à receita:

Você vai precisar de:

– 2 fatias de pão (ciabatta, pão integral, caseiro, etc. Qualquer um serve, desde que possua massa firme e gostosa);
– 4 fatias grossas de tomate (prefira o tipo italiano, que é mais carnudo e tem pouca acidez. Mas se não tiver, qualquer um serve!)
– 2 fatias finas de bacon (compre daquele que já vem fatiado, daquela marca conhecida)
– 2 folhas de alface (crespo, roxo, normal, qualquer um serve.)
– 2 fatias Queijo (de preferência um que derreta bem – ou seja, ricota e derivados estão fora!)
– 1 ovo
– maionese

Primeiro torre as duas fatias o pão até ficarem douradas e crocantes. Derreta o queijo como preferir, no microondas ou numa frigideira no fogão. Despeje o queijo derretido em cima de 1 das fatias do pão. Reservve.

Na outra fatia, passe um pouquinho de maionese e cubra com as 4 fatias de tomate.
(A função da maionese é apenas para fixar o tomate, é bem pouca mesmo. Então, quem não gostar – como o
Allan – pode substituir por qualquer queijo cremoso capaz de exercer esta função.)

Frite o bacon.
(Importante: não use gordura para fritar o bacon, a não ser que queira ter um infarto já-já! Faça o seguinte: no microondas, cubra uma “pirex” de vidro com 2 folhas de papel toalha. Por cima, as fatias de bacon, e em cima delas, mais 2 folhas de papel toalha. Leve à potência máxima por uns 2 minutos e meio. Pronto! Fica crocante e saboroso, e a gordura sai no papel.)

O bacon vai por cima do tomate, e depois dele, a alface. Frite o ovo deixando a gema molinha. Deposite-o cuidadosamente sobre a alface. Por último vai a outra fatia de pão, que já está com o queijo derretido.

Para dar um toque de chef, parta o sanduíche ao meio e separe uns 2 cm uma metade da outra. Isso fará com que a gema estoure e escorra por todo o sanduíche. Acredite, é isso que o faz ficar TÃO bom.

COMA IMEDIATAMENTE!

Esta receita eu aprendi no filme “Spanglish” (“Espanglês”). Já fiz inúmeras vezes e é SEMPRE um sucesso. O maior segredo é usar ingredientes frescos e de boa qualidade, e cuidar para que a apresentação do prato seja igualmente apetitosa.

Ana.

*** Update ***

Gente, como já foi dito acima, conheci esta receita no filme SPANGLISH (“Espanglês”). Uma das personagens centrais é um chef de cozinha (Adam Sandler – fazendo um papel sério, diga-se de passagem), que num determinado momento, prepara sua versão do MELHOR SANDUÍCHE DO MUNDO – que é a receita publicada aqui.

A receita foi criada especialmente para o filme pelo chef Thomas Keller, que treinou Adam Sandler para o filme.

Óbvio que fiquei com água na boca e corri pra cozinha testar… Quem provou, gostou!

(Receita: Thomas Keller. Foto: internet)

Ali

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I am sailing

Me deixa dizer que não estou nem aí
Não estou nem aqui
Quanto menos ali
Me deixa esquecer o que senti
O que sei e o que não quero saber
Me deixa querer viver sem dormir
Não ouvir nada além de ir
E vir
Me deixe só
Sentidos
Arrepio nos ouvidos
Alegria boba
Um mergulho num mar de olhar
Saltarei piscando
Quem sabe voar?
E correndo vou
Até aí.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

O Começo do Fim

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Give me the light

E se a vida começa agora, o passado foi um ensaio.
Marionetes esquecidas num palco de dor e cor. Vimos brilhos e luzes, vestidos, pétalas de cor. Mas não estávamos vivos: manequins de vitrines sem coração… Não conta.

E se o ano começa agora… um, dois e… já!
(Aguardo acontecer.)

Tudo permanece igual, intocado. Ciscos de poeira pairam sob os raios da lâmpada halógena, acima de nossas cabeças. Nem um pio. Nenhuma alma. Apenas um cachorro molhado me encara, com ar de abandono. Cheira a beirada do vidro, e o focinho molhado encontra só cimento frio. Eu, impassível. O canino faz um muxoxo, franze as orelhas e crocita desesperado. Nada. Olha em torno, olhos de gato rompem o silêncio. E lá vai ele, se distrair com novas aventuras.

Sinto um cheiro doce inebriante. Será este o cheiro do mel? Algo coça meu nariz… Atchim! Pimenta, só pode ser. Um movimento em falso, dispara o alarme. Manequins também querem viver! Não apenas brincamos de faz-de-conta-que-é-assim.

Temperamos o foundue de nossas roupas com a mistura de sonhos e pulsos vibrantes. E a luz que cega a noite tromba em outros pés e outros cheiros. Tropeço por várias vezes, desacostumada a caminhar.

Será que viver é assim?
Cair, levantar?
Ensaiamos o futuro, vivemos no passado.
E o presente, sempre ausente, cai como um raio.
Relâmpago chega e já foi.
E se a vida começa agora…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Dois

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Flor de espinhos

Excito linhas

Enxugo rugas

Endureço mamilos
Pistilos em flor

A boca que umedece
Me aquece

Transpira o que é do bom

Cavalga com deuses
Desce ao inferno
Riso, choro, poesia, música

Silêncio.

Dois. Pois, sejamos.
Sois.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Memorial

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Mosaico, quebra-cabeça, ou jogo da memória?
Temo pela memória dos faróis, entes frios e empostados, vendo tudo quanto há, até o homem a pastar pães amassados, até mães desmanteladas. São asas quebradas de pássaros sós.

Temo pelo som que nunca ouvi, tremo pelas melodias dos vitrais empilhadas nos lençóis da sua cama de bilhar, manchada pelo fungo, pelo fundo do meu poço que empoçou em sua mente, e não te saiu da cabeça. E não pôde dormir mais.

Pilhei uma quimera da horta do rei. Gravei um escudo em cada ponta dos dedos. Impressões digitais padronizadas em polegares estranhos… Escadaria em paredes? Não, notas e gestos particulares, como processos mnemônicos para não esquecer o que ainda está por vir — explico, ainda atônita, já que pleonasmo demais causa excesso às vistas.

Vísceras encharcadas relembram DNA derramado em mesa de estar, noite anterior, calafrios e caipirinhas. E o virol do esquecimento cobre, impiedoso, quem não sabe nada e de tudo se despede, sem saber se já foi ou se ficou. Mais ou menos como postes e faróis, inanimados, empertigados, empoeirados seres invisíveis, imóveis, hiatos.

Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)

Butecando

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Uvas?

A boca queima o que está dentro do estômago. E o garçon? Congelado em cima do bar, onde os pães-de-alho não têm alhos, mas sim tomate seco. Peço dois, traço três. Gentileza da casa de pimenta no cacho.

Estrupício decide, então, o reino pelo gabola, e os sem-noção apagam as luzes que alumiam apenas asas de mariposas rodopiantes. Sozinhas no escuro, cantam melodias de comédia em pó. E haja ouvido para quem quiser escutar.

Só não se sente ao lado, ali, naquela mesa do bar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

***

Extra! Extra!

Darío Velasco expõe no dia 30/01, em BH na 4ª Edição do Quadrinho Nacional!

(Acesse também o Na Capa e leia a matéria sobre ele na Trapiches.)