Arquivo da categoria: Poesia

Na Espera

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Na espera

Calor na alma
Calor seco
Ventila calor
Ventila dor
Cadê o vento?
Se foi.
Casou com o sol
E nem me olha mais.
Apago as luzes pra ver se ele vem,
Mas o calor continua
Calo na alma
Calor na calma
E a cama me chama:
Vem dormir!?
Sonhar com o vento,
Com a chuva que não vem…
Vem cair na grama
Sem grana
Sem sentir e sem descansar
Cansada do ranso
Do banzo
Do banjo a tocar
Me jogo n’água
Tiro a anágua debaixo da saia
E me abano com palha
Até o fogo pegar.

Ana.

 

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Poesia em você

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Kibe poético

Não precisa ser poeta
Para ver poesia em gente, coisa, passarinho, avião…
Traduzir em palavras o sentir
O pensar
O gostar
É simples!
É só não se deixar constranger
É deixar fluir
Pensamentos que vêm e vão
Um mar de letras
O vai e vem da rede
Sentindo a brisa que vem de ti…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Cimento cozido

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Solzinho

O silêncio cega, mutila minhas mãos.
Aleijada, sigo no pasto: comer, dormir, acordar, trabalhar.
O ritmo da cidade engole e cospe sangue e fezes
No mesmo prato
Digere ratos, tritura fracos.
Oprimida, sigo por entre os que oprimo
Odiada pelos que odeio
Destemida, despudorada.
No mundo que não é de marshmellow
O chão fofo cede lugar ao cimento duro e cozido
Não há nuvens suficientes
O calor derreteu
Não há ácido suficiente
A pele descamou, o cérebro dissolveu
E o menino atravessa a rua de mãos dadas com o acaso
Desnudo, desnutrido, desavisado.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Warning

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Perigo, eu posso voar
Vou correr até me afogar
Perigo, eu posso sonhar
Vou comer até me acanhar
Perigo eu posso ser eu
Atracar os pés no chão e enxergar que é preciso sentir medo pra gente andar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Desejos

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Faça um pedido, eu vou te mostrar.
Um desejo apenas, que vou te brindar.
Faça o que eu faço, vou te falar:
Uma moedinha vou atirar.
Jesus pequenino, me faça um favor,
Atenda o meu pedido, uma boneca e uma flor.
Uma bicicleta, pro menino ao lado.
E que tenha sempre comida no prato.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

I.M.P.E.R.D.í.V.E.L

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Dica pra galera de Sampa, que não pode perder este lançamento de jeito nenhum!

EGA: O que nem Freud explica.

“Karla Jacobina é poetisa desde que se entende por gente e seu plano para o futuro é continuar sendo até morrer de velha. Bicho-do-mato-grosso domesticado por São Paulo. Bacharel em Direito, mas esse é um segredo que pretende não deixar para inventário, pois levará para o túmulo. Filha adotada de Iemanjá, Odo-Iyá! Morou a vida em apartamentos, razão de suas habituais infiltrações. Poderia ser claustrofóbica, mas aprendeu antes do medo a desenhar linhas de chegada. Caju mancha e mentira também. É míope, um e vinte e cinco de cada lado, mas enxergar através de lente de contato comprada lhe deixa cega. Dança é uma faísca que escapa dela. Poesia é outra.”
www.karlajacobina.com

Ana.

Tinta Preta

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Porto Seguro, Bahia 173

Tantas palavras corrrem e a tinta escorre no tubo que roça com a língua entre linhas espaçadas de um caderno só. Afinal, é apenas um caderno, é apenas uma vida, uma caneta em sobrevida, que nem marca se vê mais. Se bem que diferença alguma iria fazer, já que a língua japonesa ou oriental que seja, dos confins de onde se originou meu artefato de escriba, não é coisa com a qual eu tenha intimidade.

E no interior de um quarto semi-escuro, a mão quase treme e teima em tecer porcas e pobres e desconexas letras, num desafio ortográfico para grafologista nenhum por defeito… O ponto vira traço, um pingo vira letra ilegível, não sei mais se é acento ou rasura.

Rabisco uma vírgula que nem pausa é mais.
Vira um ponto num ponto qualquer de aterrissagem da ponta fina de onde mina minha tinta.
Preta.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Cruzadas

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Lua Gigante

E eu que nunca fui santa, um dia aprendi
A subir no salto e não cair em falso
Pés que se cruzam numa rua torta chamada amor.

E eu que nunca fui besta, um dia freira tornei
Na sexta-feira me atrasei, beata virei, num reza e lava sem parar
Mãos que se cruzam em prece e tocam o coração de quem passar.

E nós que somos tudo e não somos nada
Que somos juntos e estamos surdos
Calados no meio do barulho do mundo
Gritamos na rua torta pra ninguém escutar
Cruzamos os dedos e caímos juntos
E tocamos os pés com o luar
As mãos sob lençóis pescam paisagens e anzóis

Amor de dois
Dor depois.

Ana.

(Foto e texto: Ana Letícia.)

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Natureza viva (morta)
simples tom em si maior
me faz ser menos eu
me faz ser menos tua
me faz ouvir o que eu não quero
e dizer o que eu não sei
se eu não sou eu
e se nem ao menos sei quem sou
aonde vamos chegar com tanto quiprocó?
sem um sorriso, uma cova de estar
um laço na estrela
um nó no meio do mar
não chego
não falo
não sou perfume, vinho, pó.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

r.a.r.e.f.e.i.t.o.

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Soberbo

a cegueira do silêncio da noite
te nega e custa a chegar

não quer o gosto do oposto, o jeito do não
abraça o chão
inflama o vermelho, queima, dói
faz cortar
e não me fale de flores quando as dores insistem em ter razão

joga os dedos ao vento e o espera
como um alento para a cara secar
pútrido e abatido, parado e sofrido, ele chega
sem nem assoviar
derrete em carne a pele – parafina e pó-de-arroz
estanca a cicatriz com estopa de algodão-
-doce ilusão
a casca se quebra
tinge rubros cabelos e lençóis
levanta poeira e o elo liquefeito
é raro efeito
desfazendo-se em tuas mãos

com licença, é preciso sorrir
na esquina compre pílulas de felicidade
torne a dormir.

Ana


(Texto e foto: Ana Letícia.)