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Escrivinhadeira

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(Para entender – ou não – o texto que se segue, leia antes este poema do Paulo DAuria.)
Esta Aninha, tão pequenina, nem consegue escrivinhar mais…
Está cansada, tonta, ressacada, amassada, batida, moída, rouca, mas ao menos ainda respira.

Esta Aninha, tão pequenina, já não rabisca mais…
Está murcha, zonza, mole, acabada, acabando, atropelada, morrendo, matando, tentando sobreviver.

Não mete nem com um canivete!

O coração, um furacão preso entre dois pulmões, ileso não é.
Cicatrizes tomam tudo, como tatuagens que marcam para sempre a fronte que envelhece com o tempo.
E sua rala vida ainda persiste; sua saia, já não levita mais.

A alma entalhada, rasgada, cortada, parece um espantalho em forma de gente.
Traz um urubu como amigo num ombro, e no outro uma vara de pescar.
Pesca sonhos e tempestades, pesca cruzeiros no mar.

Não cansa nunca, essa Aninha!
Danada, safada, esperta a Aninha, fala o que a boca tem pra falar.
Fere e é ferida, sofre de morte morrida, noite sem estrelas e jardim enluarado.

Aninha é amiga, Aninha é demais.
Aninha, escrivinha mais?

Lá vai ela a rebolar, a soltar flechadas de verdade pelo ar.
Balas perdidas de caramelo e menta, pimenta malagueta pra temperar.
Não machucam, são de festim.
Festinha da Aninha, sempre a comemorar. Temporizar. Compreender.

Agora Aninha não quer nem mais escrivinhar.
Adeus, Aninha, vou desmaiar.

Aninha se cansou.
Aninha estafou.
Aninha mandou tudo pra puta que pariu.

À merda com essa Aninha.
Meu nome é Zé Pequeno, porra.

Ana.

Vai ver é assim mesmo…

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Abismo e céu

“Quero te encontrar mas não sei onde estou.
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo,
longe desta confusão e desta gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui.” *

Não posso ser daqui, pois não me encontro, não sei onde estou, e aí não te encontro também. Te chamo mas você não vem. Não há lugares calmos, aqui dentro tem um maremoto de ansiedade e insônia. Os ventos vêm e vão, sempre fortes e destruidores. Levam embora toda a cor, trazem a dor e a alegria de ser quem eu sou.

Todos falam ao mesmo tempo, ninguém se respeita. Não ouço minha própria voz, e nem a sua, perdida no meio deste chororô que não tem fim. Pare de gritar e de chorar de uma vez por todas, veja que o sol ainda brilha, e se olhe no espelho enquanto olha para mim, e veja a pérola no olhar, o sol a iluminar seu sorriso de canto de boca, o mesmo que deixa transparecer o furo mais profundo na bochecha.

E quando decido de uma vez por todas seguir o meu próprio furacão em forma de coração, e quando todo o universo parece conspirar para que tudo dê certo, e quando te avisto lá no fim do caminho de braços abertos a me esperar, e sei que estou chegando perto, cada vez mais… É que tropeço num riacho cheio de pedrinhas, caio de bunda, faço cara feia, enxergo peixinhos nadando no aquário ao seu redor, vejo capetinhas e anjinhos, e tem montes deles do sexo feminino também. E é neste exato momento de loucura e ansiedade total que você toca na água corrente com delicadeza, e de uma só vez faz espirrar um jato dela bem na minha cara, e me acorda de meus devaneios.

Então sigo em frente, tateando por lugares escuros, muitos sem paredes e corrimões. Desço alguns degraus e subo outros tantos. Não sei para onde vou. Onde estás?

“Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre. Está ficando complicado e ao mesmo tempo diferente. Estou cansado de bater e ninguém abrir.
Você me deixou sentindo tanto frio! Não sei mais o que dizer!” *

Texto e foto: Ana.

* (Letra da música: Meninos & Meninas – Legião Urbana.)

Este sorriso…

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Este sorriso…
meu sorriso procura
outro sorriso
procurado
amado
mordido
largado
meu sorriso é o teu sorriso
tua aura
tua alma
e a minha, toda pura
e só minha a festejar

meu sorriso procura
um ombro a se encostar
doído
macio
armado pra me aconchegar

meu sorriso é só meu
é só teu
sou eu
sentimento a transbordar.

Ana.

(Foto: Dália Negra)

Vou te contar:

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Marionetes

E então me pega pela mão e me puxa. Vem cá, quero te contar. E me leva prum canto, e me beija e me diz o que eu queria ouvir. Mas não estávamos sozinhos, havia pessoas à espreita. Uma. Duas. Não não, três. Querem me dizer alguma coisa. Como assim, está louca? Não tem ninguém aqui! Tem sim, só você que não vê.
Ela desce as escadas, e me olha. Fala comigo, mas eu não escuto. Você tira a camisa, pega minhas mãos, que se põem a passear. Me beija, me puxa, me vira o rosto. Eu falo, falo com você, que ela já vem. Você grita comigo (está de costas, não pode ver): – Não tem mais ninguém aqui! Desliza pelas minhas costas, elogia minha pele, me envolve.
Ela chega. Você se assusta e olha pra mim. Mas o que é isso? Ela me acusa. Diz que infelizmente é isso mesmo, e blábláblá. Que era melhor eu cooperar. Eu choro. Você chora. Pega um papel e uma caneta e se põe a anotar. Telefones, nomes, números. Ela a falar. Eu tonta, só choro, só choro, por que eu? Não fiz nada, não sei de nada, quem sou eu? Logo eu? Sou vítima, e não carrasca.
Ela não me ouve. Me algema, me leva, me prende. Acusada, acuada, injustiçada. Durmo num canto, congelada. Você me liga. De alguma forma, você me liga. Não sei como, mas você me liga. Dia amanhece, e aí sou eu que dou um jeito, e ponho-me a fugir. E eu corro pra longe, longe dali.
E converso e entrevisto as pessoas. E corro atrás da minha verdade. E denuncio, e te abraço, e me abraças, e choramos juntos. Ela vem e me leva de novo. E eu conto tudo. E ela acredita. Mas apenas cumpre seu papel.
E no julgamento final, a verdade. Fico livre novamente.
E ela se despede. E pede desculpas. E tu me beijas. E mesmo assim eu não fico feliz.
E eu acordo. Melhor assim.
Texto e foto: Ana.

# 1

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Primeiro post de 2008.
Primeiro dia de 2008.
Um ano novo que se inicia, vida nova, sonhos novos, promessas novas…

Peraí. Volta o disco.

Qual o sentido de tanto se festejar? De usar calcinha ou cueca amarela (ou vermelha), de comer uva e jogar as sementes pra trás, fazer orações aos reis magos, guardar semente de romã na carteira, pular 7 ondinhas, jogar flores no mar, soltar fogos de artifícil, estourar champagnes, beber até cair e comer até dizer chega???

Calma minha gente, nada mudou. Eu continuo a mesma (com um quilinho a mais por causa dos excessos, é claro), o mundo continua o mesmo, a roda ainda gira, e o relógio não parou. O que ocorreu foi que ontem o sol se pôs e hoje ele nasceu novamente. Igual a todos os dias. A mesma coisa.

E se o reveillon não existisse?
E se o ano, ao invés de 365 dias, tivesse 480? Ou então 200?
E se falassem que o dia tem 30 horas, e cada mês 65 dias?
Qual a diferença faria?
É claro que a vida seria diferente, mas é claro que seríamos acostumados a tal, e isto sim seria o nosso normal.

Só sei que faz bem renovar os sonhos, as metas, as promessas. É bom ter o sentido de recomeço, de mais uma chance, de um ano a mais de vida, pra consertar os erros cometidos, ou pra aprender mais um pouquinho e aí não errar mais, sei que é bom usar roupa nova e inventar receitas de ano novo, como “chá miraculoso de 7 ervas pra tirar mau olhado e chamar bons fluidos”, acreditar que a calcinha amarela trará dinheiro, e que a cor vermelha na roupa chamará o amor, comer lentilhas, uvas, romãs, ver os fogos, beber champagne, molhar os pés na água gelada da praia, abraçar os queridos, lembrar dos ausentes ou dos que se foram, desejar coisas boas.

É isso. A vida deveria ser assim sempre. Todos os dias deveriam ser comemorados e as esperanças serem realimentadas a cada nascer do sol. E só deveríamos desejar coisas boas aos outros, e lembrar dos amigos sempre, e encontrar com a família, e abraçar quem a gente gosta quando bem quiséssmos, sem esperar nada em troca, sem ter nenhuma data especial, nada.

Ter serenidade para fazer escolhas, maturidade para aceitar os erros, receber críticas, criticar sem desconstruir, ter a criatividade infantil e a sabedoria de um idoso, lutar pelos sonhos, fazê-los acontecer. Viver um dia de cada vez, com calma e temperança. Planejar, conversar, amenizar, pagar dívidas (não fazer outras), gastar menos, abraçar mais, falar mais vezes eu te amo, e ouvir mais vezes também.

Taí. Estas são minhas promessas de ano novo.

Ana.
(Foto retirada deste site.)

Whatever it’s gonna be, it’s gotta be

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portal para o mar

Há coisas que acontecem e a gente simplesmente não pode, não consegue evitar. Até tentamos, lutamos contra a maré, nadamos, nadamos, mas nem assim saímos do lugar. Queremos fugir, mas não conseguimos enxergar. Tateamos no escuro, procurando em quê se apoiar. Não há nada, só o abismo em que nos encontramos, o mesmo escuro de sempre, e caímos, caímos, por mais que tentemos pular. Uns chamam de destino, outros de fraquezas, há ainda quem fale em predestinação, safadeza, traição.

Mas como ir contra um sentimento tão forte? Uma atração maior que a força da gravidade? Uma sensação de impotência total, e sucumbência absoluta frente a tudo isso? E então deito de costas, e me ponho a boiar, deliciosamente fecho os olhos, e me permito sonhar. Conto carneirinhos, vejo desenhos em nuvens. Não olho para baixo, apenas sinto meu corpo cair, o vento soprando envolvendo meu corpo entregue ao simples ato de… cair.

E quando acordo deste sonho bom, sinto-me culpada por dormir tanto, sinto remorsos por boiar neste lago de águas doces e calmas durante horas, sinto dores, pois o chão é duro e a queda foi longa.

E todo dia é a mesma coisa. Tudo igual, tudo igual. A mesma tentativa de resistência, a briga interna, aí recebo um gostinho, ganho uma prova apenas, e é o bastante para a sucumbência. Para novamente pisar em falso e tropeçar em minha própria pedra no meio do caminho, se é que não era para ela estar ali, se é que o propósito do próprio caminhar não é justamente encontrar com tal pedra. Se é que esta pedra nada mais é que o retrato da minha imutabilidade, da minha incapacidade, da minha vida. Como um caroço no angu, ou uma pinta na pele alva, uma bolha no chocolate caseiro, ou ainda um retrato esquecido na parede.

Só sei que é impossível lutar contra. Continuarei sonhando, e caindo, e tropeçando. E lutarei a favor então. E viciada permanecerei neste círculo envolvente e impossível de administrar.

E seja lá o que Deus quiser. Ou o Diabo. Ou Buda. Ou Zeus. Ou whatever.

E bye-bye 2007. This is the end. O fim. “Zéfiní”.

E feliz 2008 pra nós!!!

Texto e foto: Ana.

BOCA

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Rosa Colombiana

BOCA
LOUCA
BEIJA EU
SEM PARAR.
PÁRA
NÃO PÁRA
BEIJA EU
SEM PENSAR.
ASSIM:
ASSADO
QUENTE
MOLHADO!
TERRA NEGRA
NUVEM BRANCA
ÁGUA
ESPUMA
SAL.
ABRAÇA O CORPO
NO CORPO

COLADO
GEMIDO
SUADO
RUÍDO
MORDIDO
PEDIDO
PERDIDO.

Ana. (Texto e foto.)

Mineiras, Uai: Um Presente de Natal

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O texto abaixo vou escrito a 6 mãos. Como? Oras, eu, Bela e Lu unimos nossas forças e cada uma escreveu um pedacinho deste pequeno conto natalino, saído diretamente de nossas cacholas para o dia 24/12/2006… E nada mais justo que homenagear vocês, caríssimos leitores, e minhas ex-colegas de blog com um texto tão lindo e tão surpreendente!

Gari, Bebela e Lúlis, amo vocês! Um Natal de luz, harmonia e amor para todas! E que 2008 seja surpreendente, mágico e repleto de sonhos se tornando realidade…

Ana.

Um Presente de Natal

Desde que se entendia por gente, Antonino morava na casa de pau a pique construída por seu avô em uma terrinha no meio do sertão. Minúscula gleba de terra que foi passando de pai para filho e da qual saía o sustento de toda a família. Foi com muito orgulho que o pai de Antonino lhe legou a casinha e o pequeno terreno que a cercava no dia de seu casamento com Jacinta, dizendo que com seu trabalho ele seria capaz de cuidar de sua mulher e filhos.

Assim, passaram-se alguns anos de trabalho duro, malgrado a seca que teimava em roubar os preciosos litros de água que nutriam os míseros legumes da horta de Jacinta e cavava profundas entalhas onde Rosinha, a vaca ancuda e magricela deveria ter o seu pasto.

Mesmo trabalhando duro sob o sol inclemente do sertão, Antonino não reclamava da dificuldade da vida e do suor que impregnava o seu corpo no final do dia, pois à noite ele recebia um beijo de Jacinta e um abraço apertado do filho Francisco.

Mas esse ano tinha sido diferente: a seca deu uma trégua a Antonino, o que lhe permitiu conseguir trabalho em uma propriedade nas redondezas e amainar a miséria que reinava na casa de pau a pique. E por isso, com algumas notas no bolso, Antonino resolveu que este ano a família comemoraria o Natal, não apenas com orações à meia noite como sua mãe havia lhe ensinado, mas também com presentes. Suspeitava de que Francisco sequer saberia o que significava o Natal, mas ele iria proporcionar ao filho uma surpresa especial.

Chegou em casa pensando no tecido florido que viu na vendinha da cidade mais próxima, e com o qual Jacinta poderia fazer um belo vestido. Sorriu ao imaginar a felicidade da mulher. Pôs-se, então, a pensar no filho. O que poderia agradar Francisco?

Francisco estava sentado na porta da casa, a camiseta suja de terra e os joelhos ralados, como qualquer garoto de sua idade. Correu para o pai quando o viu se aproximar e o abraçou, pulando em seus braços.

Isso encorajou Antonino a perguntar:
-Filho, o que você quer ganhar de presente de Natal?

Francisco o olhou com um inconfundível brilho de alegria nos olhinhos e disse entusiasmadamente:
– Pai, eu sei o que eu quero. Eu quero NEVE!!!

Assustou-se Antonino com tal resposta, e em seguida questionou ao filho de onde viera ousado pedido. A resposta foi rápida:
– Ouvi a professora Matilde dizer que na Europa as crianças brincam na neve no Natal. Então eu quero brincar com neve também!

Matilde era uma das poucas professoras da “Escola Felicidade” que se preocupava com o futuro das crianças, sem perder a esperança de que dias melhores estavam por vir. Assim, numa de suas aulas de contos, a professora Matilde leu aos alunos histórias sobre o Natal na Europa, e Francisco ficou curioso e encantando com a tal “neve”.

No entanto, este seria um presente quase impossível de Antonino dar a seu filho querido. O dinheiro que havia ganhado mal dava para comprar presentes e fazer uma cesta de comidas. Pensou que a solução seria viajar com o filho, mas para onde? Como?

Com sua pouca escolaridade, Antonino mal sabia qual era a cidade mais próxima que nevava. Havia viajado poucas vezes de barco e nunca de avião, como realizaria o sonho do filho?

Antonino informou-se com as pessoas mais ricas do sertão e descobriu que pouco abaixo da divisa do Brasil, a caminho do Uruguai, estava a primeira cidade que nevava. Mas sair do sertão e chegar até lá, como seria, quanto tempo demandaria… Teria que deixar de construir um Natal feliz para toda a família e apenas realizar o sonho de Francisco.

O coração de Antonino apertou. Jacinta, com seu amor incondicional, acalmou Antonino e disse para rezarem à Divina Providência, que com certeza uma solução apareceria.

Até que na véspera do dia de Natal um anjo tocou em Antonino, e o levou para bem longe da vida. A família inteira ficou alvoroçada, desnorteada, até esqueceu que era o dia do nascimento do menino Jesus. Esqueceu também de Papai Noel, esqueceu seus sonhos e planos. Francisco, da noite para o dia deixou de ser criança, e sentiu o peso do mundo em suas costas infantis, o peso que antes o pai carregava.

Dez anos se passaram e as coisas mudaram muito. Pouco tempo depois da morte de Antonino, Jacinta se juntou a ele, e Francisco se viu sozinho. Agora já era adulto, e cuidava de si com determinação. Casou-se com uma moça da cidade grande, Maria Lúcia, uma menina linda e sonhadora. Logo juntaram dinheiro para poder viajar, e foram tentar ganhar a vida nos Estados Unidos. A América era um sonho, uma chance de ganhar um dinheiro mais valorizado.

Chegaram a Nova York em Março, não estava nem quente nem frio. Chiquinho agora era “Frrranciscow”, como os americanos o chamavam. Fazia de tudo: pintava paredes, lavava pratos, latrinas e andava com os cachorros dos gringos. Impressionante como aqueles animais eram cheios de luxos que ele mesmo nunca tivera, nem sonhara existir.

Maria Lúcia cuidava da casinha que conseguiram alugar, bem longe do centro, e também trabalhava em casa de famílias abastadas, cuidando de crianças e fazendo de tudo um pouco. A vida não era nada fácil, aprender uma língua diferente e aparentemente difícil. As pessoas eram frias, distantes, mas achavam graça do jeito diferente dos brasileiros, do modo como falavam, e das coisas que comiam. Sentiam-se estranhos àquele local, meio excluídos, discriminados, mas levavam a vida assim mesmo.

O Natal ia se aproximando, Chiquinho e Marilú (como ele a chamava carinhosamente) não faziam idéia do frio que viria pela frente. Pela primeira vez viram que realmente uma pessoa poderia morrer de frio, pois até então, só tinham medo da fome e da sede que matava tantas crianças no sertão de onde vieram. Muita chuva e um vento cortante e gelado, e o dia parecia nunca chegar, pois a noite caiu sobre a agitada cidade daquele país estranho, e parecia que nunca mais iria terminar. A vida ficou cinza e sem graça.

Desde que seu pai morreu Francisco não se lembrava do que era o Natal. A Escola Felicidade ficara para trás há muito tempo, assim como a professora Matilde, e as lembranças daqueles poucos anos que vivera na roça em companhia de seus pais, Antonino e Jacinta. Há muito tempo não pensava neles, embora sentisse que sempre tinha uma mão por perto o amparando, nos momentos mais difíceis. Na verdade, Francisco não tinha tempo para pensar nessas coisas. Sua rotina era trabalhar, trabalhar, trabalhar. Muitas vezes dormia menos de 4 horas por noite, pois sua jornada de trabalho era longa penosa.

Não nevou nenhum dia desde que estava na América, de fato, o inverno estava atípico, bem mais ameno, diziam os “new yorkers”. Francisco nem se importou, afinal seus sonhos de criança já tinham se perdido, e nem mesmo do pedido de neve de presente que fizera ao pai anos atrás, ele se recordava. Até que na véspera de Natal, o que todos os americanos entendem como bom presságio para a noite do nascimento de Cristo, e para o ano que se aproxima, aconteceu… da forma mais inesperada e estranha que todos os habitantes do planeta já tiveram notícias…

Naquela mesma noite, Francisco e Marilú estavam de folga no alpendre de casa, e juntos bebiam “Cidra Cereser” que compraram numa venda de brasileiros num bairro próximo. De olhos fechados e de mãos dadas, Francisco sentiu um toque leve e gelado em seu nariz. Assustou-se com aquela nova sensação, e abriu os olhos. Os mais belos flocos de neve desciam do céu, e ele ficou cego de lembranças, de emoções, e de tudo aquilo que ficou tão bem guardado em seu coração há tantos anos. Lembrou-se de quando era uma criança, e de tudo o que já vivera: do pedido de Natal, de seu terno pai e da carinhosa mãe.

Por um momento, poderia jurar tê-los visto no céu lá do hemisfério norte, sorrindo e lançando confeitos de gelo. Imediatamente percebeu, como que por mágica, que em nenhuma outra casa da Big Apple caía um só floco de neve! Era como se Antonino finalmente realizasse o sonho do curioso menino, o presente de Natal de conhecer de perto da brancura e a leveza do gelo que caía do céu, e ao mesmo tempo acordasse o adulto Francisco da rotina e da dura vida que levava, para ser feliz com as pequenas coisas e sensações.

Naquela hora, Maria Lúcia anunciou que esperava um filho de Francisco, e a alegria tomou conta daqueles seres embevecidos pela beleza e pelo frescor do presente enviado dos céus.

Cantaram, gargalharam, dançaram, como nunca haviam feito antes.

A partir de então, Francisco entendeu o verdadeiro sentido do Natal: o que a neve trouxe foi a certeza de que seriam felizes, pois a felicidade estava nas menores coisas, e onde quer que ele fosse, nunca mais se esqueceria do amor por seus pais, por Maria Lúcia e o filho que iriam ter, e acima de tudo, do amor que o fazia seguir em frente, apaixonado pela vida, pelos sonhos, e pela magia do Natal.

Balões de Gás

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Flutuo sobre meus saltos, altos, finos e leves. Caminho sobre nuvens, em passos largos e saltitantes, com cuidado para não furar os flocos de algodão-doce sob meus pés de bailarina. Calejados pés, que sentem e sofrem, hoje e sempre, mas que me mantêm firme no chão, sonhando acordada e voando, como um balão.

Lá embaixo vejo cores: vermelho, amarelo, rosa, verde… Vejo fumaça e som, silêncio e música, carinho e sensações. Amigos, pais, flores e cerejas, chocolate e velinhas faiscantes. O vento me inebria, e a noite me envolve, molhada de chuva, suor, lágrima, cerveja, riso, fantasia e pirulitos. Passam luzes, passam carros, gritos e flashes. Pensamentos passam, e lembranças também. E o aperto de saudades do meu tamborim enche meu peito de batuque, cavaquinho e atabaque.

E a tradição vai se manter: eu sambo pra viver, e vivo pra sambar. E a chuva a cair, e o vento a soprar. O mundo gira, não pára nunca, e eu vou andando, caminhando lépida e sempre, correndo em direção ao arco-íris. Fujo do infinito, do céu e do outono, sonho com a Lua, e um perfume de gardênia vem me inspirar a noite, e um céu azul desanuviado amanhece na primavera de cheiro de terra molhada e plumas flutuantes. Estas sim, de vida curta, são como eu, dependem do vento pra assoprar. Já não disse o poeta, o grande maestro, que felicidade tem fim, como o carnaval?

Logo em frente, tem um palco. Subo as escadas e vejo tudo do alto. Luzes me cegam, e o barulho se agita em cortinas de metal e jasmim. E olhos a me procurar. Olhos a me fitar. Olhares que fogem, se encontram, e depois furtam mais alguns minutos de minha existência. Uma mecha escorre pela testa, por causa do vapor do ventilador. Estranheza, coração, surpresa, emoção.

Uma mensagem, duas, três. Guardo logo tudo de uma vez. Canto o parabéns, dou um rodopio, giro num pé só, pulo amarelinha, caracol e giramundo. Pensamento imundo de um insano trapalhão. Mundo tosco de uma noite de verão.

E viva eu, viva tudo, viva o mico narigudo! Viva nós, viva a chuva, viva o cheiro e o olhar, viva o presente e o que virá, viva o céu, viva a roda, o sorvete, o creme de leite e a lanchonete, o submarino, o submerso, o submundo, e o subversivo, o tropicalismo, o tropicaliente, o leite quente, e o invisível, viva o não-dito, viva o pensamento, viva a vida, VIVA!

Ana.
(Texto e foto.)

Perguntinhas Básicas

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Recebi este questionário em forma de “meme”, que me foi passado pelo Queiroz, que, por sua vez, recebeu da Luma

Querem saber o que eu respondi? Leiam abaixo, please:

1. Volume total de músicas no meu computador
R: Quase 6 Gb, o que representa mais de 3.000 músicas…

2. Último cd que comprou:
R: Na verdade foram 2 ao mesmo tempo: “Johnny Cash & Willie Nelson – VH1 Storytellers“, e “LOBÃO – Acústico MTV“.

3. Música que está tocando nesse momento:
R: A que está grudada na minha cabeça: “Nem sempre se vê! Lágrimas… No escuro!” (Lobão).

4. Cinco músicas que você mais ouve ou significam muito para você:
– One – U2 – A música de amor mais linda do mundo… (ouço muito e sempre significa alguma coisa);
– Faroeste Caboclo – Legião Urbana – Simplesmente a música dos meus tempos de colégio (ouvia muito, sei cantar de cor, e me lembra dos velhos tempos);
– Wish you were here – Pink Floyd – Porque diz tudo (e lembra muuuuuuita coisa!);
– Baby – Mutantes – Porque eu amo mutantes, e amo esta música (ouço todos os dias);
– I am the walrus – The Beatles – Porque eu amo rock n’ roll (ouço todos os dias)!

E eu não passo pra frente! Quem quiser responder, use a caixa de comentários, ou publique em seus blogs!

Ana.