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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

Monotemático

Padrão
(UPDATED!)

Mono-folha

Monotonia, monocelha, monocromático, mononucleose.
Monografia.
Isso sim eu poderia escrever.

Sobre como a vida dá voltas, sobre como o mundo é pequeno
E as coisas podem ser ironicamente deliciosas.
Sobre como é bom dormir e acordar
E como são novas as sensações
Tudo é antigo e ao mesmo tempo muito novo
Sobre como o tempo passa rápido e não quer parar
Um segundo.

(E eu não quero que pare. Pois agora que comecei, vou até o fim.)

Escreveria
Sobre o chiado, os cachos e o cheiro misturado.
E sobre corpos colados, carinhos
Sobre conversas
Choros e risadas
Gargalhadas entre beijos mudos e abraços surdos
E a cegueira pro resto do mundo.

Mas este texto monotemático chega ao fim.
Porque você já sabe disso tudo.

E prefiro guardar o resto todo só pra mim.

Ana.

(Texto e foto.)


:. UPDATE 26/08/2008 .:

Obrigada Grazi e Three Love’s pelos “Selo de Garantia” e “Prêmio Blog com Dardos”, respectivamente!


Time = Tempo

Padrão

Desliga o despertador
Isola
Joga fora
Apaga o celular
Manda pela janela
Faz o tempo parar!

Ana.

“And you run and you run to catch up with the sun, but it’s sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death”
(
Time – Pink Floyd)

Parou, olhou, chutou…

Padrão
Ignorância venenosa é pior que picada de cobra.

Prefiro as respostas imediatas às pensadas, medidas, dosadas. Mesmo que sejam apenas 45 segundos, estes seriam os mais demorados da minha vida. Não sei o significado que um procrastinador daria pra eles, mas com certeza não seria o de ignorar. Contudo, eu ainda constataria, com enorme certeza, que este sim seria o raciocínio mais rápido do mundo para se escolher meticulosamente palavras em doses pilulais, como remédio de criança, como paracetamóis de ação prolongada. Quando o que eu precisamente desejaria seria um tapa logo na testa, uma rajada de vento gelado e cortante, uma bolada no travessão, nos acréscimos da prorrogação.

Não pense que homeopatia não dói. É sim, muito doloroso engolir verdades comprimidas, cápsulas de português bem falado misturado com lágrimas veladas em glóbulos. Assim como dói agarrar boladas chutadas ao léu, tomar balas perdidas ou escarros de escárnio, gotículas de própolis pura em ferida aberta.

Mas a madrugada fria que me congela o pensamento traria consigo a ignorância e a certeza de que o assistiria parar na marca do pênalti e pensar. E desta vez, não seriam 45 segundos apenas.

E então, aos 46 minutos do segundo tempo, o árbitro apitaria, erguendo o braço, e depois o apontando ao centro do campo.

Fim de jogo. Um a um.

(Uma maca aparece campo adentro e encontra um coração despedaçado, juntando delicadamente cada retalho, a costurar com a delicadeza de rendas de bilros. Após três meses de fisioterapia, jogará novamente.)

BH_ 124

Ana.

(Texto e foto.)

E a vida?

Padrão

Cirque du Soleil

E a vida o que é?
É palhaçada ou não é?
É brincadeira ou não é?
Tem cambalhota?
Tem sim senhor.
Tem marmelada?
Tem sim senhor.
Tem piruetas, palco iluminado, trapezista?
Dançarinas, mágico, alquimista?
Tem bicicleta morro abaixo…
Tem cachoeira jorrando
Mágoas…
Tem gente se aquecendo
Luar…
Tem curvas, montanhas
Russas
Círculos concêntricos
Viciosos…
Tem amor.
Tem sabor.
Tem ódio.
Tem fantasia.
Tem alegria.
Diga lá meu irmão:
E o palhaço o que é?
É ladrão
De coração
De mulher.

Ana.

(Texto e foto: Ana.)

Coxos

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Para mudar a sua história...
Decrépitos, feios, sujos, leprosos, carregadores, catadores, maltrapilhos, mendigos, moradores de rua, periféricos, mancos, discriminados, renegados. A caminho da rodoviária, vejo-os todos, em seus trapos, carros de tração nas duas pernas.

Cobertor paraíba e travesseiro de pedra, em seu papelão de abrigo… Do frio, da noite, do mundo. O mesmo que os rejeita, engole, regurgita e cospe, num gozo capital, da capital da mina geral, do ouro das entranhas minerais, de esgotos e galerias pluviais, habitam as ruas junto aos ratos e gatos noturnos. Seres soturnos, calados, impávidos e obsoletos, criaturas de carros limpos e vidros fechados, passam também.

Seguem seus caminhos, ignorando-se mutuamente, todos: decrépitos, feios, sujos, leprosos de mentes, pensamentos e idéias, que atravessam a vida de coquetéis e ternos Armani, (ul-)trajes a rigor e convites formais.
Sem olhar pra trás.

Ana.

(texto e foto)

Será que lágrimas secam?

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Bem-me-quer...
[Press “play”.]

Será que lágrimas secam?
Será que é muito sentir?
Quando o som da boca tua provoca um arrepio nos ouvidos meus, percorre os nervos até o cérebro e retornam num pique-repique no coração
Então é a boca minha que se seca, e o olhar meu que se molha.
E dá vontade de gritar a todo mundo:
– Pode me escutar?
E nesta mesma fração de segundo fui à Lua e voltei, saltitando por luzes e faróis, correndo de carneirinhos com medo do bicho-papão.
E ao cair na imensidão do chão teu, encontro nuvens em pó e caminho iluminado, me agarro nos cachos teus e me deixo navegar.
– Me deixa morar neste azul?
– Me deixa encontrar minha paz?
– Você, que é bonito demais: Se ao menos pudesse saber que eu sempre fui só de você, e você sempre foi só de mim…

..
.

Sabe por que sentir saudades é bom?
Eu sei…

..
.

Ana.

[Texto e foto: Ana.]
[Song: Chan Chan – Buena Vista Social Club, by Radio.Blog.Club.]

Lá: onde se quer chegar.

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BH_ 009
O que fazer quando perfeito é pouco demais?
O que falar quando palavras se fazem desnecessárias, quando o silêncio faz parte, quando o peito aperta, e resta só a sua respiração?
O que fazer quando o tempo é longo demais, ou rápido demais?
O que fazer quando o alimento da alma nos sacia, e a fome aumenta ainda mais?
E o beijo que vem inesperado, sela o pacto, cala a boca que fala e a que nada diz, e prova mais uma vez que o silenciar é tão importante quanto o dizer, pois o pensar evita tanta dor…
E o perfeito é o suficiente, em seu mar de imperfeições, idéias e expectativas que ficam para trás. Novas que chegam e devem ficar. Futuro a conquistar.
E o coração dispara e aperta quando chega e quando dá tchau. E os olhos se fecham quando devem fechar, e os cachos se tocam quando devem enrolar, e a água escorre e aquece quando deve transbordar, e transborda quando deve esfriar. E o ritmo acelera quando deve cessar, e a cabeça voa para bem longe estar.
Para onde se quer chegar. Lá.

Ana.

(texto e foto)

Depois…

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Bibi fonfon

Depois que tudo passa, muito tempo depois, restam as lembranças. Sendo elas boas ou más, apenas elas ficam. Não que queira mais que isso. Apenas elas já bastam. A água que passou debaixo da ponte não volta mais — e todo mundo sabe que água reaproveitada não é própria para o consumo humano.

Você se torna mais um número na agenda telefônica. Daqueles que você ainda não apagou pois um dia na vida, outro na morte, poderá precisar de alguma coisa, que nem você mesmo consegue imaginar o que poderia vir a ser. Devolver aquele livro do Dostoiévski, talvez, ou o DVD dos Rolling Stones. Ligar pra conversar, botar o papo em dia… nem pensar! Que papo? Não existe mais papo ou notícia pra contar, acabou o diálogo, acabou a vontade de dialogar. Ficou tudo artificial demais, chato demais, na mesmice demais.

Colecionar fatos, pessoas, lembranças, mentiras, sapos engolidos, momentos. É disso que é feita nossa vida. E é isso o que acontece, depois que tudo passa. Mais um item na coleção de coisas passadas.

Você se torna mais um álbum de fotografias guardado no alto do armário, junto com todos os outros. No caso dos mais moderninhos, aos quais fotos impressas estão obsoletas, você vira uma imagem .jpeg gravada em CD’s e DVD’s de fotos esquecidos na estante, arquivos digitais que lotam as memórias dos chips das máquinas que já não são mais usadas, em pastas de computador que não são mais clicadas, abertas, expostas, lembradas. Você vira Um mero endereço de e-mail, ao qual mensagens de humor ou reflexão são enviadas — isso quando não se trata de arquivos horrendos e piadas encaminhadas de péssimo gosto, apresentações bregas de powerpoint, dessas que você nem manda executar, manda pra lixeira direto.

Mas te esqueceram de contar que depois que tudo passa, muito tempo depois, resta você. Resta a sua vida inteira pela frente. E isso já é coisa demais. E ponto final.

Ana.

(texto e foto)

Não me canso

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Não me canso

não me canso de te ver
teus olhos
tão longe
tanto amor
tanto tempo
tanta coisa
tanto faz
tanto fez
não me canso nunca
de querer
não me canso de pensar
de saber
de olhar
de sentir
não me canso
nunca
nunca
nunca

..
.

Ana.

(texto e foto)

Um dia qualquer

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Um dia qualquer

Um dia qualquer
Te encontro
Te puxo, te acho
Debaixo da cama,
Na máquina digital

Um dia qualquer
Te colo, te seco,
No sal da tua camisa
Vermelha
Impressa
Mãos em prece
Bola de cristal

Na esquina te procuro
No mar te mergulho
No suor me acho
No teu cheiro me perco
Na tua saliva me embebedo
De água, de cachos, de rubros abraços

E quando finalmente te encontrar
Serei eu a perdida
Jogada
Caída
Exausta
Moída
De tanto procurar.

Ana.

(texto e foto)