Res

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É como às vezes me sinto: coisa.
No princípio dos tempos, res familiaris. Criada no seio de uma família diferente, mas bem legal. Única filha mulher, a primogênita, primeira neta de meus avós paternos. Uma verdadeira res singularis.
Meus irmãos nasceram, meus pais acreditavam que “res inter alios acta, allis nec prodest nec nocet” – os atos dos contraentes não aproveitam, nem prejudicam terceiros, no caso, eu. Em casa, sempre tive minhas coisas separadas de meus irmãos, claro, por ser menina. Coisas de mulher, res uxoriae.

Na adolescência, ninguém me suportava lá em casa… A bem da verdade é que nem eu mesma me agüentava. Res inconsumptibilis, coisa inconsumível, intragável, inaceitável. Brigas constantes com qualquer coisa viva que me aparecesse pela frente. Cheguei a ser tida como um caso perdido, res amissa.
Virei mocinha e comecei a namorar. Virei res privatae, comprometida seriamente durante mais de 02 anos, muito nova ainda. Essas coisas de primeiro namorado, que você pensa que conheceu o homem da sua vida, e que vai ser pra sempre, estilo Romeu e Julieta, amores shakespearianos, enfrentando tudo e todos que se opõem – ou que, pelo menos, tentam mostrar a realidade.
Até que a realidade se escancarou para mim depois que entrei na universidade. Res universitatis. Julieta terminou com o Romeu e partiu para o abraço! Aproveitei mesmo, quer coisa melhor na vida que beijar na boca e ser feliz?
Mas… uma vez res in commercium, acabei conhecendo outro res in commercium, claro. E quem disse que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço? Res extra commercium me tornei, é claro. Relacionamento longo é isso aí, a gente passa a viver a vida do outro, a gente vira res incorporea, desincorporando de nosso próprio ser e passando a ser o outro. Até que cometemos erros, nos deparamos com incompatibilidades mil, e tudo um dia acaba nesta vida, até a própria, é o que dizem, não é? (E será que tem que ser mesmo assim?)
Sentenciei-me a tornar a ser res nullius, coisa de ninguém. Viva o passado, o que passou, passou, transitou em julgado: res judicata.
A vida é um ciclo: novamente res in commercium. E res singularis que sou, e também, é claro, res familiaris, sempre chamei a atenção. Tornei-me res furtiva, objeto de desejo de muita gente. Modesta, eu? Já disse que sou res singularis, é melhor ir se acostumando com este meu jeito res amissa de ser.
Falei que a vida é um ciclo? Pois é, estou ficando repetitiva. Mas não é que me deparei com outro res? Aí pronto. Publicae? Privatae? In commercium? Res aliena – coisa alheia – ou res nullius – coisa de ninguém? Surpreendente, inesperado. Um verdadeiro res humani júris, se auto-denominando res derelictae, coisa abandonada, maltratada, sofrida, dificultosa. Bradando por sua condição de res immobilis, soli, seguro na terra, paralisado, imóvel e imutável – ainda que não admita ou nem perceba tal clamor. Seria isso em virtude de sua vida atual ou de sua própria natureza?
Não sei… Não quero me tornar res inconsumptibilis novamente.
Melhor não misturar res publicae com res privatae.
Já disse muito, paro por aqui.
We're just two lost souls
“We’re just two lost souls / swimming in a fish bowl / year after year…”
(Wish you were here – Pink Floyd)

Texto e foto por: Ana.

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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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