Boi no Pasto

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Boi no Pasto

Poderia ser uma sexta-feira como outra qualquer. Mais uma semana de boi no pasto se passou, gado que trabalha como um burro de carga, estuda, come, dorme, conversa, sofre, chora, ri, escuta música…

Resolvemos cabular a já tradicional “Sexta Feliz” instituída pelos demais colegas de trabalho – uma simples reunião em um boteco qualquer na região do escritório, de preferência com comida boa, cerveja gelada, e que aceite um bando de “sem-noção”, com violão em punho, cantando desafinadamente e ou jogando truco. Mas desta vez o tal encontro seria num restaurante com rodízio de pizzas próximo: lugar chique em que a cerveja e o chope são caros, e, ainda por cima, não aceita cantores ou violonistas não virtuosos como nós.

Não, não, odeio rodízio de pizzas! Você nunca consegue comer a pizza que quer, e as que são servidas, em sua maioria, chegam a sua mesa já meio frias, remexidas. Para mim não há nada melhor que escolher no menu o sabor de minha preferência e aguardar, salivando, que ele chegue fumegando até a mesa. Não há nada melhor que ver o garçon partir a primeira fatia na sua frente, e poder ver o queijo derretido se espalhando nos outros pedaços, o aroma da iguaria italiana recém assada que tanto fez sucesso no Brasil, a liga de mussarela que não se solta quando a sua fatia é levantada e levada ao seu prato…

Por isso recusamos o convite. Preferimos ir, sozinhas, a outro boteco, especialista em picanha na brasa, mora? É o boi que estava no pasto e vai da churrasqueira direto para o seu prato, 400g de carne macia e bem passada – porque mulher não gosta de boi berrando – servida com farofa, vinagrete, e mandioca cozida na manteiga de garrafa. E uma Bohemia descendo gelada goela abaixo, porque ninguém é de ferro! Sem os coleguinhas de trabalho por perto, é possível falar dessas bobagens de mulher, extravasar as emoções, tão machucadas nesta sexta-feira em específico: resquícios de lembranças trazidas por uma notícia de falecimento, entre outras chateações do cotidiano que povoam as mentes femininas. Alguém aí arrisca um chute?

Falamos como pobres na chuva! E comida no papinho, pé no caminho, que o sábado nos aguarda, e já são mais de 20h, quase 14 horas fora de casa. É osso!
– Tchau amiga, nos vemos amanhã no churrasco!

Caminhei rapidamente para pegar o sinal verde de pedestres da Afonso Pena. Neste horário não há mais trânsito, e os carros sobem e descem a avenida como flechas. 60? 70? 100 km/h!? Ufa, cheguei viva do outro lado. Corri até o ponto de táxi. Um carro apenas aguardava desligado, com os faróis apagados, sem o motorista dentro. Na rua contígua, em outro ponto de táxi, alguém me grita:
– Cê quer um táxi, moça? Este aí foi ao banheiro e não voltou. Se quiser eu posso te levar.

Fui até lá, meio desconfiada, como boa mineira que sou, mas entrei no carro assim mesmo. A vontade de chegar em casa era maior que ficar na rua. Mais uma vez o motorista me explica que seu colega o havia pedido para vigiar o carro enquanto fazia suas necessidades fisiológicas.
– Un-hum, sei, sem problemas, moço. Toca pra Rua Gonçalves Dias, vamos para o Bairro Tal.

Já próximos à Avenida Álvares Cabral, muitos quarteirões após nossa partida, o silêncio havia se instalado no carro. Resolvi puxar papo, sobre o tempo, claro. Antes de abrir a boca, o motorista, que também pigarreava de 05 em 05 segundos, pareceu ler meus pensamentos, e comentou em primeira mão:
– Este tempo seco é uma merda! Estou com esta tossezinha chata, menina, a garganta arranhando, não é de hoje, e não consigo melhorar!

Concordei com ele, pois também era vítima das intempéries há mais de um mês. Perguntei se ele trabalhava só à noite. Sabia que não, pela aparência cansada de sua fronte, olheiras profundas e a cara de quem já quer ir pra casa. Ele me confirmou as suspeitas, claro, e emendou:
– Pois é, mais de 12 anos na praça, não é fácil não. Antigamente eu conseguia rodar até de madrugada, quase todos os dias, mas hoje em dia não faço mais isso não. Saio cedo de casa, e só retorno por volta desta hora, mais ou menos. Sábado também. Domingo, que é o dia de folga, também rodo, para aproveitar que é o dia em que não pago diária.

Indaguei o que ele tinha feito antes de se tornar motorista de táxi. (Taxistas adoram contar de suas vidas pregressas, principalmente para platéias atentas e interessadas.)
– Já mexi com comércio, e depois fui ser fotógrafo, durante muitos anos. Mas hoje eu nem sei mais o que é fotografar…

A partir daí a conversa fluiu. Notei um certo pesar em sua voz ao contar da vida de fotógrafo. Mirei o volante e entendi tudo, quando vi sua mão direita parcialmente mutilada. Pensei comigo mesma que isso não o impediria de manejar uma máquina, mas deveria dificultar bem. Pensei em perguntar se tinha sofrido algum acidente, mas me contive, deve ser doloroso falar com uma estranha. Chegamos ao meu destino.
– 12 reais, moça.

Paguei-lhe de bom grado, desejei boa sorte, e ele respondeu o mesmo, com alegria, como que me agradecendo pelo papo.

E a semana acabou. Hoje já é sexta-feira, e outra segunda-feira já está chegando, o pasto nos aguarda, tudo de novo.

Vocês que fazem parte dessa massa
que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
e dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
à margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
já sente a ferrugem lhe comer

Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz

(Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)

***

Texto: Ana.

P.s. 1: Texto inspirado nas “Taxitramas” do Mauro Castro.
P.s. 2: A foto é a capa do disco “Atom Heart Mother” do Pink Floyd, de 1970.

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Sobre Ana Letícia

@analeticia Autora do blog Mineiras, uai! desde 2004, nasceu em Belo Horizonte-MG. É advogada e sagitariana. Gosta de poesia, literatura, fotografia música boa e dança clássica, contemporânea, de salão, etc. Já quis ser bailarina, como toda menina, e até hoje fica nas pontas dos pés. Participou do Projeto Macabéa com outros escritores blogueiros do Brasil, e foi uma das editoras do Castelo do Poeta, junto com seu primo, o saudoso poeta João Lenjob.

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