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O Começo do Fim

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Give me the light

E se a vida começa agora, o passado foi um ensaio.
Marionetes esquecidas num palco de dor e cor. Vimos brilhos e luzes, vestidos, pétalas de cor. Mas não estávamos vivos: manequins de vitrines sem coração… Não conta.

E se o ano começa agora… um, dois e… já!
(Aguardo acontecer.)

Tudo permanece igual, intocado. Ciscos de poeira pairam sob os raios da lâmpada halógena, acima de nossas cabeças. Nem um pio. Nenhuma alma. Apenas um cachorro molhado me encara, com ar de abandono. Cheira a beirada do vidro, e o focinho molhado encontra só cimento frio. Eu, impassível. O canino faz um muxoxo, franze as orelhas e crocita desesperado. Nada. Olha em torno, olhos de gato rompem o silêncio. E lá vai ele, se distrair com novas aventuras.

Sinto um cheiro doce inebriante. Será este o cheiro do mel? Algo coça meu nariz… Atchim! Pimenta, só pode ser. Um movimento em falso, dispara o alarme. Manequins também querem viver! Não apenas brincamos de faz-de-conta-que-é-assim.

Temperamos o foundue de nossas roupas com a mistura de sonhos e pulsos vibrantes. E a luz que cega a noite tromba em outros pés e outros cheiros. Tropeço por várias vezes, desacostumada a caminhar.

Será que viver é assim?
Cair, levantar?
Ensaiamos o futuro, vivemos no passado.
E o presente, sempre ausente, cai como um raio.
Relâmpago chega e já foi.
E se a vida começa agora…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Memorial

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Mosaico, quebra-cabeça, ou jogo da memória?
Temo pela memória dos faróis, entes frios e empostados, vendo tudo quanto há, até o homem a pastar pães amassados, até mães desmanteladas. São asas quebradas de pássaros sós.

Temo pelo som que nunca ouvi, tremo pelas melodias dos vitrais empilhadas nos lençóis da sua cama de bilhar, manchada pelo fungo, pelo fundo do meu poço que empoçou em sua mente, e não te saiu da cabeça. E não pôde dormir mais.

Pilhei uma quimera da horta do rei. Gravei um escudo em cada ponta dos dedos. Impressões digitais padronizadas em polegares estranhos… Escadaria em paredes? Não, notas e gestos particulares, como processos mnemônicos para não esquecer o que ainda está por vir — explico, ainda atônita, já que pleonasmo demais causa excesso às vistas.

Vísceras encharcadas relembram DNA derramado em mesa de estar, noite anterior, calafrios e caipirinhas. E o virol do esquecimento cobre, impiedoso, quem não sabe nada e de tudo se despede, sem saber se já foi ou se ficou. Mais ou menos como postes e faróis, inanimados, empertigados, empoeirados seres invisíveis, imóveis, hiatos.

Ana.
(Texto e foto: Ana Letícia.)

Butecando

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Uvas?

A boca queima o que está dentro do estômago. E o garçon? Congelado em cima do bar, onde os pães-de-alho não têm alhos, mas sim tomate seco. Peço dois, traço três. Gentileza da casa de pimenta no cacho.

Estrupício decide, então, o reino pelo gabola, e os sem-noção apagam as luzes que alumiam apenas asas de mariposas rodopiantes. Sozinhas no escuro, cantam melodias de comédia em pó. E haja ouvido para quem quiser escutar.

Só não se sente ao lado, ali, naquela mesa do bar.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

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Extra! Extra!

Darío Velasco expõe no dia 30/01, em BH na 4ª Edição do Quadrinho Nacional!

(Acesse também o Na Capa e leia a matéria sobre ele na Trapiches.)

Se A, então B

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Filosofia de banheiro

Sonhei com números, acordei dividida.
Multipliquei dúvidas por aliterações
Dividi o sonho entre dor e paz.
O que me restou?
Paixão e sentimento exponencial
Amor: número primo, indivisível.
A raiz quadrada do sonho se desfaz
Sobra sexo, sono, som, fumo
Atos cotidianos que tendem ao infinito
Acordar, urinar, continuar
E sonhar acordada com cifras e milhares de milhões
Acasos formam efemérides e me dão noites sem dormir
De cor
Decoro
O coro
Decifro números, incógnitas e palavras
Frases lógicas brotam
Intrínsecas ao ser ou não ser
Senão, nada mais irracional que
Não estar
Não ser
Não te ter.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Em pílulas

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Miudeza

Eu não tenho um ângulo bonito
Não tenho paz
Não tenho pás
Nem sei como se faz
Ou se é atrás.
E se você não tem lóbulos
Dê-me logo meus glóbulos
De açúcar para remediar
Minha falta de ângulo
Minha falta de dor
De cor
De amor teu.
Quero gotas maiúsculas
E coisas minúsculas
Para guardar por entre minhas curvas
Dentro de meus retângulos circunflexos
De sentimentos convexos
Ósculos e amplexos
Que um dia você me deu.

Ana.

Síndrome

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Milagres

Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando… Esperando…

Aguardo um milagre… Um acontecimento? Não, apenas algo (ou alguém) passando por mim que me faça transcorrer impulsos nervosos do cérebro à mão. Fotografias mentais, palavras rebordadas, desenhadas, escorrerão de minha pena preta, juro.

Temo não conseguir chegar a lugar nenhum, o que está por vir, inesperado, fatal. Tremo um bocado, mas teimo em continuar. Padeço da cegueira do mundo estranho, do ninho de espinhos.

E no momento em que todos somem, não há nada pra me deter. E o que se fala ao meu redor não importa mais. Não há fronteiras, sons. Apenas um vácuo na existência. Sou matéria exposta, sou intempérie, fratura que dói, sou lágrima que não escorreu, sou o amor que ainda está por vir. Sem exclamações. Zen.

(Sinto pena de mim, por não poder me ver agora, momento único entre a síndrome da folha em branco e a síncope de criação.)

Agradeço à reciclagem, à folha parda, à ponta de aço que roça sobre o papel, deixando rastros de tintura e emoções à superfície da margem.

Rezo em transe sobre o caderno que abriga parcos sentimentos em pautas azuis. Dois pontos:

— Palavras cruas são vírgulas fora do lugar.

Reticências. Um dia, quem sabe… Virarei a página.

Eterno recomeço.
Caderno aberto, caneta na mão. E eu lá, quieta, esperando… Esperando…

Ana.

(Texto e foto por Ana Letícia.)

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Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também – dia 21!!!), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né? 😉

O vírus

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Bug

E se o amor fosse um vírus, já estaria contaminada. Infectada, sintomática, febril e delirante. Os sintomas se manifestariam e irradiariam pelos cabelos jogados ao vento, suspiros soltos pelo ar.

O desejo se manifestaria: de tocar e ser tocada todo o tempo, beijar, olhar, sentir cheiro de lembrança…

E então carregaria consigo o torpor da gripe, o ardor em seu corpo torto, manchas da doença cravadas em sua alma, como tatuagens de fogo, pele de carvão em brasa, rocha derretida, exalando perfume de capim limão.

Vontade de viver, pura e simples. Significados múltiplos em singelos afazeres e tilintar de dedos e impressões digitais…

Espirraria em alegria, assoaria o nariz transbordando coriza apaixonada em seu lenço de cetim. E o fluxo de amor correria em suas veias e a viciaria para sempre, e necessitaria dele para permanecer caminhando, em relação sine qua non, como o oxigênio e a fotossíntese.

E então, o vírus arrebatador, invadiria sua mente, romperia suas senhas e segredos, descobriria labirintos de memórias nunca dantes vasculhadas, derrubaria mitos, verdades, muros de arrimo e ouro em pó.

Até que estancaria por ali, do lado esquerdo do peito, de onde nunca mais pudesse sair, expulsando de lá os restos de pedaços de órgão destroçado e embolorado que um dia existiu, tomaria seu espaço, preenchendo as lacunas em formato de coração, derramaria paixão.

Cuidado. Pode ser contagioso.

Ana.

(Ana: Texto e foto – Bug.)

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Já que o Natal está chegando (e o meu aniversário também), não custa nada dar uma passadinha na minha lista de desejos, e abrir a mão um tiquim, né?

Lado B

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Oxigênio

Às vezes tudo o que consigo fazer é parecer pior que jamais pretendi.
Ficar a 1000 léguas de distância ao fim de tudo, do lado oposto ao que pretendia estar.
Esta é a minha arte.
Mandar quando não posso mandar
Não falar quando preciso falar
Chorar na hora errada
Rir nos piores momentos
Soar estranha como um sino que desafina
Ao fim da tarde de um domingo de mormaço em seus braços.
E me pergunto: por que sou assim?
Então me diz que não estou errada
E que vai dar tudo bem
E que o mundo é pequeno demais para todos os problemas insignificantes
E é aí que eu sei que desandei
Como creme de leite que talha
Ou o leite que entorna quando ferve em demasio.
O que fazer?
Apagar o fogo, assoprar o leite e rezar
Pra espuma baixar
Limpar a ferida
Enxugar as lágrimas
E que a maquiagem não borre
Jamais.

Ana.

(Texto e foto: Oxigênio.)

Sopro

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Grand Jettée
A dor que te esvazia o peito, invade minh’alma.
Sinto-a nos meus ossos, o coração murcha ao menor sopro de ventania.
Tua cabeça pesada sob um céu púrpura pende para o lado e jorra pensamentos de cristal.
A minha, firme como um peão em cima de boi bravo,
se fecha num mundo de tempestades e abismo.
Ainda bem que são nuvens passageiras. E o abismo tem chão.
Tem também uma cama elástica.
Uso-a pra pegar impulso e assim vôo alto, num sopro fúcsia juvenil.Alinhar ao centroSe meu corpo virasse sol, espalharia sementes de luz por teu caminho.
Olharias pra mim?
Depois daquela curva, colherias algumas flores?
Logo mais, outras brotariam.
Viriam louros e besouros. Sapos e ferroadas.
E…
Continuarias vivo.

Ana.

(Texto e foto.)

A pergunta que não quer calar

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— Se o amor ajuda o artista a criar?

Não.
O amor é uma merda pra criação do artista.
O amor é uma droga que nos deixa pairando pelo ar, indo à Lua e voltando num suspirar de coração apaixonado, vagando sem tocar os pés no chão, bem lá no alto, onde não há teclados voadores, e não se alcança papel nem caneta.
Não há poema de amor correspondido.
Não há texto de coração que não foi partido, arrancado, moído, cuspido, largado.
Não há conto tragicômico quando há amor a transbordar.
Mas…
Há vida sem amor?
Há vida sem amar-te?
Há vida em Marte?
Há vida sem a mor-te?

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)