Arquivo da categoria: Poesia

Lado B

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Oxigênio

Às vezes tudo o que consigo fazer é parecer pior que jamais pretendi.
Ficar a 1000 léguas de distância ao fim de tudo, do lado oposto ao que pretendia estar.
Esta é a minha arte.
Mandar quando não posso mandar
Não falar quando preciso falar
Chorar na hora errada
Rir nos piores momentos
Soar estranha como um sino que desafina
Ao fim da tarde de um domingo de mormaço em seus braços.
E me pergunto: por que sou assim?
Então me diz que não estou errada
E que vai dar tudo bem
E que o mundo é pequeno demais para todos os problemas insignificantes
E é aí que eu sei que desandei
Como creme de leite que talha
Ou o leite que entorna quando ferve em demasio.
O que fazer?
Apagar o fogo, assoprar o leite e rezar
Pra espuma baixar
Limpar a ferida
Enxugar as lágrimas
E que a maquiagem não borre
Jamais.

Ana.

(Texto e foto: Oxigênio.)

Os nossos

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Balanço

Então ouvi os sons
Criança correndo, brincadeira com balão
Risos ativos, passos corridos, pique-esconde, escorregador
Então pensei
Nosso quintal
Nossos a saltar
Nossos frutos
Nossos sonhos
Nossos dias, corpos nus
Cem palavras soltas
Sem ar
Então abri os olhos.

Ana.

(Ana: Texto e foto – Balanço. Modelo: Eduardo.)

***

Extra! Extra!

Amanhã sairá uma entrevista com meu avô, o Soié do blog Ontem & Hoje, no jornal “Folha de São Paulo”!
(Sim, meu avô, de 85 anos recém completados, também é blogueiro.)

Prestigiem!!!
www.ontem-hoje.blogspot.com

Inté mais ler…

Ana.

Sopro

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Grand Jettée
A dor que te esvazia o peito, invade minh’alma.
Sinto-a nos meus ossos, o coração murcha ao menor sopro de ventania.
Tua cabeça pesada sob um céu púrpura pende para o lado e jorra pensamentos de cristal.
A minha, firme como um peão em cima de boi bravo,
se fecha num mundo de tempestades e abismo.
Ainda bem que são nuvens passageiras. E o abismo tem chão.
Tem também uma cama elástica.
Uso-a pra pegar impulso e assim vôo alto, num sopro fúcsia juvenil.Alinhar ao centroSe meu corpo virasse sol, espalharia sementes de luz por teu caminho.
Olharias pra mim?
Depois daquela curva, colherias algumas flores?
Logo mais, outras brotariam.
Viriam louros e besouros. Sapos e ferroadas.
E…
Continuarias vivo.

Ana.

(Texto e foto.)

Duas faces

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Duas faces

Se até o espelho tem duas caras, o que dizer do Valete de Ouros? Num pé só, pula do cavalo e oferece bebida ao Rei.

O bispo, horrorizado, assiste a tudo de camarote em sua torre, uma taça de espumante na mão a delirar. Sonha mundos com tapetes voadores, donzelas inocentes e anjinhos a rezar. Os mesmos que hoje em dia trabalham como peões, em tabuleiros e plantações. Erguem tijolos sobre espadas, plantam flores entre os paus. Estacas que escalam copas e servem doce-de-leite ao jantar.

Uma canastra em forma de queijo da serra se posta, meia-cura, em cima d’uma emperiquitada Lua. Derrete-se em gotas puxa-puxa pelo Sol, o mesmo que nos aquece e queima os ralos belos cabelos castanhos da Rainha, envolta em manto azul aveludado com brocais. Nem percebe a fumaça a subir, de tão boba, esnobe a cacarejar empoleirada no seu canto, contando vantagem até a saliva viscosa babar. Mas não passa de dama matreira, donzela faceira que, de tanto pular, de galho em galho, há muito já se esqueceu o que é amar.

E o valete agora, onde está? Com o Coringão, a passear. Sozinhos nada podem fazer, mas se encontrarem uma rapariga num altar de Santo Antônio a rezar, nesta colarão até que alguém os mande soltar.

Parado como um dois de paus, pasta um cavalo com o porte de um ás. Já fora um garanhão, mas hoje nem pode sonhar. Abana o rabo prum mosquito, que pede pra pousar. Um pouco de companhia é de grande valia, minutos antes de cagar a escória do mundo atrás da moita, ou na água do mar.

Ana.

(Texto e foto.)

Duo

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Café da tarde

Dia vazio.
Nó no peito, também vazio.
Alma vazia de esperanças, rasas, ralas, profundas esperanças que (des) colorem o céu de branco e preto.
Mas quando tudo é assim, pouco, o outro lado está cheio. Recheio de palavras que não vão, pensamentos que não são, hesitações manifestantes.
A vida se enche de vento e se cerca de nós emaranhados, por entre assovios e cotoveladas. Nós, abraçados, aguardamos o dia que não vem.
A alma vazia de cores e plena de sons soturnos insufla o peito… Que se retrai.
Como? Não me perguntem. Não sou especialista.
Hoje o dia amanheceu assim.
Cheio de vento.
Vazio de vida.
Bicolor.

Ana.

(Texto e foto.)

das taras que um dia eu tive

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quisera eu poder contar minhas taras
meus brincos, minhas luvas
meus sapatos, cavalos marinhos
homens e cervejas e dias de folga e chocolates
quisera eu poder ter sempre uma tara a tiracolo
para usar quando necessário
noites de sexta feira e manhãs de sábado
filmes com pipoca em dias de lua cheia
beijos roubados, no pescoço
beijos proibidos, esperados
mar azul, janelas com vasos de flores
perfume de carro novo, presente bem embrulhado
bolinhas de sabão, cartas pelo correio
s
e
x
o
de manhã bem cedinho
quisera eu usar de taras bem colocadas
meias listradas em noites de inverno, choconhaque e festa junina
usar cobertor, roupa de cama limpinha e macia
dançar em volta da fogueira, contar estrelas
sentir cheiro de amaciante nas roupas, ver gotas de orvalho em pétalas de flor
toalhas fofinhas, azeitonas sem caroço
quisera eu viver numa tara só
de pôr do sol, de poemas, e de bilhetes desenhados
repassados, escondidos
viver de surpresas e de segredos ao pé do ouvido
viver pra deitar no colo
ganhar cafuné
ficar de mãos dadas e gargalhar
ouvir risada de criança e ver sorrisos sem dentes
cantos de passarinhos, cheiro de chuva, barulho de cachoeira
quisera eu poder me alimentar de taras e de sonhos
comer torresmo com limão, beber tequila e champagne
e matar a sede com coca light num copo cheio de gelo
quisera eu curar minha tara por olhares que se encontram
por paqueras
por msn
e um dia acordar e dizer
que já tenho tudo.

Das taras que um dia eu tive


Ana.
(texto, fotos e montagem.)

Originalmente publicado no M.A.C.A.B.E.L.A.G.E.M em 17 de abril de 2008.

5,000 minutes

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(Para ler a versão em Português, clique aqui.)

Fibras

Taste of honey and raindrops
Smell of country flowers and wet grass
My home land calls my name
Written in small petals
By golden dew drops
Like metal medals floating on your blue and white sea

To the long talks I’ll toast
To the long kiss I’ll say
5,000 minutes isn’t enough
5,000 kisses is what I want
Each night
Each sunlight
Until the wind sweeps the soul
And the moon whispers cold and silver words
And the night pops out of your dreams

Until then
Bright and calm I’ll lay in your arms
A little bee bug crying for one drop
Just a small taste
Of honey…

Taste of honey…
Tasting much sweeter than wine.

Ana.

(poem and photo)

E a vida?

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Cirque du Soleil

E a vida o que é?
É palhaçada ou não é?
É brincadeira ou não é?
Tem cambalhota?
Tem sim senhor.
Tem marmelada?
Tem sim senhor.
Tem piruetas, palco iluminado, trapezista?
Dançarinas, mágico, alquimista?
Tem bicicleta morro abaixo…
Tem cachoeira jorrando
Mágoas…
Tem gente se aquecendo
Luar…
Tem curvas, montanhas
Russas
Círculos concêntricos
Viciosos…
Tem amor.
Tem sabor.
Tem ódio.
Tem fantasia.
Tem alegria.
Diga lá meu irmão:
E o palhaço o que é?
É ladrão
De coração
De mulher.

Ana.

(Texto e foto: Ana.)

Um dia qualquer

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Um dia qualquer

Um dia qualquer
Te encontro
Te puxo, te acho
Debaixo da cama,
Na máquina digital

Um dia qualquer
Te colo, te seco,
No sal da tua camisa
Vermelha
Impressa
Mãos em prece
Bola de cristal

Na esquina te procuro
No mar te mergulho
No suor me acho
No teu cheiro me perco
Na tua saliva me embebedo
De água, de cachos, de rubros abraços

E quando finalmente te encontrar
Serei eu a perdida
Jogada
Caída
Exausta
Moída
De tanto procurar.

Ana.

(texto e foto)

Ouve só

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Cubos

Não sei dizer
Quando é tão bom ouvir sua voz
Se apenas sinto
Ou se falo
Se te beijo
Ou me calo
Se sonho ou se peço
Que fale mais
Fale sempre, aqui e agora
O timbre
O chiado
Sussurrado, ouvido, gozado
E a experiência de te ouvir se transforma
E viver se torna
Bom.
Mais uma vez
Eu sei.
Cala a boca e ouve.
Só.

Ana.

(Texto e foto.)