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Cartas achadas

Cartas achadas

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Entro em casa e parece não haver ninguém. Somente um espectro daquilo que era antes de irmos embora. Alguns cheiros, agora vazios, faziam imagens vivas de quem se fora.

Arrumo e desarrumo as malas, as roupas, meio sem saber por onde começar. Alguns papéis espalhados pela mesa, contas pagas, notas fiscais, cupons velhos que descontavam alguns centavos de compras que jamais seriam feitas.

Livros – ah, sempre eles! – fora da estante. Pelo menos uns três andaram passeando por outras bandas. Folheados, marcados, e agora, esquecidos. Minha caneta preta repousava em cima do jogo americano da mesa de jantar. Ensaiara notas musicais e outros desenhos num bloco mais ao lado. E pra lá deste, folhas soltas com sua letra me encararam.

Peguei as palavras, de supetão, coração disparado e as folhas nas mãos, estaria ele aqui ainda? Me senti estranha ao ler palavras escritas que não eram pra mim. Mas não eram pra ninguém, a não ser pra ele mesmo, o escritor que aqui sentava, antes de irmos embora.

Pareciam cartas jogadas, achadas, marcadas, um diário solto, que não tinha continuidade, mas que contava emoções e sentimentos, sonhos das noites anteriores, nada mais.

Mas este nada é muito mais que um simples nada. E somente eu seria capaz de entender as palavras, a começar pela letra, que pareço conhecer desde sempre. Somente eu saberia que, quando ele escreve, é porque está bem.

Então meu coração se acalma, e outras lembranças chegam. Lembranças de um tempo em que eu mesma escrevia e esperava cartas chegarem pelo correio.

E elas demoravam, mas chegavam. E eram pra mim.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

E quando…

E quando…

Vida que nasce das pedras. #tiradentes #mg

E quando tudo parece perdido, e a noite demora a lembrar?

E quando as coisas mudam, as pessoas mudam, e você não quer mudar?

E quando o céu já está claro e você, pensando que é noite, fotografa a Lua? Mira o infinito? Joga pedra na ilusão?

Paga o pato, enterra o cão.

São caminhos pontudos de ladrilhos e ladeiras, cadeiras desossadas de manhãs sem sorrisos. Os dentes, pendentes, esboçam sorrisos roucos, poucos, assistindo estáticos às estátuas perambulantes.

Não levam espaços, levam barcos a vela, pavios e sonhos. Levam ondas de um mar que não existe, para um lugar que não há.

Mas me calo, espero passar. Prefiro a tolice à desilusão.

Teimosia é me entregar ao chão.

Uma pirueta e lá vou eu. Atrás do trio, elétrico, só vai quem já viveu.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Olhando nos Olhos

Olhando nos Olhos

Hoje, 14 de março, é o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem a Castro Alves.

Nos seus olhos“ não foi o primeiro poema que declamei. Sempre gostei de brincar disso, mas nunca havia tentado em frente a uma câmera ligada apontada para mim – me sinto mais à vontade atrás das lentes.

O feito inédito foi presente do primo poeta João Lenjob,  projetando seu próximo livro, Verso Liso.

Mais sobre este e outros projetos no Castelo do Poeta.

Espero que gostem…

Ana.

Poesia em você

Poesia em você

Kibe poético

Não precisa ser poeta
Para ver poesia em gente, coisa, passarinho, avião…
Traduzir em palavras o sentir
O pensar
O gostar
É simples!
É só não se deixar constranger
É deixar fluir
Pensamentos que vêm e vão
Um mar de letras
O vai e vem da rede
Sentindo a brisa que vem de ti…

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

Xis

Xis
Fecha os olhos
Chiado miado contido
Chia no meu rosto
Roxo
Chega chorando
Chama por mim
Chia
Quer chantagem
Chiado manhoso
Manchado
Clama por manchetes
Chama por coquetes
Xinga a chuva
Sai na rua
Café com chocolate
Chope e chimpanzé
Chispa chiando
Chega a hora
De ir embora
Tanto chiou
Caiu
Chorou
Coração ficou
Chamando por ti.

Ana.

(Texto e foto: Ana Letícia.)

5.000 minutos

5.000 minutos

(Versão em Português para “5.000 minutes“)

Fibras

Gosto de mel e gotas de chuva
Cheiro de flores do campo e grama molhada
Minha casa chama por meu nome
Escrito em pétalas por gotas de orvalho douradas
Como medalhas de metal que flutuam em seu mar
Azul e branco

Às longas conversas
Brindarei
Ao longo beijo
Direi:
5.000 minutos não são o bastante
5.000 beijos são o que eu quero
A cada noite
A cada raio de sol
Até o vento varrer a alma
E a lua sussurrar frias palavras de prata
E a noite pular de fora de seus sonhos

Até lá
Brilhante e calma em seus braços
Um pequeno inseto clamando por uma gota
Apenas um gostinho
De mel…

Gosto de mel…
Muito mais doce que vinho.

Ana.

(texto e foto)

O Espantalho

O Espantalho

Som na caixa:

Remexendo em meus guardados e velharias, encontrei muitas coisas… Agendas cheias de adesivos e confissões de adolescente (só besteira, sem comentários), desenhos, (semi) projetos de quartos e casas nunca construídos, fotos do Mikhail Barishnikov, autógrafos dos Titãs e da Ana Botafogo, telefones de todos os colegas do colégio, da faculdade, do ballet, do inglês, professores de piano, galera do volley, do handball e do time de futebol feminino…
Cartas, muitas cartas… de amigos que moraram fora do país; de amigos só de carta mesmo (que nunca vi na vida), de ex-namorados, de admiradores (hã-hã); cartões de aniversário, de despedida, postais; convites de casamento, de formatura, de festas de 15 anos (saudades dessa época!); fitas de vídeo, de toca-fitas, CD’s e tudo mais… (sim, guardo tudo, e é muita, muita coisa!)

Mas o que mais gostei de achar foram 16 páginas manuscritas – por mim mesma – guardadas bem no fundinho de uma das pastas… Há tempos eu pensava sobre aquelas folhinhas, me lembro perfeitamente do dia em que as escrevi, há quase 07 anos atrás, linha após linha, no meio da madrugada! Eu era uma menina ainda, assustada, mas ainda assim imponente, me achava meio perdida entre o mundo adulto e a adolescência meio tardia, inconseqüente demais e responsável – também demais – tudo ao mesmo tempo, e com a vida inteira pela frente, mas me acabando pouco a pouco, insistindo em histórias malucas, roupas estranhas, idéias fixas e com medo de ser adulta (mas já o sendo, em tantos outros sentidos).

Não contarei aqui o que aconteceu naquele dia, o que me fez escrever 16 páginas seguidas, sem parar, acordando no dia seguinte com a mão calejada e dolorida, a caneta em cima da cama e muitas folhas de papel esparramadas por todos os cantos… Minha cabeça roda, roda, roda, e não chego a lugar nenhum, mas só sei que me lembro de tudo, e minhas antigas emoções vêm à tona e se confundem com a mente e com os sentimentos da mulher que sou agora, 07 anos depois.

Mas isto eu compartilharei com vocês:

O ESPANTALHO
Olhos que não vêem
Mãos que não tocam mais
Um dia tocaram sim
A música do acaso
O tecido aveludado…
Será verdadeiro?
O sentido, do tecido, do cheiro?

Na fotografia, retrato atordoado
De olhos amendoados
Esconderijo do menino assustado
Espantado
Espantalho.

O homem de lata queria um coração, e eu só pensava em ir pra casa…

Pela estrada dos tijolos amarelos
Andei
Chorei
Me conformei
Mas a pergunta ainda estava no ar
Junto com outras ocultas palavras
Carregas contigo?
Minhas cartas, onde estão?
Onde vão suas mãos, que não posso ver?
Onde miram seus olhos, que não os posso ter?

És atração para os corvos,
Espantalho
Menino assustado
Não temas aqueles que te mutilam,
São eles a razão de sua existência.

(Belo Horizonte, 23/05/2000, 02h 18m)

Ana.

Ps.: O lindo desenho do espantalho que ilustra o poema acima foi feito por Sara Neves, de 11 anos, “diretora” do site “Biblioteca Vila Deanteira“.